Nunca foi tão fácil entrarmos em contacto com o outro e é inegável que as aplicações de chat, como o Messenger e o WhatsApp, desempenham um papel fundamental em manter um casal ligado o dia todo — mas será que tal é proveitoso para o relacionamento?

Segundo Pedro Brás, psicoterapeuta da Clínica da Mente, tudo depende da quantidade de mensagens trocadas e do tempo em contacto com o companheiro. “Todos os comportamentos são aceitáveis desde que haja um equilíbrio — tudo em demasia traz apenas desvantagens”, conta à MAGG, alertando que “o excesso de mensagens pode indiciar um nível de ciúmes ou apego não saudável”.

Para além de poder ser um sinal de alarme, estar em contacto com o parceiro durante todo o dia também pode originar outros problemas. “A questão principal é se a comunicação excessiva durante o dia não traz complicações para a conversa presencial, como questionar sobre uma mensagem não respondida ou o que estava a fazer a determinada hora”, salienta o especialista, que refere que são raros os temas abordados em mensagens “que não são repetidos presencialmente”, facto que torna as trocas de mensagens escritas “desnecessárias e inoportunas no tempo, a não ser que se tratem de assuntos urgentes”.

Não estamos viciados nos telemóveis, mas sim nas outras pessoas

Tem algo importante a discutir? Largue o telemóvel

Quer tenha recebido boas ou más notícias, é natural que tenha a tendência de querer partilhá-las o mais depressa possível com as pessoas mais próximas, onde se inclui o seu parceiro. Porém, tratando-se de temas importantes, o melhor é abordá-los apenas quando estiver frente a frente — tudo pelo bem da sua relação.

Os casais deveriam utilizar o tempo em que estão separados para viverem a sua individualidade, privacidade e para se focarem nas diferentes atividades diárias.”

“As comunicações por telefone ou escritas perdem muita informação devido às limitações físicas dessas plataformas, para além de causarem muitos mal-entendidos ”, explica Pedro Brás. “Recebemos informação pelo que ouvimos e pelo que lemos, mas o principal meio de comunicação é a não verbal, a comunicação que vemos com os nossos olhos. A forma como o nosso corpo ‘fala’ transmite mais informação do que aquilo que dizemos e só pessoalmente percebemos bem o que o outro nos quer dizer”, continua o psicoterapeuta.

Para além disso, se passar o dia todo a trocar mensagens, é bem provável que não dê a importância devida a tudo o resto que se passa à sua volta, nem aproveite os momentos a sós para se focar em si. “Os casais deveriam utilizar o tempo em que estão separados para viverem a sua individualidade, privacidade e para se focarem nas diferentes atividades diárias”, salienta Pedro Brás, que refere que “quando estamos com a família, devemos estar apenas focados nela; quando estamos com os amigos, só devemos estar a partilhar os nossos momentos com eles; no trabalho, não deveríamos permitir que nada nos afete a concentração e o foco”.

Lida e não respondia — os perigos de estar sempre online

Os “checks” azuis do WhatsApp e a informação de “lida” do Messenger tornaram-se o nosso pior pesadelo. Graças a estas funcionalidades, é praticamente impossível alegar ainda não ter lido a mensagem, algo que pode acarretar problemas e originar discussões quando as mensagens ignoradas são do parceiro, algo que o especialista Pedro Brás considera ser “o grave problema”.

O psicoterapeuta acrescenta que devido a estas aplicações oferecerem a informação do estado da leitura e se a pessoa está online, “o utilizador sabe quando o outro está a escrever e até ficamos à espera da resposta. Quando escrevemos a alguém que vê a nossa mensagem e não nos responde, começamos a pensar sobre a razão desse comportamento, o que nos leva a ter pensamentos de perda e de desinteresse do outro por nós, criando uma preocupação negativa e uma pressão grande na comunicação a dois”.

Estar sempre a olhar para o telemóvel está a arruinar as suas relações

O ignorar de uma mensagem mesmo quando nos encontramos online também pode originar ciúmes, dado que pode levar o parceiro a questionar o porquê do outro elemento estar disponível na aplicação, embora se mantenha sem responder. “Começamos a sentir uma sensação de perda que nos cria ciúmes, dado que, com as novas ferramentas tecnológicas, a facilidade com que conversamos com qualquer pessoa ou que somos abordados cria medos e inseguranças para os parceiros mais ciumentos e com menos autoconfiança e autoestima”, alerta Pedro Brás, que salienta que há pessoas que acreditam que a sua relação pode ser posta em causa pelos “ataques e abordagens de antigos namorados ou de pessoas novas que possam surgir na vida do companheiro”.

Mas as mensagens podem ser benéficas, se usadas da melhor forma. Para o psicoterapeuta Pedro Brás, a troca de mensagens de um casal deve reduzir-se a assuntos urgentes ou a temas que possam dar novo ânimo à relação. “Excluindo os recados ou avisos, os casais devem de facto apimentar a sua relação com algumas mensagens de ‘flirt’ para se lembrarem que estão a pensar na outra pessoa e para ajudar a quebrar o stresse de um dia intenso de trabalho”, conclui o especialista, que ainda salienta que “as mensagens de controlo e de cobrança apenas criam pressão no relacionamento e são, muitas vezes, a causa do término da relação”.