Foi hoje publicada uma notícia no site da revista “Sábado”, na qual se via e lia um inquérito sociodemográfico colocado a alunos da Escola Francisco Torrinha. Este continha um ponto que inquiria os alunos do 5º ano lectivo acerca de qual o género pelo qual se sentiam atraídos. As opções de resposta disponíveis eram “homens”, “mulheres” e “ambos”.

O meu nome é Mariana Domingues e andei na Escola Francisco Torrinha, no Porto, do meu 5º ao 9º ano. Já muito tempo passou desde que os meus pais me matricularam na escola, mas não me revejo na notícia que está a circular acerca da mesma.

Contextualizando, esta foi uma escola que acompanhou grande parte da minha infância e início de adolescência, numa altura em que não se abordava com a mesma abertura que hoje as questões de identidade de género e a sexualidade dos alunos. Não se falava, em lado nenhum. Ou então eu era nova demais para me aperceber disso.

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Eu bem sei que os tempos mudaram. Quando eu estava no 5º ano só queria jogar à bola, fazer teatro no clube da escola e cantar no recreio com as minhas amigas. Sei que os miúdos de hoje são diferentes, envolvem-se mais cedo e sabem mais coisas do que eu sabia. Há muitas crianças que sabem muito bem como se identificam, sexual e romanticamente, desde cedo. Mas não é por essas crianças saberem, que as outras devem ser confrontadas com algo que ainda não estão sequer próximas de definir. No 5º ano de escolaridade, estas crianças precisam de orientação e não de definição.

Por mais que reflita, não consigo entender o que levou à colocação de uma questão destas aos vossos alunos. Não posso crer que esta seja a vossa maneira de os expor a algo que muitos não estão ainda prontos para enfrentar, que não sabem ou que a sua tenra idade não permitiu ainda definir. Tinham boas intenções, que vos saíram furadas? Tendo em conta a minha experiência com a escola, não acredito que seja um ato maléfico de exposição gratuita das preferências sexuais e românticas dos seus alunos, mas não é assim que se faz.

Em vez de vos chacinar com críticas, vou assumir – visto que ainda não foram prestadas declarações por parte da escola até à data – que essa foi a vossa tentativa de recolher mais informação. Que esta foi a vossa forma de tentar incluir os alunos, sabendo de antemão com o que contar, de modo a não ferir suscetibilidades no contexto de aula.

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O caminho futuro, a meu ver, passa pelo trabalho conjunto entre os pais e encarregados de educação e a escola para criar alternativas mais adequadas que uma pergunta direta. Há milhares de soluções possíveis para apurar e acompanhar os alunos nesta fase de auto conhecimento, mas para isso terão de recorrer a profissionais que dominam ferramentas que vocês ainda não possuem. Profissionais, esses, que poderão explorar convosco métodos alternativos às perguntas diretas para abordar temas delicados com os alunos.

Expor os alunos à informação para que estes tomem decisões conscientes acerca de quem são parece-me absolutamente razoável, necessário até! Mas o método de ensino das vossas aulas de Cidadania tem de ser atualizado, para que os alunos compreendam o que é ser-se heterossexual, homossexual, pansexual, bissexual, entre os milhares de designações que damos ao amor e à identificação sexual. Isto sem que alunos dos 9 aos 11 anos tenham de identificar onde se encontram no espectro da sexualidade, caso não estejam preparados para tal, fornecendo ainda assim as ferramentas para que o descubram ao seu próprio ritmo.

O facto de não responderem em tempo útil, de uma forma honesta, assumindo este erro e a vossa responsabilidade no caso levou-me a endereçar-vos esta carta. O vosso silêncio preocupa os encarregados de educação dos vossos alunos e o grande público. E eles não vos conhecem como eu conheci, Torrinha. A nossa escola é melhor que isto e pode fazer melhor.