“Pesadelo na Cozinha”. O Stop TIR esteve quase a fechar e o dono queria tornar-se barbeiro

A MAGG foi almoçar ao restaurante e falou com o dono, que diz que na área da restauração as pessoas "inventam coisas para mandar abaixo".

Pedro Cunha, proprietário, recusou-se a falar das alterações na equipa desde as gravações do programa mas fez questão de pedir uma fotografia de grupo

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A esplanada localizada junto à entrada do restaurante, composta por apenas três mesas com duas cadeiras cada, estava vazia. Não muito diferente estava Vilar Formoso, a pequena aldeia junto à fronteira entre Portugal e Espanha que é já um dos pontos de passagem obrigatória de vários camiões que se deslocam entre os dois países. Aqui, nem o posto de abastecimento imediatamente à frente do restaurante Stop TIR parecia trazer algum movimento a uma vila que se adivinhava pacata e serena. Mas havia vida na localidade. Prova disso era o ruído estridente que vinha de dentro do restaurante que, saberíamos ao entrar, pertencia a uma televisão que deveria estar ligada a um qualquer sistema de som no exterior.

De frente para o espaço gerou-se uma pequena confusão ao ver duas portas exatamente iguais em lados completamente opostos, como que marcando uma divisão do espaço em duas áreas diferentes. Sem ninguém que estivesse por perto para entrar primeiro e identificar qual a porta certa, arriscámos a da esquerda que estava fechada mas que dava acesso direto ao restaurante. A da direita correspondia à entrada principal, que se fazia pelo bar.

O choque foi imediato: a entrada do restaurante parecia a de uma masmorra medieval em que a falta de luz e o ambiente sombrio deixava qualquer um com os nervos à flor da pele. A sala ampla e com espaço muito mal aproveitado, apresentava-se com um longo balcão à direita que delimitava a área dos empregados e que, lá mais ao fundo, se fundia com a da cozinha do restaurante.

O problema foi não saber ao que íamos. É que o Stop TIR não constava nas plataformas habituais de partilha de opiniões sobre restaurantes, como a Zomato ou o TripAdvisor, e as críticas que se liam no Facebook não só eram escassas, como grande parte delas não justificavam a pontuação negativa ou positiva que tinha sido atribuída. “Este restaurante deixa a desejar. O atendimento e as condições higiénicas também. Não é para repetir”, lia-se numa crítica de um utilizador no Facebook. Mas há também quem diga bem, como é o caso do utilizador seguinte que escreveu que a comida era boa e que os preços eram “em conta”.

Deslocámo-nos à sala do restaurante, que também não tinha muita luz mas que agora era branca depois da equipa do “Pesadelo na Cozinha” ter pintado por cima do verde pesado. Preparámo-nos para almoçar sem nunca nos identificarmos como jornalistas de maneira a garantir que a experiência e a qualidade do serviço eram o mais isenta possível. E se a falta de clientes poderia justificar a rapidez com que nos foram servidas as entradas e os pratos, uma hora depois esse argumento já não seria válido.

Com a sala bem mais composta, os pratos continuavam a sair da cozinha a uma velocidade equilibrada e os funcionários pareciam estar coordenados e em sintonia. Só pecavam pela falta de simpatia mas que, no Stop TIR, parecia ter ficado esquecida.

A carta não era muito elaborada, mas também não era preciso. Entre as poucas opções diárias, o cozido à portuguesa (8,50€) seduziu-nos mas acabámos por pedir o arroz de tentáculos de pota (7€) e o bitoque de vitela (9,50€) para avaliar não só a qualidade da cozinheira nos vários pratos, mas também qual dos pedidos chegariam primeiro à mesa. O tempo de espera foi reduzido, mas serviu para experimentar a couvert de pão e azeitonas que era oferta da casa — e que nos conquistou de imediato.

Os pratos chegaram cerca de 15 minutos depois de terem sido pedidos e ao mesmo tempo. Não tivemos queixas a apontar: o bife de vitela estava bem confecionado, tenro e bem temperado. O arroz de tentáculos também, e ganhou pontos a partir do momento em que a pota não parecia sola de borracha. Havia uma mistura de sabores que só não nos levou a repetir porque queríamos caber nas mesmas calças no dia seguinte.

No final, pagámos a conta e pedimos para falar com o proprietário, Pedro Cunha, que assim que nos identificámos disse que não responderia a qualquer tipo de questões sobre o programa ou sobre o processo de gravações, devido a um contrato que tinha assinado com a produção da TVI. Propusemos então que falasse sobre si e sobre a sua experiência e Pedro acedeu.

“Não me arrependo de nada e não faria nada diferente”

Pedro Cunha diz que é muito difícil trabalhar na área da restauração porque "as pessoas inventam coisas para mandar abaixo"

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Começou por contar que foi camionista durante cerca de dez anos e que só assumiu o controlo do Stop TIR, há quatro, por estar “um bocadinho cansado dessa vida” onde, diariamente, fazia o transporte de carga por toda a Europa. “Num camião a vida é muito solitária, estamos quase sempre sozinhos e andamos fora de casa durante uma semana. No restaurante lido com pessoas todos os dias”, diz. Mas admite que gerir o Stop TIR não tem sido tarefa fácil, em grande parte devido à crise que é “cada vez mais mais forte e às pessoas que têm menos dinheiro no bolso.” 

Quando eu abri esta casa, se desse 15 almoços já era bom. Se por acaso houvesse um dia melhor e conseguisse servir 30 refeições, ficava super contente.”

Porém, não tem dúvidas de que as coisas estão um pouco melhores desde o início. Segundo revelou à MAGG o atual proprietário, a gerência anterior começou a perder o norte e, nos últimos momentos, o negócio já se revelava fraco e sem pernas para andar. Recuperar foi difícil, mas o ex-camionista diz que nunca baixou os braços. Nem mesmo quando só dava 15 refeições por dia.

“Quando eu abri esta casa, se desse 15 almoços já era bom. Se por acaso houvesse um dia melhor e conseguisse servir 30 refeições, ficava super contente. Hoje, se der menos de 50 fico triste e significa que alguma coisa está errada com o negócio e com o serviço que estamos a prestar aos nossos clientes.”

Atualmente, o Stop TIR já só abre para almoços (à exceção de sextas-feiras e sábados, onde também serve jantares), mas o proprietário é claro e assertivo na justificação para o pedido de ajuda ao chef Ljubomir e à TVI: “Não foi a falta de clientes que me levou a inscrever no programa, mas sim o facto de querermos apostar na qualidade e no ato de servir bem quem nos visita.” E é essa a única maneira que Pedro, e a restante equipa, têm para se distinguir numa zona onde há pelo menos cinco restaurantes concorrentes à volta. Aumentar os preços está fora de questão, visto que grande parte dos seus clientes são “pessoas de trabalho” e “camionistas” que privilegiam uma boa relação entre o preço e a qualidade da comida.

As pessoas inventam qualquer coisa para mandar abaixo. Disseram que eu cobrava entradas, como o pão e as azeitonas, quando não é verdade.

Quanto à sua experiência durante as gravações, diz apenas que não está arrependido e que o programa só lhe trouxe vantagens. “Não me arrependo de nada e não faria nada diferente. Em primeiro lugar, pintaram-me a casa toda e só isso poupou-me trabalho e dinheiro, mas também me deram dicas novas e ensinaram ao pessoal da cozinha tudo o que precisavam de saber sobre culinária. Só tive a ganhar”, continua.

Mas quem conhece Pedro Cunha aponta-lhe várias críticas. Em Vilar Formoso, há quem diga que não tem nada a apontar ao ex-camionista, e quem refira que Pedro não tinha respeito pelos empregados e que era um mau patrão, chegando mesmo a defini-lo como “arrogante” e “desonesto”.

Antes de a MAGG conseguir confrontar o proprietário com estas acusações, Pedro Cunha foi direto ao assunto a meio da conversa e revelou que não é nada fácil trabalhar na área da restauração, especialmente quando não se tem experiência. “As pessoas inventam qualquer coisa para mandar abaixo. Disseram que eu cobrava entradas, como o pão e as azeitonas, quando não é verdade. Também disseram que tinha fechado uma semana porque não tinha aguentado a pressão, mas o que realmente aconteceu é que as férias já estavam marcadas e aproveitamos para fechar, limpar e organizar o restaurante.”

Estava muito desmotivado e prestes a fechar. Tirei um curso de barbeiro, que poderão ver no programa quando estrear, e estava pronto para uma nova aventura.”

Quanto a si, diz estar de consciência tranquila e não se mostra preocupado com a imagem que vai passar no programa que estreia no domingo, 14 de outubro, porque tem plena consciência do que gravou e do estado emocional em que se encontrava no início das gravações.

“Estava muito desmotivado e prestes a fechar. Tirei um curso de barbeiro, como poderão ver no programa quando estrear, e estava pronto para uma nova aventura. Mas depois da ajuda do chef estou um pouco mais motivado e pronto para continuar”, sublinha.  No entanto, acrescenta que caso não tenha sorte no futuro, não terá medo de mudar de vida.

Apesar de tudo, garante que tem alguma curiosidade em ver as cenas que foram gravadas com as funcionárias responsáveis pela cozinha, já que foram situações onde Pedro nem sempre esteve presente. Da equipa atual, só três pessoas são as mesmas mas dessa parte, disse-nos, não queria falar e muito menos queria que alguns dos seus funcionários falassem com a MAGG a propósito do programa e da remodelação. Mas isso não impediu Pedro de fazer questão de tirar uma fotografia de grupo com a equipa para esta reportagem.

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