O dia em que levámos uma carnívora a comer ao melhor restaurante vegan de Lisboa

No Dia Mundial do Vegetarianismo, juntámos à mesa do almoço uma fã de comida vegetariana e uma amante de carne mal passada.

Foi este o hambúrguer que impediu que o mundo ganhasse mais uma vegetariana. Ou pelo menos vamos acreditar nisso

“Hoje é o Dia Mundial do Vegetarianismo, o que é que vais escrever sobre isso?”. Foi assim, sem sequer um bom dia de aquecimento, que a Fabíola Carlettis me recebeu esta manhã.

Está habituada a que seja eu a tratar “dessas tuas coisas”, como muitas vezes se referem aqui na redação a assuntos como comer mais saudável ou diminuir o uso do plástico.

Não me tinha ainda surgido nenhuma ideia para assinalar a data, admito, mas aquele tom meio irónico usado sempre que o assunto é vegetais, deu-me a pica que o chá de matcha não me tinha dado. “Giro era levar-te a ti, uma carnívora assumida, a almoçar comigo ao melhor vegan da cidade”. E atenção que quem diz que é o melhor não sou (só) eu. Tem 4.8 no Zomato e assume um dos lugares cimeiros no ranking do Happy Cow, a aplicação de restaurantes que funciona como aliado a qualquer vegetariano deste mundo.

O pior, ou melhor, é que a Fabíola disse que sim. E se conhecessem a Fabíola sabiam que esse sim vale por ouro.

Podia dizer que o facto de ter nascido no Porto tenha influenciado o seu gosto pela carne, mas a verdade é que eu sou de uns bons quilómetros ainda mais a norte e há mais de um ano que não toco num bife. Já a Fabíola é aquela pessoa que podia ter na Uber Eats um menu com o seu nome. Não há vez nenhuma que o senhor das entregas não venha com um prego mal passado e como acompanhamento — que podem ser dois diferentes — venha duas vezes batatas fritas. A Fabíola é também aquela que revira os olhos ao meu caril de grão ou acha sempre que vou ficar com fome quando peço uma salada, ainda que tenha três vezes mais coisas no prato do que o seu, normalmente feito de bife com massa.

“Se calhar é melhor comer qualquer coisa antes, não?”, pergunta, de forma irónica, ainda que eu saiba que há ali uma pontinha de verdadeira preocupação.

De um lado uma salada cítrica, do outro um hambúrguer de lentilhas com umas gordinhas (e incríveis) batatas fritas

Já no restaurante, sempre à pinha, a justificar o sucesso, passa-nos o menu para a mão e pede ajuda. Para não ser um choque de sabores muito grandes, oriento-a para a bifana de seitan, ou para o prato do dia: “carne” de seitan à portuguesa com salada.

Mesmo assim, pede ajuda ao funcionário. “Qual é a coisa menos vegan que tem na ementa?”. O rapaz avisa logo que não há nada de origem animal e fala-lhe do hambúrguer de lentilhas. “Lentilhas sabe a quê?”. Estamos perante um caso sério.

O problema foi quando o tal hambúrguer chegou à mesa. “Em termos de sabor é bom, mas…” Nem foi preciso justificar e vejo que a minha tentativa de evangelizar o mundo dos carnívoros caiu por terra naquela primeira garfada. O pão era tão seco e tão grande em relação ao tamanho do hambúrguer que foi preciso pedir uma limonada para ajudar a empurrar.

Já eu, feliz e contente com a minha salada cítrica (“não vais ficar com fome?”), feita com millet (“o que é millet?”), fruta (“odeio fruta na comida”), caju e tâmaras. “Uau, um restaurante da moda e a salada não tem abacate?”. Nesta estiveste bem Fabíola.

Ainda pensei que a ia conquistar com uma das tartes cruas do Ao 26 que, de tão incríveis, custa a acreditar que não têm açúcar, mas ela arremata este almoço com um “não gosto de doces”. Paguei, vim-me embora e só espero que ainda ninguém tenha inventado o Dia Mundial da Carne Maturada. Tenho medo da vingança.

A versão da carnívora

Segundos depois de ter lembrado a Marta Cerqueira de que hoje era o Dia Mundial do Vegetarianismo, já estava arrependida. Pronto, lá se foi o meu bife mal passado com massa (num tupperware a transbordar). Vesti a camisola e fui com a Marta ao 26 Vegan Project Food. Um sítio onde, confesso, nunca iria por mim e onde desconfiei logo à partida que não deveria ter muita oferta para alguém tão pouco crente na comida vegan, como eu.

“O que vai beber?”, perguntou o simpático empregado de mesa, “uma coca-cola zero com gelo e limão, por favor”, era tudo o que me apetecia com este calor (e para ajudar nesta experiência difícil). A Marta ria-se e a resposta a este pedido era óbvia. “Coca-cola não temos, só Club mate”. “Humm, não, obrigada. Fico pela água.” E quem me conhece sabe o quão pouco eu gosto de acompanhar uma refeição com água. Mas nada de grave.

Escolher o meu almoço é que me deixou mais nervosa, enquanto fazia mil perguntas à Marta, como uma criança. Hambúrguer de beterraba, seitan marinado ou tosta de legumes assados são algumas das opções da carta e é incrível como não fiquei com vontade de provar nenhuma. Mas tinha uma missão a cumprir.

Comecei por ver qual era o prato do dia e fiquei imediatamente inclinada para pedi-lo, talvez porque tinha “carne” no nome, apesar de ser de soja, mas logo calculei que uma carne a fingir não era para mim. Logo a seguir pedi uma sopa, uma jogada segura, mas já tinha acabado.

A Marta não queria acreditar quando perguntei qual a melhor forma de suavizar esta experiência vegan. Desculpa se te fiz passar vergonhas. O hambúrguer de lentilhas foi a recomendação. Ainda que nunca tenha visto lentilhas à minha frente, aceitei. Para acompanhar, umas batatas doces fritas com maionese caseira, para enganar.

Enquanto não vinham os pratos, ataquei o pão. Mas acham que era um pão qualquer branco? Claro que não. Podia escolher entre omega 3, cevada ou baviera. Mas nada que um pouco de azeite não pudesse disfarçar. Pronto, na verdade, eram todos bons.

Quatro fatias de pão depois, chegou o hambúrguer que logo à primeira vista não me convenceu (nem à vegetariana de serviço). Mas pensei, “vá lá, Fabíola, não sejas casmurra, give it a try.”

Ninguém pode dizer que não tentei. Se vou converter-me ao vegetarianismo? Lamento, querida Marta, mas o meu jantar de hoje vai ser o bife mais mal passado da história. Amanhã prometo dizer “bom dia” mal chegues.

Texto de Marta Cerqueira e Fabíola Carlettis.
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