Pouco mais de um ano depois da explosão do #MeToo, Hollywood não se ficou pelo despedimento de actores e agentes acusados de assédio sexual e elevou a fasquia para outro nível.

O impacto do movimento que não se limita a promover as denúncias de mulheres que sofreram nas mãos de diversos homens, mas que defende maior poder para elas fez com que alguns produtores reescrevessem o papel de personagens em séries como “Anatomia de Grey”, “Younger” e “The Good Fight”.

“Anatomia de Grey”

A temporada passada, a 14ª da série criada por Shonda Rimes, ficou marcada pelo escândalo de assédio sexual a dezenas de mulheres, pelo avô de Jackson Avery – interpretado por Jesse Williams, um dos actores mais acarinhados da série. O agressor era a cara da fundação Harper Avery, que até determinada altura  calava as vítimas com dinheiro e acordos de confidencialidade.

Ao longo dos episódios começaram a surgir pontas soltas que acabaram por dar um rumo totalmente diferente à fundação que detinha vários hospitais, incluindo aquele onde acontece toda a acção de “Anatomia de Grey”, e que todos os anos distinguia os médicos com as ideias mais inovadoras.

Durante a primeira metade dessa temporada de “Anatomia de Grey”, o avô de Jackson morre e confere a Catherine Avery, a mãe de Jackson, um papel ainda mais importante na série e na fundação. Pouco tempo depois, Meredith Grey é distinguida com o prémio Harper Avery. E foi a partir daí que se começou a notar a influência do movimento #MeToo na série.

Jackson Avery com a sua mãe, Catherine Avery, enquanto procuram soluções para o futuro da fundação Harper Avery

Jackson só começou a aperceber-se do assédio que o avô fazia quando uma consultora foi impedida de trabalhar com ele por ter assinado um acordo com ele. Mesmo depois de ter confrontado a mãe, não ficou a conhecer a verdadeira natureza dos acordos, mas Catherine sempre a teve bem presente uma vez que foi ela a silenciar as vítimas para preservar o nome da fundação.

Catherine acabou por confirmar ao filho os 13 casos de mulheres vítimas de assédio sexual por parte do homem que tinha validado as suas carreiras. “Há 30 anos, ser assediada não era algo que pudéssemos protestar”, começou por dizer ao filho. “Era parte do trabalho. E se protestássemos, era-nos dito que estávamos a exagerar. E facilmente perdíamos os empregos e a reputação”, continuou.

A mãe de Jackson, que já tinha voltado a usar o apelido Fox para se afastar da mancha do nome Avery, estava disposta a assumir-se como culpada para tentar salvar a fundação e os hospitais, mas Jackson não permitiu.

Quando Meredith foi devolver o prémio depois de saber do escândalo que envolvia os Avery, acabou por ajudar Jackson a resolver a situação. A fundação Harper Avery deu lugar a uma nova, de nome Catherine Fox, com a promessa de reparar todos os danos causados às vítimas de abuso.

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“The Good Fight”

Na segunda temporada, “The Good Fight” teve três episódios dedicados ao movimento #MeToo. O primeiro episódio intitulado “Day 422”, centra-se nos advogados que tentam ajudar uma jovem que foi sexualmente assediada num reality show.

O segundo episódio, “Day 436”, fala de como a imprensa lida, internamente, com casos de assédio sexual, como referiu ao jornal “BuzzFeed” o criador da série, Robert King. “Day 436” centra-se em Keesha Sharp, que dá vida a Naomi, uma jornalista que luta para ter a sua reportagem na televisão e que foi aluna de Adrian (Delroy Lindo), um dos advogados que está a aconselhar a revelação de casos de assédio sexual no canal por parte de uma figura muito importante de Hollywood.

Naomi relembrou Adrian das aulas em que prestava especial atenção às alunas pelas quais nutria interesse e prejudicava aquelas que não correspondiam. O episódio revela o peso que o tratamento de Adrian teve na decisão de Naomi em abandonar a carreira de advogada.

Diane Lockhart, Liz Lawrence e Maia Rindell, protagonistas de "The Good Fight"

O terceiro episódio, foi, segundo o que escreveu o “BuzzFeed”, aquele que teve mais presente o debate que se gerou em torno do #MeToo. Intitulado de “Day 478”, o episódio mistura uma lista real, “Shitty Media Men”, de alegadas condutas sexuais dos homens nos media, com as definições de “consentimento” e de “coação”.

Aí, os advogados defendem um homem que quer processar uma mulher por ter colocado os detalhes do encontro no site “Assholes to Avoid”, criado com o objetivo de alertar outras mulheres sobre homens que as tratem mal. Ao longo do episódio vão sendo discutidas as diversas reações que o site despertou e as declarações da mulher que diz ter sido coagida a ter relações sexuais no encontro.

Neste episódio surgem mesmo os advogados Liz e Adrian a debater o #MeToo e a sua relação com outro movimento, “Black Lives Matter”.

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“Younger”

A quinta temporada de Younger ficou desde cedo marcada pelo #MeToo. Começou a ser escrita em outubro de 2017, no momento em que o movimento começou a ganhar visibilidade, e em homenagem, o primeiro episódio da série intitula-se de “#LizaToo”.

A série acompanha uma mulher, Liza Miller (Sutton Foster), de cerca de 40 anos que se faz passar por uma jovem de 26 para conseguir entrar no mercado de trabalho como editora na Empirical Press.

Um dos autores mais prestigiados da editora, Edward L. L. Moore, era conhecido pelos constantes comentários de assédio dirigidos a várias mulheres, incluindo Liza. O produtor da série, Darren Star, afirmou ao “Buzzfeed” que era preciso repensar a personagem e o seu comportamento relativamente às mulheres.

A temporada abre com uma denúncia anónima de assédio sexual contra Edward Moore. Entre a necessidade de manter o autor que dava mais lucro à Empirical e a possível destruição da editora caso a acusação se revelasse verdadeira, o diretor Charles Brooks (Peter Hermann), relembrou o comportamento do autor de “Crown of Kings” perante Liza e teve-a em consideração antes de publicar o seu mais recente livro.

Liza Miller, vestida de Princesa Pam Pam ao lado do autor Edward L. L. Moore

No dia da suposta apresentação, na Comic-Con, Edward Moore voltou a fazer comentários inapropriados sobre Liza e sobre as restantes mulheres que davam vida à princesa do seu livro e Charles adiou o lançamento. Moore acabou por sair da Empirical.

Para além do destino de Edward Moore na Empirical, Darren Star deu novos contornos ao romance entre Charles e Liza, afastando o preconceito de uma relação entre diretor e assistente.