Faz sentido perguntar a um miúdo de 9 anos se sente atração por homens, mulheres ou ambos?

Um terapeuta familiar diz que esta abordagem é "perigosa" e uma psicóloga defende que é importante perceber a finalidade da pergunta.

"Um jovem pode sentir-se atraído pelo amigo porque este tem uma televisão melhor do que a dele", diz o terapeuta Manuel Peixoto

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A manhã desta quarta-feira, 10 de outubro, começou com uma polémica nas redes sociais depois de ter sido posto a circular um inquérito realizado a crianças entre os nove e os 11 anos da Escola Básica Francisco Torrinha, no Porto. As perguntas, que ao que tudo indica terão sido realizadas em contexto de aula, pretendiam saber em que ano curricular e em que turma é que os alunos pertenciam, com quem viviam, se já tinham namorado antes ou se estavam numa relação atual. Como se isso não bastasse, a escola também quis saber as preferências sexuais dos seus alunos, que tinham a possibilidade de escolher entre “homens, mulheres ou ambos”.

Enquanto a escola se recusava a prestar declarações e a Direção Geral de Ensino revelava não ter conhecimento deste inquérito, nas redes sociais a discussão tornava-se cada vez mais difícil de gerir com os inúmeros comentários de indignação e revolta referente à publicação original. Enquanto uns defendiam que a educação sexual e todo o tipo de abordagens ao tema deveriam ser mantidos dentro do foro privado, e em família, outros acreditavam que era cada vez mais importante alertar para a questão de género e que era importante falar de sexualidade logo a partir da infância.

Entre os dois lados da barricada, cujas opiniões são assentes em convicções e vivências pessoais, a dúvida permanecia: será que miúdos de nove anos são capazes de perceber o que é sentir atração sexual por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto? Será que há consequências do ponto de vista emocional ou nem sequer faz sentido falar disto nesta idade?

Segundo Manuel Peixoto, terapeuta familiar, faz todo o sentido abordar a educação sexual desde muito cedo e não há que ter vergonha ou receio de o fazer, mas alerta para a necessidade de uma abordagem coerente face à idade das pessoas envolvidas. “A sexualidade não é um tabu e tem de ser trabalhada desde muito cedo, até na escola. Têm é de ser feita de outra forma e noutros moldes já que requer que se tenha em atenção não só os intervenientes mas também o seu desenvolvimento cognitivo”, revela. Segundo o terapeuta, este questionário é muito perigoso na medida em que obriga crianças a responder com um simples “sim” ou “não” a questões complexas sobre as quais ainda não têm consciência nem dominam.

Já a psicóloga Marina Carvalho diz que o tema em si pode não ser totalmente desadequado para crianças dessa idade, mas que o que importa é analisar não só a forma como essas perguntas são feitas, mas também qual o objetivo que pretendem satisfazer. “Num contexto de investigação onde se pretenda perceber o que significa para uma criança ter uma relação de namoro, pode ser perfeitamente válido colocar este tipo de questões”, mas, diz a psicóloga que não se deve esperar que o significado da pergunta seja entendido pela criança da mesma forma que o é por um adulto. Para Marina Carvalho é mais importante ainda perceber não só o que motivou este tipo de inquérito e qual a sua finalidade, mas também se foi feito ou não um pedido de consentimento informado aos educadores destas crianças a permitir a sua participação — que é vital e de extrema importância nestes casos para não correr o risco de se tratar de uma recolha ilegal de informação privada.

Um jovem pode sentir-se atraído pelo amigo porque este tem uma televisão melhor do que a dele, ou pela colega por ser a mais popular da turma. E o que é isso da atração sexual? Quer dizer o quê?”

“Quando falamos de uma investigação com jovens que tenham menos de 18 anos, é obrigatório que estejam reunidas uma série de autorizações que além daquelas que estão previstas à realização do estudo, partam também do lado dos pais e da Comissão Nacional de Proteção de Dados”, salienta Marina Carvalho, sublinhando ainda que mesmo depois de os pais autorizarem a sua participação um jovem pode sempre recusar-se a responder às questões que lhe são colocadas.

O terapeuta familiar Manuel Peixoto não tem dúvidas de que mesmo que tenha existido consentimento informado, este questionário foi feito de maneira errada e sem a sensibilidade necessária, já que olha para o tema puramente através de um olhar adulto quando não são esses os intervenientes do estudo.

“Estamos a falar de crianças que têm um conceito da sua sexualidade e da atração pelo sexo oposto, ou pelo mesmo sexo, bem diferente daquela que tem um adulto e é errado pensar o contrário.” Mas embora seja necessário desmontar todos estes conceitos e aplicá-los às idades respetivas, Manuel Peixoto não vê problema em perguntar a uma criança se já namora porque isso “é uma coisa de que já todos falam desde os quatro ou cinco anos”, mas quando a questão é a atração sexual o tema torna-se muito mais complexo e não deve ser abordado de uma maneira tão leviana.

“Namoram com a mãe, com as miúdas… vão namorando, não é? É diferente. Mas ao falar de atração sexual estamos a entrar numa zona cinzenta onde um miúdo tem mais dificuldades em definir-se com clareza. Quando uma criança vê uma pergunta destas feita dessa forma fica aflita a pensar se alguma vez já terá sentido alguma coisa por uma pessoa do mesmo sexo ou do sexo aposto. Poderá pensar que está a fazer alguma coisa errada e não percebe porque lhe estão a ser feitas perguntas que ainda não sabe responder.”

A questão da atração torna-se especialmente complicada porque é um conceito novo e muito subjetivo para um miúdo tão novo que, segundo o terapeuta, pode sentir-se atraído pelas coisas mais insignificantes e mundanas que um adulto não consideraria atração. “Um jovem pode sentir-se atraído pelo amigo porque este tem uma televisão melhor do que a dele, ou pela colega por ser a mais popular da turma. E o que é isso da atração sexual? Quer dizer o quê? Significa ter uma ereção? Estas são algumas das questões que pairam na cabeça de uma criança que não percebe estes termos quando os vê numa folha de papel e não lhes são explicados consoante a sua idade.”

A atitude dos pais, que não têm a obrigação de ter conhecimento científico aprofundado como nós investigadores temos, perante uma situação onde possa existir essa surpresa e um abalo emocional, deverá ser sempre a de tentar normalizar as reações emocionais da criança.”

Os dois especialistas concordam no mesmo ponto: este tipo de abordagem pode suscitar sensações de dúvida, revolta e ansiedade na criança por não saber responder sobre um tema que lhe é muito estranho. E enquanto a psicóloga defende que este tipo de questões possam ser feitas por qualquer pessoa, ainda que num ambiente controlado, seguro, e da maneira certa, através do uso de uma terminologia adequada à idade, o terapeuta recorda que é imediatamente a partir dos nove anos que um miúdo começa a ter consciência de si próprio, da existência do outro e da possibilidade de um primeiro contacto com a morte — a noção de que o outro poderá desaparecer a qualquer momento. Se a isso se juntar o tema da sexualidade de forma crua e agressiva, é muito fácil levar à confusão.

Aos pais que são confrontados com abordagens semelhantes ao que aconteceu na escola básica do Porto, a psicóloga Marina Carvalho recorda a necessidade de ajudar a regular as emoções dos filhos nos casos em que há um impacto emocional muito forte.

Este tipo de invasão de privacidade é semelhante ao que acontece nas redes sociais, por exemplo, onde muito facilmente uma rapariga ou um rapaz publica uma série de fotografias sem ter a consciência do grau de exposição a que se estão a submeter.

“A atitude dos pais, que não têm a obrigação de ter conhecimento científico aprofundado como nós investigadores temos, perante uma situação onde possa existir essa surpresa e um abalo emocional, deverá ser sempre a de tentar normalizar as reações emocionais da criança”, citando alguns exemplos como o diálogo aberto e compreensivo onde se pretenda conhecer não só o que a criança pensa do assunto mas também a forma como olha para si e para os outros.

Manuel Peixoto vai mais longe e diz que é importante que os pais ajudem os filhos a tomar a decisão de não responder a este tipo de inquéritos que tenham como objetivo entrar de forma desfasada na vida pessoal deles e acredita que, neste caso, há muitas semelhanças com a forma como as crianças utilizam as redes sociais.

“Este tipo de invasão de privacidade é semelhante ao que acontece nas redes sociais, por exemplo, onde muito facilmente uma rapariga ou um rapaz publica uma série de fotografias sem ter a consciência do grau de exposição a que se estão a submeter. Aqui é exatamente igual: a criança está a ser obrigada a expor uma coisa sobre si própria sobre um assunto pelo qual ainda não tem consciência.

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