Futurologista da comida: “Vamos querer comer vegetais com terra”

Morgaine Gaye diz que vamos ter um aparelho, provavelmente incorporado na nossa pele, que nos dirá que nutrientes precisamos para o dia.

Morgaine Gaye veio a Lisboa para participar numa conferência sobre alimentação no futuro

Carla Oliveira

Chovia a potes no dia desta entrevista. Havia um acidente a impedir a chegada a Lisboa, ouviam-se sirenes a dar sinal de que a cidade não está preparada para intempéries e, na rua, era ver os tons cinzentos a tomar conta das roupas e das gentes, que tomavam finalmente consciência de que o verão foi tardio, mas acabou-se.

E é no meio deste cenário a pedir chá e mantinha, que vemos uma espécie de ponto luminoso sentado no hall de entrada do Hotel Mundial, em Lisboa. É alta, ou pelo menos é essa a sensação que fica da crista loira que está constantemente a enrolar com a mão para que se mantenha de pé. Os óculos são grandes e com animal print, a roupa é confortável mas com pinta e, percebemos depois, que todo este look é pensado ao pormenor. “Estou quase com 50 anos e, a partir dos 40 a coisa cai a pique. Há que chamar a atenção de outras formas”, brinca.

Com este início até podíamos pensar que esta é uma entrevista a alguém do mundo da moda, mas não. Mesmo que aqui se fale de tendências. Morgaine Gaye é a única futurologista da comida e, sem deitar cartas ou consultar bolas de cristal, consegue prever quais vão ser as próximas tendências alimentares e alertar as marcas para isso.

Passou por Lisboa para participar na conferência anual “Alimentação do Futuro”, do Food & Nutrition Awards 2018 e a MAGG aproveitou a deixa do Dia Mundial da Alimentação para desvendar o que nos reserva. Mas a irreverência de Morgaine não se vê só na roupa que usa ou no nome pomposo da sua profissão. Está nos gestos e na forma efusiva com que fala, de tal maneira que é ela que começa a entrevista.

“Antes que comece, reparei que tem uma T-shirt do ‘Dirty Dancing’. Sabia que eu, numa vida passada, trabalhei na sequela desse filme?”.

Na coreografia?
[risos] Essa era boa, mas não. Fazia aquilo que chamamos de B-roll, aqueles takes suplementares ao take principal.

E como é que se passa de técnica de realização para futurologista da alimentação?
Não sei bem. Mas sei que aquilo que conecta tudo é a comida. A realidade é que falamos de cultura, de raízes, de tendências e a comida não existe isolada em vácuo, faz parte disso tudo. Quando falamos de comida falamos de pessoas.

Há mais pessoas a fazer o que faz?
Já há mais gente a trabalhar na área, mas acho que sou a única futurologista de comida do mundo.

O que é que faz exatamente?
Procuro tendências, mas procuro-as em todo o lado. Viajo imenso em trabalho, estive agora em Zurique, antes estive em Zagreb e daqui a duas semanas estou na América do Sul. Em qualquer lado que vá, procuro os pequenos indicadores sociais. As pessoas vivem as suas vidas sem terem consciência do que realmente fazem. Por exemplo, reparei que não usas relógio e isso é cada vez mais comum, porque as pessoas passaram a ver as horas no telemóvel. Mas quando começou, ninguém discutiu o assunto, as pessoas simplesmente deixaram de usar aos poucos e pronto. Eu estou atenta a esses detalhes e esses detalhes podem estar em qualquer lado.

E são esses detalhes que permitem prever o futuro?
São esses detalhes que ditam as tendências. No meu trabalho vou a restaurantes, vou a supermercados, mas não só para ver o que está à venda. Eu vejo o comportamento das pessoas nos supermercados, a cultura de cada país. São coisas muito subtis.

Se um produto está associado à palavra ‘natural’, põe um logótipo com uma ovelha no monte verde, feliz. Não te mostram a ovelha a ser ordenhada não sei quantas vezes por dia, a ter vinte bebés e a sofrer.”

Como por exemplo?
Varia muito de país para país mas há coisas que são globais. Nós escolhemos o que escolhemos porque queremos e não porque precisamos. Não compramos um par de sapatos porque precisamos daquele par de sapatos, não compramos um pastel de nata porque precisamos, mas sim porque queremos. O que eu faço é questionar essas ações. Por que razão queres isso e por que razão queres isso agora e não quiseste isso antes? Porque estás a comer isso ao pequeno-almoço? Dou sempre o exemplo da água, porque a nossa relação com a água tem mudado muito. Há 15 anos a água vinha assim [faz o gesto de abrir a torneira] e agora vem assim [gesto de abrir uma garrafa]. Porquê? Será que estamos mais desconectados da natureza, mais desconfiados dos nossos governos, mais desconfiados sobre tudo o que comemos e bebemos?

Depois do verde, a próxima cor vai ser o preto

Uma vez disse que aquilo que sabemos sobre comida é apenas a metade de um todo. Conte-me a outra metade.
Quando pensamos em grandes empresas, somos mais desconfiados. Até aqui trabalhávamos para grandes organizações que queriam fazer dinheiro, nem que para isso recorressem a trabalho escravo. Mas agora as pessoas querem saber mais sobre a origem os produtos, têm uma preocupação maior com o que lhes chega às mãos. No que diz respeito à comida, quando eu digo que só sabemos metade, é porque a outra metade as empresas não têm vantagem em mostrar. Se um produto está associado à palavra “natural”, põe um logótipo com uma ovelha no monte verde, feliz. Não te mostram a ovelha a ser ordenhada não sei quantas vezes por dia, a ter 20 bebés e a sofrer. Eles não te mostram isso porque, assim, ninguém ia comprar.

Como é que sabe que algo vai ser a próxima tendência?
Eu analiso e retenho uma ideia. A partir daí faço tudo para a comprovar ou refutar.

Trabalha com quanto tempo de antecipação?
Pelo menos três anos. É o mínimo de tempo que preciso para apresentar a minha ideia a uma empresa e ela trabalhar nela, desenvolver produtos e testá-los com a população.

Alguma vez se enganou?
Não. Quanto muito antecipei-me, mas se for cedo demais não é assim tão mau, se for tarde demais é que é grave. Agora conheço melhor o mercado e já sei como funciona. Tudo começa no Japão, Coreia, depois segue para Nova Iorque e depois Londres, de onde se espalha para o resto da Europa.

Tendo em conta que trabalha sempre em antecipação, quando é que percebeu que agora estaríamos a comer abacate em tudo?
Vocês estão nessa fase, não é? Abacate era moda em Los Angeles há cinco anos. Quando falamos de algo como abacate, kale ou matcha, falamos de um tipo específico de comida e não é bem esse o meu foco. Eu abordo a questão de uma forma mais abrangente. O tema que está acima disso tudo isso é o verde. Há dois anos, os miúdos em Londres até o cabelo pintavam de verde.

Parte do trabalho de Morgaine é viajar pelo mundo e perceber os pequenos gestos dos consumidores

Mas se é uma tendência, também vai acabar?
A preocupação com o bem-estar e o ambiente vão continuar a crescer, ainda que vá passando por várias fases. Conhece uma marca chamada LuluLemon?

Não.
Mas vai conhecer. Toda a gente em Inglaterra da sua idade conhece. É uma marca que fez com que as pessoas começassem a usar a roupa de ioga em todo o lado, até para o trabalho. É quase um statement de que se uso essa marca é porque me preocupo com o meu bem-estar. Se juntarmos a isso o abacate, a couve kale e os sumos verdes, temos uma tendência. Só que as pessoas não se apercebem disso, é só o dia a dia a acontecer.

A partir de agora vamos querer vegetais com terra, vamos querer uma conexão mais real com a natureza, vamos querer lama, vamos querer sujidade. Vimos de uma fase tão esterilizada que agora queremos sujar-nos à séria”.

E depois do verde, qual vai ser a nossa próxima cor?
O preto. Mas antes do verde foi o branco, a fase dos ovos, da proteína, das bebidas vegetais, da soja. Agora estamos na fase verde, percebemos que a natureza é uma coisa boa, mas até aqui estávamos na fase mais citadina da natureza. A partir de agora vamos querer comer vegetais com terra, vamos querer uma conexão mais real com a natureza, vamos querer lama, vamos querer sujidade. Vimos de uma fase tão esterilizada que agora queremos sujar-nos à séria. Além disso vêm aí tempo negros em termos económicos e políticos. Tudo isso faz parte da fase negra.

Aquele cenário de termos que comer insetos ou alimentarmo-nos de comprimidos vai mesmo acontecer?
Nos anos 50, quando pensávamos na série “Espaço: 1999” era “Uauuuu”. Usaríamos fatos prateados, falaríamos através de aparelhos. [Pega no telemóvel] E a verdade é que já estamos a usar esses aparelhos agora, que vão passar a obsoletos rapidamente. Esquece o telemóvel, esquece o relógio, vai estar tudo gravado na pele. Vamos ter um chip e vai ser possível passar a nossa mão num scan para pagar uma conta, por exemplo.

Isso é assustador.
Não é nada, é emocionante, é o futuro. Estamos a vivê-lo agora.

Imaginemos que vamos almoçar a seguir, mas que estamos em 2028. O que seria o menu?
Seria muito diferente entre nós as duas. Cada uma de nós saberia o seu ADN e teríamos um aparelho, provavelmente já incorporado na nossa pele, para o qual respiraríamos logo pela manhã. Esse gesto seria suficiente para saber que nutrientes eu preciso para aquele dia. A partir daí era passar a mão pelos scans que vão estar implementados nas cozinhas, nos supermercados e nos restaurantes e receber aquilo que realmente precisamos.

Isto em dez anos?!
Em dez anos.

No Japão as pessoas começaram a escrever cartas à mão

Bom, talvez 15 em Portugal.
[risos]. Sim, é o mais provável. Mas em todo o lado a nutrição será cada vez mais personalizada.

Tudo o que for feito à mão vai voltar a ter muito mais valor. Temos uma economia global, grandes empresas e vamos passar a dar mais importância ao comércio local, à proximidade.

A forma como cozinhamos será também mais ligada à tecnologia?
Sempre que há uma tendência, chega pouco depois a contra-tendência. Vivemos uma fase tão tecnológica que agora, no Japão, as pessoas passaram a escrever cartas. De que me serve receber 300 “feliz aniversário” no Facebook, só porque a rede social lembrou a minha lista de amigos? A carta é algo mais real, mais pessoal. Na cozinha isso vê-se na vontade de voltar a fazer tudo de raiz, como o pão, por exemplo.

Vamos voltar às nossas raízes?
Tudo o que for feito à mão vai voltar a ter muito mais valor. Temos uma economia global, grandes empresas e vamos passar a dar mais importância ao comércio local, à proximidade.

Uma futurologista da comida também cozinha?
Eu não cozinho, eu preparo [risos]. Cozinhar implica usar muitas panelas e essa parte eu não gosto. Tenho uma cozinha bem equipada mas pouco tecnológica. Mas tenho aparelhos que me ajudam a desidratar, espiralizar, fermentar, preservar. São técnicas antigas mas feitas com aparelhos mais modernos.

Agora, na Europa, um quarto das mulheres com 25 anos ou menos são vegetarianas”

Come de tudo?
Se tivesse que me pôr numa categoria, punha-me na categoria dos picuinhas. Sei demasiado sobre comida e acabo por ser muito exigente. Mas tenho uma alimentação de base vegetal.

Isso é algo que vamos continuar a ver crescer?
Oh meu Deus, sim. Agora, na Europa, um quarto das mulheres com 25 anos ou menos são vegetarianas.

Em Portugal temos assistido a um boom de restaurantes e opções vegetarianas.
A sério? Por favor diz-me os nomes dos restaurantes. Preciso de uma salada [risos]. Estou aqui há três dias e percebi que vocês comem poucos legumes como acompanhamento. Nem sequer estão no menu.

Vou já escrever uma lista. Uma última pergunta. Quando falamos de comida, reconhece algum tipo de limite?
A comida não tem limites e isso é que é incrível. Podemos ir a uma tribo em África ou à maior cidade do mundo que há sempre uma história e uma cultura que explica o porquê de comerem da forma como comem. Comida é partilha, é estar juntos, é família, é cultura. Daí o meu fascínio. Comida não é só comida, é tudo o resto.

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