Mesmo com toda a onda de comida saudável, estamos cada vez mais gordos. Há explicação?

Portugal está mais atento à alimentação, mas continua com excesso de peso. No Dia Mundial da Obesidade quisemos saber porquê.

A comida processada continua a ser um entrave a uma alimentação mais equilibrada

São daqueles números que nos fazem, no mínimo, encolher a barriga para disfarçar.

Estima-se que, em Portugal, mais de metade da população tenha obesidade ou pré-obesidade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, há 1,4 milhões de pessoas obesas em Portugal, o que faz com que fiquemos num lugar cimeiro de uma lista europeia que ninguém quer encabeçar.

Mas não estamos sozinhos nesta luta contra o excesso de peso. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade alcançou as proporções de pandemia, com mais de 1,9 mil milhões de adultos com excesso de peso. Deste grupo, mais de 600 milhões de pessoas são obesas.

É claro que ninguém faz questão de ir à secção plus size comprar roupa e era mais simpático ir à praia sem pudores, mas a questão aqui vai muito além da estética. No Dia Mundial da Obesidade — esta quinta-feira 11 de outubro — a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) lembra que está associada a um decréscimo da esperança média de vida e da qualidade da mesma, estando muitas vezes ligada a doenças como a diabetes, a hipertensão, outras doenças metabólicas, respiratórias, cardiovasculares, ósseas e vários tipos de cancro.

E é exatamente por sabermos que nem esteticamente nem em termos de saúde o peso em excesso traz benefícios que decidimos colocar a questão: “Porque é que continuámos gordos?”. Ainda mais quando vemos a alimentação saudável a ganhar terreno em Portugal?

Não há supermercado que não tenha uma já larga secção de comida saudável, os restaurantes com essa preocupação brotam que nem cogumelos em todo o lado e, segundo um estudo da Kantar Worldpanel, empresa especializada em comportamentos de consumo, 77,5% dos portugueses admite ingerir menos gordura e 69,3% prefere comprar produtos com pouco sal.

“Comprar um queijo com 30% menos de gordura não quer dizer que seja isento e um produto, lá por dizer ‘light’ na embalagem, não quer dizer não engorde”, lembra Paula Freitas, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, que reforça: “Uma caloria é sempre uma caloria, independentemente de onde vem”.

A resposta tem que ser global

Os especialistas ouvidos pela MAGG são unânimes em considerar que a pergunta do título é daquelas para um milhão de euros. E a resposta, como seria de se esperar, não é imediata.

“Tentar perceber o porquê de continuarmos com excesso de peso requer uma análise global à nossa sociedade”, refere Pedro Graça. O diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável dá como exemplo a entrada das mulheres no mundo do trabalho. “Culturalmente, eram as mulheres as encarregadas da parte alimentar da família e como agora o tempo livre para isso é menor, a solução passa muitas vezes por comidas pré-feitas, ou seja, mais calóricas e menos ricas nutricionalmente“.

Pedro Graça salienta ainda que, contrariando aquela que é a nossa essência, passamos menos tempo à mesa, em família, uma vez que “os horários de trabalho e de escola confundem-se e sobrepõem-se aos da família”.

A mecanização do trabalho é outros dos fatores que ajudam a explicar a obesidade em Portugal. “Até podemos trabalhar oito horas por dia, mas se estamos esse tempo todo em frente a um computador, o gasto de energia é residual”.

Quanto mais pobre, mais gordo

Este entretítulo não revela preconceito, revela sim a realidade. Paula Freitas lembra que é nas classes mais desfavorecidas e com menos literacia que os números da obesidade são mais elevados. “Não podemos fazer boas escolhas se não temos informação”, refere.

E, segundo a especialista, desengane-se quem acha que comer bem é mais caro. “Uma sopa é barata, há peixes ricos em ácidos gordos que não são dos mais caros, como é o caso da sardinha. E as carnes brancas, as mais saudáveis, são também as mais baratas”. Mas prontamente, acrescenta, indo ao encontro ao que Pedro Graça dizia: “Não há é paciência nem disponibilidade para cozinhar”.

Mesmo assim, o membro da Direção Geral de Saúde reforça que, no geral, a alimentação saudável tende a ser mais cara. “Para saber que é possível comer barato numa ida ao mercado é preciso reunir informação sobre nutrição à qual as pessoas de classes mais desfavorecidas não têm acesso. Além disso, falámos de pessoas que habitualmente trabalham muitas horas, deixando pouco tempo livre para a cozinha”.

E se a solução for o fast food, aí sim, não há dúvidas. Existem hambúrgueres no McDonald’s a 1,25€ e uma salada do Vitaminas não custa nunca menos do que 7,50€.

Estas mesmas classes sociais mais desfavorecidas eram aquelas que, há uns anos, estavam mais associadas a trabalhos braçais, muitas vezes no campo, atividades que obrigam a um maior gasto calórico, lembra Pedro Graça. “Agora, vemos essas pessoas em cargos como operadoras de caixa de supermercado, rececionistas ou em fábricas, tudo ocupações cujo gasto energético é bastante menor”.

A genética também conta

Mariana Monteiro, médica e investigadora Multidisciplinar de Investigação Biomédica e professora da Universidade do Porto põe em cima da mesa mais um fator a juntar aos tantos outros já mencionados pelos especialistas e que podem ajudar a explicar o facto de Portugal ter mais de metade da população com excesso de peso.

Quem é obeso terá nascido, à partida, com uma predisposição genética para essa condição”, explica à MAGG. No entanto, Mariana Monteiro não quer que seja a genética a explicar tudo. Aliás, salienta que mais do que o nasce connosco, há todo um estilo de vida que influencia a forma como a genética nos molda.

“Já que temos consciência que vimos de um historial de obesidade, devíamos ter um cuidado redobrado”, afirma, ainda que não veja isso acontecer. “É um bocado a lógica do fumador que, apesar de saber que o cigarro mata, continua a fumar”, garante. A médica acredita que o facto de haver mais comida saudável disponível não significa necessariamente que as pessoas a comam. “Escolher uma refeição saudável de vez em quando não chega. O saudável devia ser prática diária”.

A investigadora refere que a obesidade não se foca apenas na alimentação — “Há que mexer o corpo e ir ao ginásio de vez em quando não chega” — mas, em Portugal, há hábitos à mesa que têm que mudar. Fala do excesso de sal e de açúcar, do prato com demasiados hidratos, mas acaba por resumir os nossos (maus) hábitos numa frase: “Comemos muito de tudo”.

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