Marcamos encontro às 16h30 e às 16h26 já Antônio Fagundes abria a porta, de mão dada com a mulher, a também atriz Alexandra Martins.

É conhecido pela sua pontualidade e é por isso que não deixa ninguém entrar depois de o espetáculo começar. Tem zero tolerância com toques de telemóvel que interrompam o texto que se esforça para dizer com precisão e é por isso que nem sequer quer ouvir falar em redes sociais.

Mas vamos mudar o jogo. Começar a apresentação de Fagundes com duas frases ditas na negativa pode dar a ideia errada de um homem que, pelo menos no imaginário de qualquer pessoa que cresceu com novelas da Globo, continua capaz de meter qualquer Cauã ou Gianecchini num bolso.

Recebe-nos de braços abertos, com dois beijinhos já ao jeito português, com um faz favor para deixar escolher a cadeira ou passar primeiro na porta. Ainda assim, não quer ser conhecido como galã. Prefere pôr um prefixo na palavra e ser antes reconhecido, sem fazer diferença entre o “Rei do Gado” e Macbeth.

É precisamente o teatro que o faz voltar a Lisboa, uma cidade com cantos só seus. Faz questão de ir sempre comprar livros à Fnac do Chiado, tabaco à Casa Havaneza e, na Marisqueira Ribadouro, há sempre uma mesa reservada com o seu nome.

Desta vez veio em família, para apresentar ao País a peça “Baixa Terapia”, que só no Brasil já foi vista por mais de 150 mil pessoas e na qual contracena com a mulher, o filho, a ex-mulher e o marido dela e cuja tradução do texto é de outra ex-mulher. Tudo isto sem terapia, garante.

Ouvi dizer que a premissa para se ir ver esta peça é não contar o final a ninguém.
Sabe que quando começamos, pensamos até pedir ao público isso, mas tivemos 150 mil espectadores no Brasil e ninguém contou o final. Mesmo sem a gente pedir.

O efeito surpresa no final é mesmo importante neste caso?
É mesmo. Temos quem venha ver e diga: “Meu pai não me contou e eu tive mesmo que vir”. É muito gostoso ver isso.

Antônio Fagundes contracena com a mulher, Alexandra Martins. Da peça fazem ainda parte o seu filho mais velho e a ex-mulher Mara Carvalho

Na peça “Sete Minutos”, que trouxe também a Portugal fazia uma crítica ao uso de telemóveis no teatro. Depois disso foi mais fácil fazer teatro sem ser interrompido?
Isso é impossível.

No cinema isso é muito comum, mas no teatro ainda acontece?
Nós deixamos de ir ao cinema por causa disso, vemos filmes em casa. A gente tenta abstrair, mas às vezes toca nos piores momentos e fica difícil.

Já é conhecido por gostar de ver o teatro respeitado.
É, eu gosto da liturgia, faz parte. O gostoso é sair do quotidiano, sair do normal e uma das coisas para sair da rotina é desligar essa maquininha infernal e ficar 1h30 a ver outras pessoas a desenvolver uma ideia.

Só que a nossa estreia foi no Porto e 200 pessoas chegaram atrasadas e eu não deixei entrar. Foi uma guerra.”

Tal como também não entra ninguém depois da sua peça começar.
Sim, decidimos até escrever no cartaz que “começa rigorosamente no horário marcado”. Assim ninguém fica à espera, mas também não deixamos entrar ninguém depois de começar.

Já teve pessoas chateadas por causa disso?
Ui, muitas.

Prepare-se. Em Portugal não somos conhecidos pela pontualidade.
Já soube [risos]. Esta é já a quarta peça que faço aqui. E na primeira, a “Sete Minutos”, que já falamos, eu discutia tudo isso: o público que chega atrasado, o telemóvel que toca, o levantar para ir ao banheiro, o papel de bala [rebuçado]. Foi a minha forma de falar sobre o tema com um toque de comédia. Só que a nossa estreia foi no Porto e 200 pessoas chegaram atrasadas e eu não deixei entrar. Foi uma guerra.

Com a experiência de quatro peças em Portugal, acha que portugueses e brasileiros tratam o teatro de forma diferente?
Eu sinto que o público português é bastante interessado no que fazemos. Sempre que vim esgotámos as salas, de tal forma que, desta vez, ampliámos a nossa área de ação. Vamos estar em nove cidades: Lisboa, Porto, Braga, Famalicão, Leiria, Coimbra, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz e Águeda. Vamos correr Portugal.

Como é o público português?
É muito carinhoso, atento e bem humorado. Fico sempre com ótimas lembranças.

Um Brasil bem português nos canais Globo

Vem cá imensas vezes e imagino que sejam também imensas as abordagens na rua. Com que personagem os portugueses mais o identificam?
Falam mais é do Rei do Gado.

Confesso que para mim Antônio Fagundes é sinónimo de Rei do Gado.
[risos] Não é só em Portugal, é em todo o mundo. A Globo exporta muito a nossa novela.
[Alexandra, que assiste à conversa, interrompe]: Nós já estivemos na Rússia e até lá o Antônio foi abordado por causa do Rei do Gado.
[Antônio] É verdade, mas cá há quem me fale de “Dancing Days”, “Vale Tudo” e agora até “Rainha da Sucata”, que a Globo está a passar de novo.

Tendo em conta que começou no teatro e nunca o deixou de lado, gostava de ser mais reconhecido por isso e não tanto pelas novelas?
Sempre assumi o facto de as novelas darem mais visibilidade como algo natural. Por mais espectadores que tenha numa peça, e eu cheguei a ter um milhão de espectadores num único espetáculo, não se compara com um capítulo de uma novela que, no Brasil, tem 60 milhões de pessoas assistindo.

Mas não tem pena de ser mais Bruno Mezenga [personagem em “Rei do Gado”] do que Macbeth?
Eu sempre misturei muito a minha carreira. Nunca cheguei a ser um ator só de teatro. Fiz televisão, fiz cinema, fiz rádio e, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Cheguei a ter uma peça em São Paulo ao mesmo tempo que gravava uma novela no Rio de Janeiro. Isso porque nunca achei que um ator tinha que ser de uma coisa só.

E, como ator, já foi quem sempre quis ser?
Não, longe disso. Só Shakespeare escreveu 37 peças e eu só fiz uma. Faltam 36.

E há algum papel que queira mesmo interpretar?
Ao contrário. Eu tenho papéis daqueles que, paro e penso: ‘Puxa, já fiz’. Assim é bem melhor.

Dos papéis que já fez, houve algum que se misturou com a realidade?
Eu costumo brincar e dizer que em vez das personagens deixarem um bocadinho delas em mim, sou eu que deixo um pouquinho de mim nas personagens. As pessoas olham para a personagem e lembram de mim.

Já faz teatro há tanto tempo — são mais de 50 anos de carreira — que houve já quem pegasse na sua história para escrever a história do teatro e do Brasil.
É mesmo. A Rosângela Patriota [autora do livro], contextualiza a minha trajetória dentro do que é o teatro do Brasil e a história do próprio país.

No Brasil, vivemos numa censura económica, que é muito pior do que a política.

Tem noção que é raro esse tipo de homenagem a alguém vivo.
É raro mesmo, né? Mas a Rosângela Patriota demorou tanto a escrever que quase que acontecia isso [risos]. Ela começou a pesquisa em 2003 e levou 15 anos para acabar. Eu brincava com ela e dizia: ‘Você está esperando eu morrer.’ Mas a ideia central do livro era escrever sobre uma grande companhia de teatro que eu tive, porque era uma companhia privada, a Companhia Estável de Repertório, sem patrocínio e sem apoio do governo e que durou muito tempo. Mas começou a ver que a história não começava ali, começava antes e decidiu contar a minha história.

Começou a fazer teatro durante a ditadura, mas já disse que há mais ditadura agora do que naquela época. Onde é que ela é visível?
Vivemos numa censura económica, que é muito pior do que a política. A censura política a gente consegue desviar, com a económica deixamos de produzir.

Conseguiu desviar-se da censura política?
Sim. Fazíamos aquilo que era resistência democrática, ou seja, fazíamos espetáculos que falavam do que se passava de forma a que a censura não percebesse.

E a económica, dá para fintar?
Eu não tenho esse problema porque eu não dependo de verbas do governo. Eu faço os meus espetáculos sem patrocínio, dependo única e exclusivamente da bilheteira. Dependo do público em exclusivo, só continuo em cartaz se o público quiser. Prefiro viver esta lei do mercado do que uma censura económica.

Entrevista a um comediante cego. “Não ver é uma questão séria, tudo bem. Mas é só isso”

Revê-se no Brasil de agora ou há algum Brasil ao qual gostasse de voltar?
O Brasil que eu quero está um pouco para a frente, o de trás já passou.

Não é saudosista?
Não, nada.

Se não é virado para o passado, como é que vê o futuro do Brasil?
‘Tá difícil olhar para a frente. Mas é sempre bom dar uma olhadinha para trás, ver de onde a gente veio. Isso ajuda a perceber o presente. O escritor Millôr Fernandes tem uma frase que eu adoro que é: ‘O Brasil é um país que tem um grande passado pela frente’. É mesmo isso. O Brasil precisa se entender, criar a sua história, alicerçar a sua cultura. Precisamos de ter cidadãos e nós não temos ainda. Um outro escritor chamado Ivan Lessa dizia que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos últimos 15. Sem cultura, sem educação você não entende o que é ética, o que é compromisso, o que é a compaixão, o que é crescer juntos, o que é ter um bem comum.

Portugal tem recebido muitos brasileiros nos últimos anos.
Eu entendo essas pessoas e até dou força a essas pessoas. Mas é um tipo de fraqueza que eu não gostaria de ter. Eu acho que temos muito para fazer lá, o Brasil depende de gente que talvez esteja vindo para cá.

O português é um código secreto. Se fala espanhol vai para o mundo inteiro, se fala português só nós entendemos.

Emigrar é sinal de fraqueza?
É um sinal de preguiça. Eu gosto de imaginar que conseguimos contribuir com alguma coisa. Eu estou agora a fazer uma peça e sei que não vou fazer nenhuma revolução. Mas há umas três ou quatro pessoas que vão assistir e que vão sair diferentes, com um pensamento novo e talvez aí se juntem para fazer uma revolução.

É que 20% dos estrangeiros que vivem em Portugal são brasileiros. Temos mais a unir-nos do que a separar-nos?
Com certeza. Não há barreira da língua e isso, na nossa área, é muito importante. Eu costumo dizer que o português é um código secreto, né? Se fala espanhol vai para o mundo inteiro, se fala português só nós entendemos.

Do que mais gosta em Portugal?
[Antônio] De tudo.
[Alexandra] A primeira vez que vim a Portugal o que mais me impressionou foi a luz, principalmente em Lisboa. Eu saía, olhava para o céu e ficava apaixonada. E depois come-se muito bem, bebe-se muito bem.

Já tem uma lista de sítios onde vai sempre?
Ao marisco do Ribadouro, por exemplo, que já tem uma mesa guardada para o ‘Sr. Antônio Fagundes’. Gosto muito do Pinóquio, do Pavilhão Chinês. Ah, e adoro ir à Fnac, lá no Chiado. Aproveito e, como fumo cachimbo, vou à Havaneza.
Mas em Portugal tudo é bonito. Vamos agora uns dias ao Algarve e eu já disse que o duro vai ser chegar, porque tudo onde paramos é maravilhoso. Acho que se virar o carro na seta que diz Palmela, vai ser lindo. [risos]

E desta vez trouxe a família consigo. Para a maioria das pessoas, a vossa dinâmica pode parecer estranha, porque trabalham juntos, vão de férias juntos. Filhos, mulher, ex-mulher. Como é que isso se consegue?
[Alexandra] O teatro exige de você um convívio muito grande. Há os ensaios, a intimidade do camarim e é fundamental que tudo isso seja feito com pessoas que você gosta. O teatro já tem um vínculo muito familiar mesmo quando não trabalhamos com a família real. Juntar os dois é muito gostoso.
[Antônio] Talvez a gente tenha uma das poucas profissões do mundo que é feita com prazer. Eu vejo os meus amigos que são os civis, como a gente fala, que ficam contentes quando chega a sexta-feira. Sexta para mim é um dia de prazer comum, não tem nada de mais.

Mesmo com toda essa dinâmica familiar e profissional, o Antônio, com 69 anos e 50 de carreira, não deu muito azo a fofoca. Como é que conseguiu isso?
Eu sou bem normalzinho, tenho uma vida bem normalzinha. Mas talvez porque não tenho redes sociais.

Não tem porquê?
Não gosto. Eu sou analfabyte [risos]. Eu tenho Whatsapp, mas só com a Alexandra, os meus filhos [quatro] e mais umas quatro ou cinco pessoas. Só para limpar aquilo todo o dia dá uma hora, uma hora e meia. Imagina quem tem duzentos grupos? Dá para ler três livros por semana, não é melhor?

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Sei que não se identifica muito com a categoria de galã mas, vá lá, não há como fugir a isso.
[Alexandra] Não adianta não querer ser. Ele é, só ele não sabe que é.
[Antônio] Eu costumo dizer que eu não sou o meu tipo de homem. Tinha que ser um bonitão, um Brad Pitt, eu não sou nada disso.

Ainda existem galãs ou ficaram todos na sua geração?
A verdade é que as pessoas não sabem muito bem o que é um galã. A origem da palavra galã vem de galante, que era normalmente o herói por quem a mocinha se apaixonava.

Baixa Terapia

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Quando: 26 de setembro a 28 de outubro, quartas a sábados 21h30, domingos 17h

Onde: Teatro Tivoli BBVA, Lisboa

Preço: a partir de 12,5€

A digressão passa pelo Porto (1 a 3 de novembro), Braga (8 a 11 de Novembro), Famalicão (15 a 18 de novembro), Leiria (21 e 22 de novembro), Coimbra (24 de novembro), Póvoa de Varzim (28 de novembro), Figueira da Foz (30 de novembro a 2 de dezembro) e Águeda (6 a 9 de dezembro)

Era aquele cara bom carácter, honesto, íntegro, corajoso, forte. Associou-se a isso a ideia de que seria também um homem bonito. O problema é que com a evolução dos tempos, a um galã só é associada a ideia de beleza, um galã passou a ser apenas um cara bonito. Agora já não será assim, mas a palavra nunca voltou ao seu conceito original. Mas, se aos 69 anos dizem que sou galã, só tenho que agradecer. Minha filha mais velha é que costuma dizer: “Que povo bom esse, né meu pai?” [risos].

Quando falámos do seu livro, não referimos que tem quase 500 páginas. Quantas achas que vão ter que se acrescentar para estar completo?
Acho melhor pensar num volume dois.