Pediatra explica se é melhor ou pior que irmãos partilhem quarto

Entre as dores de cabeça que dão as discussões e os momentos de cumplicidade, dois especialistas explicam os limites da partilha de quarto.

Caso a partilha de quarto seja obrigatória, há que apostar na parte decorativa, aconselha a psicóloga infantil

Quando a família começa a aumentar com a chegada de mais filhos, é frequente os pais ponderarem se as crianças devem ou não partilhar quarto. As dores de cabeça que dão as discussões por brinquedos, por causa da falta de espaço e até da privacidade compensam a aprendizagem de valores como o respeito e a partilha? De acordo com dois especialistas ouvidos pela MAGG há fatores a ter em conta antes de embarcar na aventura de juntar os filhos no mesmo quarto.

Para o pediatra Sérgio Neves e para a psicóloga Marta Falcão, o espaço existente na casa, a diferença de idades e o facto de serem rapazes ou raparigas são os principais aspetos a considerar. O crescimento também pode implicar que se repense a decisão: a chegada da adolescência implica alterações e o momento em que a personalidade dos miúdos se começa a impor também. Isso mesmo se vê nas três famílias com quem a MAGG falou.

O desafio da adolescência

Ana Rosmaninho, professora de 40 anos, tem três filhas de 15, 9 e 3 anos e decidiu juntar duas delas no mesmo espaço em tempos diferentes. Numa primeira fase juntou duas delas num só quarto. Mas quando uma chegou aos 15 anos, quis ter a sua privacidade e foi ocupar aquele que até ali fora o quarto das visitas. Só que quando nasceu a terceira filha o problema voltou a colocar-se. E aí a mais nova começou a partilhar o quarto com a de 9 anos.

“A pequenina adora, dá-lhe a segurança de que precisa”, explica a mãe. “Mas a do meio já começa a queixar-se de falta de privacidade, o que gera algumas brigas”, acrescenta. As horas para fazer os trabalhos de casa são as mais problemáticas. “Eu gosto muito de ti, não fiz nada de mal” foi a resposta da garota de 3 anos numa das vezes em que a irmã foi falar com a mãe por ela a estar a incomodar.

As queixas de falta de espaço, o mexer nas coisas que são da irmã, e perturbações nos tempos de estudo fazem com que algumas vezes a filha de 9 anos peça para mudar de quarto. No entanto, quando Ana lhe sugere que o faça, procurando reorganizar a divisão dos espaços da casa, a miúda recusa-se: tem medo de ficar sozinha.

Recentemente, com o furacão Leslie que passou intensamente por Coimbra, Ana Rosmaninho apanhou as duas filhas que partilham o quarto, na mesma cama, com duas lanternas debaixo dos lençóis. “Recorrem sempre umas às outras em situações de medo e de doença”, diz a mãe. “Se uma se sentir mal durante a noite, resolvem a situação se puderem, antes de chamar os pais”.

Por mais que se zanguem estão sempre as três do mesmo lado quando há confusões com os pais. “Protegem-se muito”, garante a mãe. No verão, a mais velha teve que dormir com a mais nova e apesar de mostrar algum desagrado ao início por ter uma responsabilidade acrescida, acabou por gostar.  Muitas das vezes, enquanto estuda, a pequena também gosta de ir para o quarto dela ver um filme e quando esta adormece, a mais velha vai colocá-la na cama.

“Gostam umas das outras de igual forma, partilhem quarto ou não. O núcleo entre elas é só um”, respondeu a mãe quando questionada sobre a possibilidade de haver relações distintas entre as filhas.

Este foi apenas um dos casos em que as raparigas demonstraram muito mais cedo a vontade de ter o seu próprio espaço. “As raparigas entram na adolescência cerca de dois anos antes dos rapazes”, afirma o coordenador da unidade de pediatria da Clínica de Santo António, na Reboleira (Amadora). “É normal que comecem a descobrir o corpo mais cedo. Começam a querer olhar-se ao espelho e até a escolher as roupas com maior privacidade”, acrescenta a psicóloga na Clínica da Mente, em Braga.

Marta Falcão, psicóloga da Clínica da Mente, em Braga, e Sérgio Neves, coordenador da unidade de pediatria na Clínica de Santo António, na Reboleira e pediatra na Clínica Lusíadas, em Almada

Por outro lado, a psicoterapeuta adverte para a idade em que os pedidos para mudar de quarto são feitos. “Uma criança, por exemplo, de 6 anos, não tem autoridade para pedir um quarto. Deve esperar-se até ser mais velho e até mostrar constantemente vontade de ter o seu próprio espaço”, refere.

A cumplicidade aumenta com a partilha do espaço?

Experiência diferente teve Márcia Mendes, de 45 anos. As duas filhas, uma de 7 e outra de 4 anos, sempre tiveram os seus próprios quartos. Apesar de estarem no mesmo colégio, em salas diferentes, quando chegavam a casa não brincavam como irmãs. Cada uma ficava no seu quarto nas suas próprias atividades e ainda discutiam por quererem brinquedos que uma ou outra tinha levado para o respetivo quarto. “Pediam para trazer alguém cá para casa para brincarem, mas só entre irmãs, não o faziam”, explica a mãe que até há pouco tempo o foi a tempo inteiro.

Há pouco mais de um ano, na tentativa de combater a falta de cumplicidade entre as filhas, Márcia perguntou-lhes se queriam partilhar o quarto e elas aceitaram a ideia com agrado. “Mudei as duas para um quarto e fiz do quarto livre um espaço comum para os brinquedos”. Cada uma tem a sua cama e a sua secretária, mas partilham a mesma divisão. “Já interagem muito mais e combinam brincadeiras na escola que querem fazer em casa. A mais velha até ajuda a irmã a vestir-se e a lavar os dentes”, congratula-se.

As brigas acabaram a partir do momento em que todos os brinquedos ficaram num quarto e tornou-se tudo muito mais simples desde que as juntou. “Ganharam o hábito de conversar antes de adormecer, algo que não acontecia até então. A mais velha aparecia muitas vezes na sala por não conseguir dormir e chorava por estar sozinha”, conta a mãe. “Agora a história que se conta para as duas à noite é a mesma e eu e o pai partilhamos esse momento com elas”, sublinha. “Ficou tudo mais calmo. Elas sentem-se acompanhadas e nós, pais, sentimos que são cúmplices”, conclui Márcia Mendes.

As opiniões dos dois especialistas ouvidos pela MAGG divergem em relação à necessidade de partilhar o quarto para criar cumplicidade entre irmãos. “Pelo contrário. Os conflitos até se podem agravar pela necessidade de gerir melhor o espaço, ou pelas diferenças nas rotinas, principalmente a partir da adolescência” alerta o pediatra Sérgio Neves. Já Marta Falcão frisa que “a cumplicidade é um dos muitos benefícios de terem o mesmo quarto. A hora de deitar também pode ser mais tranquila, dependendo da rotina de cada criança”.

E há sempre a ter em conta a personalidade de cada um, decisiva nesta matéria. “Se as personalidades dos irmãos são muito distintas é mais difícil mantê-los no mesmo quarto”, responde a psicóloga.

“Quando o meu irmão está ‘é mais melhor'”

Em casa de Carolina a história foi outra. Com um filho de 8 anos de um casamento anterior, e uma menina de 4 anos do seu atual parceiro, a educadora de infância, de 39 anos, teve de encontrar uma solução que agradasse ao rapaz. A custódia partilhada não permite que Carolina esteja sempre com o filho. Fica com ele às segundas-feiras, às quartas-feiras e em fins de semana alternados. Tentou que o filho tivesse o seu próprio quarto, mas tal não foi possível porque ele acordava muito.

“Quando a menina nasceu, ficámos todos no mesmo quarto. Havia uma cama de casal, uma para o meu filho e um berço para a bebé”, conta Carolina.“Se vocês podem dormir juntos, porque é que eu tenho que dormir sozinho?”, perguntava o filho. Em casa do pai, o menino  tem um quarto só para ele e em casa da mãe só aceitou sair do quarto dela quando a irmã se pôde mudar com ele.

“A minha filha sempre foi uma criança mais independente e o irmão é, por natureza, muito afetuoso, por isso optámos por um beliche para ver se os dois gostavam”, explica Carolina. Mas a estratégia não funcionou (o rapaz sentia-se longe da irmã). A mãe só começou a ver algum progresso quando decidiu comprar duas camas, juntá-las e colocar peluches a formar uma espécie de barreira.

“Depois de duas semanas reparei que os dois acordavam a meio da cama, muito próximos um do outro e percebi que se sentiam aconchegados”, diz Carolina. Decidiu tirar os peluches e colocar um suporte que juntasse as duas camas, de forma a que ficasse uma espécie de cama de casal. “Eles não têm consciência que dormem juntos. A minha filha aprendeu a precisar do irmão e o meu filho sente-se aconchegado e seguro”, acrescenta.

“Quando o meu irmão está em casa é ‘mais melhor’. Fico ‘mais melhor’, feliz com o meu irmão lá e assim consigo dormir”, diz a miúda enquanto ouve a conversa da mãe com a MAGG.

A psicóloga Marta Falcão vê vantagens na partilha do espaço. “Ao crescerem no mesmo quarto aprendem a respeitar o espaço do outro, a reforçar laços, a partilhar e até a tomar conta dos irmãos”, explica. No mesmo sentido vai o pediatra Sérgio Neves, destacando ainda o desenvolvimento de competências de organização e a supervisão de um dos irmãos pelo outro.

O importante é não generalizar, pedem os dois especialistas. De qualquer forma, Marta Falcão defende que o ideal é cada filho ter o seu próprio espaço enquanto o pediatra recorda que a partir dos 10 anos começa a surgir a necessidade dea criança ter um quarto individual. “O cenário perfeito é, havendo possíbilidade, cada filho ter o seu quarto, e criar-se uma área comum, seja uma sala de brinquedos ou uma sala para estudar“ afirma a psicóloga. Caso as condições não o permitam, aconselha a que se opte pela decoração do mesmo quarto para adaptar o espaço ao gosto de cada filho. Assim, de alguma forma, constrói-se a ideia de que cada um dispõe do seu cantinho, com a sua identidade, embora estejam dentro das mesmas quatro paredes.

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