“Cátia, vi-te ontem no programa. És uma grande mulher, Cátia, uma grande mulher. Continua, não desistas!”. A frase é dita por uma senhora com cerca de 60 anos que passa na frente do restaurante. São quase 18 horas e a Rua da Cale, no Fundão, está com um movimento bem diferente daquele que vimos no fim de semana. As lojas e cafés estão abertos, as bancas de fruta estão cá fora e as pessoas movimentam-se animadas em direção a casa. E não há uma, uma mesmo, que não pare quando reconhece a proprietária do Dom Dinis. Tudo para a elogiar, claro.

Há amor por Cátia nesta terra. Talvez já houvesse antes do segundo episódio do “Pesadelo na Cozinha” ser emitido este domingo, 16 de setembro, mas agora há  certamente por muitos mais. “Eu não os conheço”, confessa-nos envergonhada, com a humildade que lhe é bem própria e que não deixou ninguém indiferente. Respondemos-lhe com um sorriso. Não temos dificuldade em acreditar nisso: se há algo que a jovem de 29 anos demonstrou sem dificuldade é que é de facto uma mulher cheia de garra.

Cátia não quer falar connosco — garante-nos que não o pode fazer devido ao contrato de confidencialidade que estabeleceu com a TVI. Mesmo ali ao lado, porém, houve quem assistisse a toda a azáfama da semana de gravações, que aconteceu em julho e que se prolongou de terça-feira a domingo. Os parques de estacionamento encheram-se de carros, o movimento que se fez sentir foi bem diferente do habitual. De repente, o centro histórico do Fundão encheu-se de caras desconhecidas, e uma em particular que (quase) todos conheciam: o chef Ljubomir Stanisic.

Ljubomir foi duro com o casal proprietário do Dom Dinis — em particular com Hugo, o marido de Cátia, que foi acusado de ser pouco humilde e dedicado. Na rua onde está localizado o restaurante, porém, também não faltam críticas à produção do programa. Melhoras? Houve. Mas também podia ter havido muito mais empenho na remodelação do restaurante.

“Mudaram tudo nos outros restaurantes, porque não neste?”

“Pintaram tudo às três pancadas”, afirma Paulo Venâncio, cabeleireiro apenas uns números abaixo do restaurante Dom Dinis. “É a opinião de toda a gente no Fundão: podiam ter ajudado muito mais”. O homem de 48 anos garante que os acabamentos são terríveis, e que mudanças a sério não houve nenhumas. “Foi muito pobrezinho. Para o espaço que é, podiam ter ajudado muito mais. Mudaram tudo nos outros restaurantes, porque não neste?”.

Paulo Venâncio é cliente habitual no restaurante. Não é que vá lá todos os dias, diz-nos, mas sabe bem dizer como era o espaço antes e como está agora. Sobre a nova decoração, ainda lança críticas aos livros que foram elegantemente deixados em cima das mesas: “Mas há alguém que vá lá para ler? São tudo pessoas que trabalham, têm lá tempo para isso.”

Sobre o casal só tem maravilhas a dizer — em particular sobre Cátia, uma mulher “que agarra o touro pelos cornos”. No Dom Dinis ninguém passa fome, antes ou depois do “Pesadelo na Cozinha” fazer a sua visita. “Há um amor e ternura muito grandes pela Cátia. Toda a gente fala dela e da qualidade da sua comida”. Só que a jovem está sozinha na cozinha e não há mão, por muito boa que seja, que chegue a todo o lado.

Aires Roseli é vizinho do cabeleireiro de Paulo Venâncio. Parede com parede, a loja de fotografia chama-se Rosel e tem 82 anos de história. Aires Rosel tem 66 e é filho do fundador deste espaço. Com orgulho, mostra-nos as fotografias que contam como era o Fundão noutros tempos, para logo a seguir exibir com orgulho a imagem de uma primeira comunhão com décadas de existência. “As pessoas dão-me fotografias antigas em vez de as deitarem fora”, diz com os olhos a brilhar, para logo deixar escapar um “grande chapa”.

De um restaurante com má fama para o “Pesadelo na Cozinha”

Aires Roseli assistiu à transformação daquela rua. Antes do restaurante se chamar Dom Dinis, em homenagem do filho de Hugo e Cátia, era o 1.º de Janeiro. Foi uma casa cheia de história, garante-nos, com muito movimento no século XX. Só que quando os primeiros donos decidiram arrendar o espaço, começou a saltar de mão em mão. Além disso, o Fundão também passou a ter muito menos pessoas — o que obviamente teve um impacto imediato na clientela. “A partir de 2006, 2007, começou a decair e a ganhar má fama”. A comida não era lá grande coisa, o staff também não.

Má fama são duas palavras que Aires Rosel nos repete várias vezes, para logo a seguir destacar a coragem de Hugo e Cátia em pegar num restaurante assim. “Não há nada mais difícil do que levantar uma casa com mau nome”, assegura. Mas foi isso que o casal tentou a todo o custo fazer há cerca de dois anos. Se a má fama se foi toda não temos como saber, mas Aires Rosel também não tem dúvidas de que Cátia é boa cozinheira — e que está ainda melhor.

“Pessoalmente achei que houve melhorias. Na sexta-feira fui lá com uns amigos e comi uns filetes de pescada espetaculares. Grandes. No outro dia comi lá uma feijoca de lulas fabulosa também fabulosa”. Mas Cátia está a cozinhar melhor, insistimos em perguntar. “É indiscutível. Houve grandes melhorias na comida”.

Muito menos simpáticas são as críticas à renovação. “Está péssimo”, responde-nos de imediato. “Os acabamentos são péssimos. Foi mesmo para despachar, provavelmente porque achavam que não vingavam.”

Para Aires Rosel, não podiam estar mais enganados: Cátia tem tudo para vingar, é uma pessoa humilde e que quer de facto aprender. “Eu disse-lhe: ‘Vai trabalhar com o chef, não hesites’”. No programa, Ljubomir Stanisic convidou a dona do restaurante a juntar-se à sua equipa do 100 Maneiras por uns tempos, para aprender com eles. “‘Se ele te deu essa possibilidade, é porque tu mereces’”.

Sobre o programa, o fotógrafo garante que “eles foram levados ao limite. Como pessoas, as suas personalidades, o seu profissionalismo. Mas a Cátia venceu pela humildade”, diz-nos. “E o Hugo também, em parte”.

Ainda na Rua da Cale, encontramos mais um cliente habitual do restaurante. Pede-nos para não se identificar e, tal como Aires Rosel e Paulo Venâncio, também acha que a remodelação foi “feita à pressa”. Mas desvaloriza os maus acabamentos: “Há sítios onde falha a tinta, mas eles agora têm de compor o sítio a partir daí”. Se Paulo Venâncio é bastante crítico com a esplanada, por exemplo, uma das melhores qualidades do restaurante e que praticamente não foi alvo de transformações, o homem destaca as cadeiras, agora de madeira. “É melhor do que o plástico”.

Sobre a comida, garante que a sentiu “um bocadinho melhor”. E quando lhe perguntamos por Ana, a empregada de mesa de 23 anos que às vezes se confundia nos pedidos e no programa apareceu a beber sangria por uma palhinha, garante-nos logo que é boa rapariga: “Ela estava nervosa. Ela é rápida, serve bem. Tem um defeito, às vezes troca os pratos. Sei de fregueses a quem aconteceu isso. Já me aconteceu a mim também”. Neste momento, diz-nos, a rapariga está de baixa — teve um acidente e magoou o braço.

No dia a seguir à exibição do programa, Cátia e Hugo não abriram ao almoço — estavam em Lisboa, no programa “Você na TV”. Na rua, porém, ninguém nega a agitação. “Este casal vai lá”, diz-nos Aires Rosel. “Só por aquilo que vi hoje… a quantidade de pessoas que passaram à procura do restaurante!”.

Contudo, nos próximos dias é bem provável que não o encontre aberto: segundo o fotógrafo, deverá encerrar por uns dias. Depois, promete regressar em força. Se serão feitas mudanças na decoração, não sabemos — mas o Fundão comenta que talvez fosse necessário. “Toda a gente fala nisso, é mesmo à forreta. A produção devia ter olhos na cara”, diz assertivo Paulo Venâncio. “‘Pá, só porque somos do Fundão?”.