Com o arranque oficial do ano letivo 2018/19 nesta segunda feira 17 de setembro surge um problema recorrente para muitas famílias: as mochilas pesadas que os filhos levam para a escola, que podem causar sérias consequências na saúde da coluna dos mais jovens.

Segundo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, o peso das mochilas não deve ultrapassar os 10% do peso corporal das crianças. No entanto, Armando Barbosa, terapeuta da dor crónica especializado em problemas da coluna na PainCare, conta à MAGG que essa é uma medida complicada de cumprir, dado que “cada vez mais as crianças têm de transportar mais livros, mais material escolar”.

Para a fisioterapeuta Sofia Cardante, este peso é “inadmissível”, dado que vivemos numa era tecnológica que facilmente permitira achar novas soluções. “Não é aceitável que, hoje em dia, os manuais escolares ainda estejam em vigor em vez da utilização de material digital. Para além de ser bom para o ambiente, evitávamos gastos de saúde desnecessários das nossas crianças”, relata à MAGG.

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Má postura, escoliose e outros: as consequências negativas das mochilas pesadas

A dinâmica repete-se diariamente: milhares de crianças e jovens carregam uma mochila recheada de livros e material escolar, mais o equipamento para as aulas de Educação Física ou para outra atividade extra-curricular de casa para a escola e vice-versa. E o peso que os mais pequenos carregam às costas numa base diária pode ter efeitos muito negativos a médio e longo prazo, têm alertado, ano após ano, os médicos.

Na fase de crescimento, as cargas impostas pelo peso excessivo das mochilas pode levar à alteração do tamanho, forma e estrutura da coluna vertebral.”

O transporte de peso excessivo nas mochilas representa “um esforço físico maior do que o indicado para as crianças”, salienta Sofia Cardante, que alerta que este esforço “excessivo e inadequado” pode levar ao aparecimento de alterações posturais anormais, “provocadas pela tensão e torção na coluna vertebral, tais como hipercifoses, hiperlordoses, anteversão e retroversão pélvica, bem como cervicalgias, lombalgia, dor nos ombros, entre outras”.

As mochilas com rodinhas não são uma boa opção

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Uma boa forma de contornar o peso que os mais pequenos têm de carregar poderia ser uma mochila tipo trolley, que não obriga a qualquer peso excessivo nas costas. Mas apesar de parecer uma boa ideia na teoria, o mesmo não acontece na prática.

“Os trolleys não são uma boa opção porque as escolas portuguesas não estão adaptadas para este tipo de mochilas”, afirma à MAGG Armando Barbosa, terapeuta da dor crónica especializado em problemas da coluna, que acrescenta que “há que ultrapassar diversos obstáculos, como o piso que temos no nosso País. A calçada portuguesa, por exemplo, não é prática em termos de transportar objetos”.

O especialista também salienta que, mesmo no interior das escolas, há muitas escadas que impossibilitam o uso destes itens e, nesses casos, “a criança tem de agarrar a mochila com a mão ou pode até colocá-la nas costas. Com o trolley fica muito mais pesada (para além do peso dos materiais e dos livros) e acaba por piorar o cenário”.

O especialista Armando Barbosa acrescenta que o facto de carregarem pesos pouco adequados para a idade pode fazer com que as crianças, mais tarde na vida, venham a sofrer de dores na coluna “de uma forma precoce”. Explica que carregar “uma mochila pesada e mal adaptada pode potenciar uma eventual escoliose”, principalmente quando os jovens usam apenas uma alça para transportar a mochila.

Segundo os dois especialistas, a escoliose, doença que afeta dois a três por cento dos jovens portugueses, é uma das consequências do peso exagerado das mochilas. Sofia Cardante garante que é possível que a doença seja adquirida no seguimento do carregamento excessivo de pesos, esclarecendo que, “na fase de crescimento, as cargas impostas pelo peso excessivo das mochilas pode levar à alteração do tamanho, forma e estrutura da coluna vertebral”.

Sofia Cardante esclarece ainda que as articulações dos mais novos “não estão preparadas para suportar tanto peso, pois a capacidade para tolerar forças ainda é diminuta, levando a sobrecargas nos discos da coluna, nos músculos, entre outros, e compromete o alinhamento da coluna”, provocando tensões que dia após dia se transformam em disfunções menores “até se tornarem graves”, se não forem prevenidas ou tratadas atempadamente.

A má postura também é um dos efeitos negativos das mochilas pesadas, dado que causa “um desequilíbrio no desenvolvimento dos grupos musculares. Quando o peso não é carregado da forma correta, alguns músculos vão ficar mais desenvolvidos e outros mais atrofiados”, salienta Armando Barbosa.

Para além de tentar aliviar o peso diário das mochilas (através de uma seleção diária do material estritamente necessário para cada dia ou recorrendo aos cacifos da escola), existem exercícios que os mais novos podem fazer para contrariar a má postura. “Podemos ajudar as crianças com um suporte visual (fotografia ou filmagem) para que elas possam tomar consciência dos erros posturais, o mais precocemente possível”, sugere Sofia Cardante, que também recomenda a realização de atividades físicas “no sentido de reforçar toda a musculatura, essencialmente do tronco. “Em casos de alterações posturais em que não podem ser usados métodos preventivos, recomendo a realização de algumas sessões de pilates e fisioterapia”.

Não há mochilas ideais, mas há formas saudáveis de carregar o peso

Em nome da saúde das crianças e dos jovens, o cenário ideal seria que não carregassem pesos excessivos. Na impossibilidade de tal, existem mochilas mais adequadas que outras e formas de a carregar de modo a que não causem danos excessivos na coluna e nos músculos das costas.

Para Armando Barbosa, a compra da mochila é de extrema importância e adverte que os pais não devem ser seduzidos por marcas conhecidas ou populares entre os mais jovens. “Este tipo de mochilas nem sempre são as mais adequadas e, por vezes, é possível encontrar opções mais económicas e mais adaptáveis”.

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No que diz respeito às mochilas das crianças, adaptação é a palavra-chave. O especialista em problemas da coluna alerta que a mochila deve adaptar-se ao tamanho da criança, não deve ultrapassar a região dorsal (região do pescoço) e também não deve passar a região lombar (sacro ou nádegas). Quanto à largura, Armando Barbosa adverte que esta não deve ultrapassar o corpo da criança.

A mochila deve ser usada junto e bem adaptada ao corpo e deve escolher itens com alças curvas e largas, “para que se possam adaptar melhor e para que o peso seja melhor distribuído pelo corpo da criança”, afirma Armando Barbosa, que acrescenta que as alças devem ser almofadadas ou acolchoadas “para absorverem a transpiração e para que o seu uso seja mais confortável”. O melhor é preferir mochilas que apertem também na parte de frente do corpo: “Algumas trazem uma espécie de cinto que permite distribuir o peso pelos ombros, mas também pela cintura”.

A organização dos materiais (e do peso) no interior deve ser feita de forma correta, sendo que Armando Barbosa sugere que os objetos mais pesados (que habitualmente são os livros)  “devem estar na parte de trás da mochila, mais junto às costas. Os pesos mais leves devem estar mais afastados e o conteúdo deve ser organizado com recurso a fitas e separadores da própria mochila, para que os objetos não fiquem a dançar lá dentro”.