Antonella Lattanzi e a violência doméstica: “Somos todos potenciais vítimas”

Neste novo livro a escritora aborda a agressão com a ideia de que ninguém é totalmente bom ou mau. E que há um preço a pagar no amor.

"Um história negra" foi traduzido para dez línguas e vai ser transformado em série de televisão

Passou cinco anos a conviver com toxicodependentes para escrever o seu primeiro romance. Agora, já no terceiro, Antonella Lattanzi não abandonou os temas pesados e debruçou-se sobre a violência doméstica.

Falou com vítimas, com criminosos e concluiu que não não há pessoas totalmente boas nem pessoas totalmente más e que todos podemos ser tudo. Carla, a personagem principal de “Uma história Negra”, lançado agora em Portugal pela Penguin Random House, começa por viver num mundo em que basta um vestido mais curto para se tornar uma vítima de Vito, o marido violento. A reviravolta dá-se quando Vito desaparece misteriosamente e, sem querer fazer soar o alarme de spoiler alert, tudo indica que o rótulo de vítima não serve, de todo, para catalogar ninguém, muito menos Carla.

Antonella Lattanzi está em Lisboa para apresentar o livro, que já foi traduzido para dez línguas e vai ser transformado em série de televisão e, numa altura em que a violência de género está mais em voga do que nunca, a MAGG conversou com a autora que decidiu escrever uma história de amor negro para retratar uma sociedade que continua longe dos contos de fadas.

O livro conta a história de Carla, uma aparente vítima, e de Vito, o culpado. Mas a história desenrola-se e os papéis quase que se invertem. Há uma moral a tirar desta reviravolta?
Não existe uma moral, não gosto nada de romances com essa ideia de moral no fim, que tenham como objetivo ensinar algo. Eu escrevo para contar uma história na qual espero que o leitor se reconheça e que sinta que fala também de si, mesmo quando não é uma mulher, nem uma vítima de violência. Acredito que todos temos algo em comum e é por isso que crio personagens que sejam ambíguas, que tenham um lado bom e um lado negro.

Habituámo-nos a dividir o mundo em bom e mau, mas o mundo não funciona assim.”

Isso porque não há pessoas inteiramente boas ou pessoas totalmente más?
Na vida real é assim. Claro que há pessoas mais hipócritas que outras, pessoas melhores que outras, mas não há nenhuma que seja totalmente hipócrita ou outra que seja totalmente boa. Habituámo-nos a dividir o mundo em bom e mau, mas o mundo não funciona assim. Ao fazer isso, ficámo-nos apenas pela superfície e para mim é importante ir ao fundo da questão. É por isso que crio personagens que sejam o mais próximas possível do que é a realidade.

Porque é que esta é uma história negra?
Porque o que está na base da história é um evento negro que se propaga em efeito dominó. Começa por afetar uma pessoa e, aos poucos, chega a todas as outras em seu redor. Como os grandes mestres do noir, como Georges Simenon, tentei usar um evento negro como uma parábola para o mundo, porque é nos acontecimentos mais negros que se conhecem verdadeiramente as pessoas. Além disso, é um romance negro porque fala de pessoas com relações obsessivas, ainda que com um enorme e sincero amor a uni-las.

Apesar de negra, é também uma história de amor?
Sim.

Mas porque o amor também tem um lado negro?
Não digo que o amor per si tem sempre um lado negro, até porque há formas felizes de amar. Mas a felicidade não é eterna e mesmo que nos entreguemos a alguém não podemos esperar que, por isso, seja eternamente feliz nem que a outra pessoa o seja também. A outra pessoa é a outra pessoa, ponto. É que o amor, apesar de te dar tanto, também te limita. O amor é uma ótima metáfora da realidade: não existe só felicidade, existe também um preço a pagar.

Estava à espera deste sucesso?
Fiquei surpresa sim, até porque na altura toda a gente me dizia para não escrever esta história.

A história que Antonella conta no livro está a ser adaptada a série de televisão

Porquê?
Principalmente por causa da personagem principal, a Carla. Não é uma personagem fácil, não é a típica mulher santa que vemos retratada muitas vezes nos livros e, por isso, diziam-me que talvez não fosse o momento certo para isso.

Mas pelo facto de a Antonella ser mulher ou de a personagem principal ser uma mulher?
Pelo facto de Carla, a personagem, ser uma mulher. Estamos a viver tempos conturbados, tempos em que a violência sobre as mulheres é tema comum. Era fácil escrever um romance no qual a mulher fosse uma santa, uma vítima, muito mais do que esta personagem ambígua como a que eu criei.

Quis também dar esse lado feminino mais negro?
Quero dar o outro lado do ser humano, não necessariamente da mulher. Carla é uma mulher porque, por acaso, é uma mulher. Podia ser um homem, isso para mim não é o mais importante. O importante para mim é mostrar que o ser humano não é só branco nem só negro e que todos somos potenciais vítimas.

Todas as mulheres que trabalham sentiram, por mais subtil que tenha sido, alguma forma de violência de género.”

Como é que vê o movimento #MeToo?
É muito, muito importante. Abriu os olhos para uma realidade horrível, que é, além do abuso sexual claro, o abuso de poder. Todas as mulheres que trabalham sentiram, por mais subtil que tenha sido, alguma forma de violência de género. Falo aqui não tanto da questão sexual, mas sim do tal abuso de poder.

Mas acha que as mulheres consideram que esses pequenos atos são violência?
É isso que este movimento veio mudar. Veio mostrar que podemos dizer que não até mesmo a esses pequenos gestos.

Acha que este tema tem sido abordado com a importância merecida?
Antigamente este era um trabalho mais solitário. Havia um escritor que escrevia um livro com este tema, um jornalista que falava do assunto, mas nada de tão massificado como agora. Gostava, e tenho esperança que aconteça, é que este não fosse mais um movimento social que funciona tipo bomba mas depois é esquecido. Temos armas fortes para mudar as coisas a longo prazo.

Disse uma vez que a comunicação social nem sempre trata estes temas de forma adequada. Como acha que o tema da violência devia ser explorado?
Eu escrevi esta história porque, no geral, quando se fala de eventos negros como homicídios ou violações nos jornais, por uma questão de falta de tempo e de recursos, o tema é visto muito superficialmente. Há sempre o bom e o mau da fita e pronto.

Mostrar que não há bons e maus ajuda a explicar o sucesso deste livro?
O sucesso é algo difícil de explicar. O que os leitores me dizem é que se reconhecem nestas personagens, mesmo não tendo vivido uma história parecida.

O que é que esta história tem de si?
A absoluta esperança, se não certeza, de que as coisas podem mudar. Que temos nas nossas mãos a responsabilidade da nossa vida e que mesmo quando tudo está contra nós não nos podemos dar por vencidos. Há sempre forma de renascer.

Para o seu primeiro livro, “Devozione”, passou cinco anos a viver de perto com viciados em heroína. Como foi a preparação para este livro?
Falei com muitas vítimas de violência, com os abusadores, com os filhos desses casais. Sou uma apaixonada por tudo o que sejam processos criminais e, por isso, passei horas a lê-los, horas em tribunais e horas em frente à televisão a ver um canal italiano que tem um programa filmado dentro de uma sala de tribunal.

Os homens tendem a não ler livros escritos por mulheres, a não ver filmes realizados por mulheres, a não ver séries protagonizadas por mulheres, porque pensam sempre que tudo isso tem uma espécie de etiqueta com a palavra ‘feminismo’.”

O que é que aprendeu com todo esse processo?
Aprendi que é em tribunal que as pessoas se mostram como são. Procuram, de todas as formas, fazer justiça, querem defender-se, querem ver alguém considerado culpado. A sala de tribunal é uma realidade paralela, na qual ficas a conhecer melhor a pessoa do que durante a sua vida inteira.

Ser uma mulher a escrever sobre violência doméstica, tira ou dá credibilidade?
Para os homens, tira credibilidade. Os homens tendem a não ler livros escritos por mulheres, a não ver filmes realizados por mulheres, a não ver séries protagonizadas por mulheres, porque pensam sempre que tudo isso tem uma espécie de etiqueta com a palavra ‘feminismo’.

O mundo dos livros ainda é muito masculino?
Muito! Se perguntar a um homem quantos livros escritos por mulheres leu, provavelmente a resposta é zero. É que nem experimentam para dizer que não gostam. Além disso, um escritor é um escritor, uma escritora é uma mulher que escreve. É primeiro uma mulher e só depois uma escritora.

Há quem diga que a Antonella escreve como um homem. O que é isso de escrever como um homem?
Há homens que me dizem isso como um elogio. “Eu não leio livros de mulheres, mas leio-te porque escreves como um homem”, dizem-me. Há a ideia, totalmente errada, de que nós só falamos sobre unhas e maquilhagens e só lemos e escrevemos aqueles romancezinhos cor-de-rosa.

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