Os maus looks do Portugal Fashion. Uma explicação e as nossas desculpas

Após as reações negativas de dezenas de leitores, retirámos três artigos do site e prometemos mudanças.

Carla Oliveira

Nos dois últimos fins de semana, uma equipa da MAGG fez um acompanhamento permanente das semanas da moda de Lisboa e do Porto, criando no total 48 artigos ao longo dos dois eventos, entre conteúdos de street style, críticas a desfiles, reportagens de bastidores, entrevistas, crónicas humorísticas, textos escritos pela nossa blogger ou vídeos mais divertidos e descontraídos.

Ainda antes do início da ModaLisboa, a equipa da MAGG que iria estar no evento reuniu-se e, em conjunto, discutiu ideias de conteúdos a criar nas semanas da moda, conteúdos esses que queríamos que fossem interessantes, relevantes, criativos, divertidos, irreverentes, um pouco à imagem do que é a própria Moda enquanto arte. A nossa preocupação foi a de conseguirmos surpreender os leitores, a de fazermos um trabalho diferente, que não se limitasse ao óbvio e mais preguiçoso, àquilo que é mais fácil, que é limitarmo-nos a reproduzir imagens dos desfiles ou colocar um microfone em frente a um designer e deixá-lo dizer aquilo que ele quer dizer.

Ao contrário de outras artes, a Moda não se limita ao que se passa numa passerelle, e um evento de moda, uma semana da moda, é vivida dentro e fora das passadeiras, transcende designers e manequins, cabeleireiros e produtores, maquilhadores e costureiras. A moda é tudo aquilo que vestimos, compramos nas lojas. Uma coleção de um estilista é moda, uma peça vintage que usamos e que era da nossa avó também é moda. E é muitas vezes nestes eventos, ModaLisboa ou Portugal Fashion, que centenas de pessoas decidem arrojar nos looks que escolhem, decidem brincar, testar coisas novas, fugir do normal, precisamente porque estão em casa, estão no sítio em que muitas vezes a norma é a excentricidade, e a excentricidade acaba por ser a normalidade.

É importante que se perceba que um evento de moda não é a mesma coisa que uma ida a um teatro, a um jogo de futebol ou a um concerto de música clássica, embora o teatro, o futebol e a música, tal como a moda, sejam artes. A grande diferença é que quem está num evento de moda faz parte da própria moda, tem alguma ligação ao mundo da moda, tanto que só se acede por convite, e não há sequer bilhetes à venda para estes eventos. Quem já foi a semanas da moda sabe perfeitamente que muito do mais relevante que acontece por lá passa-se fora das passerelles, é o street style, é o desfile de tendências de quem frequenta os espaços, são os looks excêntricos, os acessórios irreverentes, as combinações de roupa que ninguém se lembraria de fazer. Uma semana da moda também é isso, esse espetáculo dado fora das passerelles, por todos aqueles que vão aos eventos e que acabam por também ser eles história, notícia, alvo da reportagem e das câmaras de jornais, revistas, bloggers, instagramers.

Só alguém muito inocente, ou que nunca tenha estado num evento destes, pode achar que grande parte das pessoas que se veste de forma absolutamente excêntrica para estes eventos não procura, com isso, as objetivas dos fotógrafos das revistas, dos sites, as câmaras dos repórteres de televisão. Prova disso é que quase todos eles, quando abordados por jornalistas ou fotógrafos, acedem sempre a ser fotografados, quando não chegam mesmo a pedir para ser fotografados ou entrevistados, ou posicionam-se perto de quem tem um microfone, uma câmara ou uma credencial de imprensa para que sejam notados e entrevistados. Esta é uma realidade que se calhar poucos conhecem, precisamente porque são poucos os que não andam no mundo da moda e que frequentam a ModaLisboa, o Portugal Fashion ou as semanas da moda de Paris, Milão ou Nova Iorque.

Este enquadramento é importante para que se perceba que quando, em reunião editorial, a equipa da MAGG decidiu eleger, diariamente, o melhor e o pior look do Portugal Fashion, fizemo-lo, unicamente, porque entendemos a moda numa perspetiva muito mais abrangente, menos redutora, não limitamos “a moda” ao que se passa numa passerelle, vemos um evento de moda como um todo, em que os próprios participantes são parte integrante e relevante do que se está a passar. Ou seja, para nós, e nessa perspetiva, avaliar a roupa (e não o caráter, e não a personalidade, e não os valores — apenas a roupa) dos participantes da semana da moda do Porto não nos pareceu uma decisão descabida, mas sim perfeitamente enquadrada no evento que estávamos a cobrir.

Tal como acontece com os próprios designers ou criadores, há coisas que fazemos que correm bem, há outras que nem tanto, e depois há as que correm muito mal.

Na passada sexta-feira, recebi um telefonema de alguém que se identificou como “amigo” da pessoa que foi escolhida pela MAGG como aquela que tinha o pior look do primeiro dia do Portugal Fashion. Num telefonema prolongado, tentei explicar-lhe muito do enquadramento que dei aqui, explicando-lhe, também, que muitas vezes a eleição do melhor e do pior look não é feita no momento em que as pessoas são abordadas pelos repórteres. Ou seja, aconteceu chegarmos ao final do dia, olharmos para o material recolhido pelos repórteres de imagem da MAGG no evento e, então, selecionarmos os que estavam mais bem e mais mal vestidos, na opinião dos especialistas de moda da MAGG. Isto explica que quando as pessoas foram abordadas não lhes tenha sido imediatamente dito que estavam a ser fotografadas para um artigo sobre os mais mal vestidos. No entanto, deveríamos ter tido cuidado redobrado nessa abordagem, ou seja, deveríamos ter dito às pessoas com quem falámos que existia essa possibilidade. Não o fizemos, errámos.

Ainda no decorrer desse telefonema, pedi ao amigo da pessoa que apareceu no nosso artigo que lhe desse o meu número de telemóvel, para que pudesse explicar-lhe a nossa posição. Perguntei-lhe ainda se o amigo estaria no Portugal Fashion nesse dia, ou num dos seguintes, para que pudéssemos falar pessoalmente. Como não obtive resposta, no dia seguinte, tomei a iniciativa de ligar para o número do amigo da pessoa que aparecia no artigo e sugeri-lhe que invertêssemos os papéis, e que a equipa da MAGG estava disposta para posar para a câmara, tirar fotos, e, depois, seria ele a avaliar a roupa de cada um de nós. Sugerimos isto, sobretudo, porque entendemos a moda como um arte que tem uma vertente grande de fun, subjetiva, aberta à crítica e às opiniões.  O amigo disse-me que lhe iria transmitir a ideia, mas nunca mais tivemos resposta.

Nos dias seguintes, nas páginas de Facebook da MAGG e do Observador, recebemos dezenas de mensagens a questionar os artigos que fizemos em que elegemos os piores looks do Portugal Fashion. Naturalmente, não ficamos indiferentes a críticas, sobretudo quando são em grande número, sempre no mesmo sentido, e sobre um tema que não é consensual e levanta dúvidas éticas ou, em último caso, de bom senso. Após discussão interna, e um debate de ideias, concluímos que a forma como elaborámos estes artigos não foi correta, que a abordagem que tivemos perante os entrevistados não foi suficientemente clara, e compreendemos muitas das críticas que nos foram feitas. Independentemente de continuarmos a olhar para a moda como uma arte diferente das outras, em que o cidadão comum se mistura com a estrela, porque todos encarnam moda, percebemos que deveríamos ter feito as coisas de outra maneira, com outro cuidado, e se soubéssemos que a reação que estes artigos desencadearia seria esta naturalmente que teríamos feito tudo de maneira diferente.

Como tal, decidimos eliminar do nosso site os três conteúdos com os piores looks do Portugal Fashion e deixamos um pedido de desculpas aos três visados no artigo. Ao contrário do que muita gente escreveu, o objetivo nunca foi humilhar, fazer bullying, foi sempre o de mostrarmos os dois extremos de um evento de moda, aquele que nos pareceu ser o melhor look, e aquele que nos pareceu ser o pior look. O tiro saiu ao lado.

Aquilo que podemos prometer é que tentaremos ter cuidados redobrados em próximas abordagens, mas jamais poderemos perder a vontade de fazer diferente, arrojar, surpreender. Só erra quem tenta fazer diferente. Fazer mais do mesmo, igual a toda a gente, não traz críticas negativas, não incomoda ninguém, não dá chatices, torna apenas os artigos numa chatice. E isso, por respeito aos leitores, também não queremos. Fica o nosso pedido de desculpas, uma vez mais.

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