Entrevista ao realizador de “Saw”. “Era puto e fingia que ver filmes de terror era fixe”

O realizador do filme "Saw" esteve em Lisboa a propósito do MOTELX, o festival internacional de terror. A MAGG foi falar com ele.

O realizador diz que se vê a fazer comédias românticas, mas que é difícil fugir ao preconceito e aos rótulos do público

Descontraído, ligeiramente atrasado mas sempre com boa disposição. Foi assim que Leigh Whannell (“Sentença de Morte”), o realizador australiano de 41 anos, nos recebeu em Lisboa a propósito da apresentação do seu novo filme, “Upgrade”, no festival de terror internacional MOTELX. À MAGG contou como começou o seu gosto por filmes de terror, e de como fingiu durante vários anos gostar daquele género quando, na verdade, estava cheio de medo. Com o tempo apaixonou-se por aterrorizar salas de cinema inteiras.

Os críticos dizem que o género de terror está estagnado, mas Leigh Whannell não podia estar mais em desacordo. “É de uma desonestidade enorme ver críticos de cinema a declarar a morte de um género que comporta tanto subgéneros e que anualmente vai levando cada vez mais pessoas ao cinema”, referindo-se aos filmes “Hereditário” e “A Freira Maldita”, que foram talvez os mais falados deste ano.

Pelo meio desta conversa, houve ainda tempo para falar de séries de televisão, comédias românticas, e de como Elon Musk já está no novo patamar de Steve Jobs.

É a primeira vez que está em Portugal?
Não, já cá tinha estado antes em 2011 a promover o filme “Insidious”, o primeiro da saga que vai contar com cinco filmes. A melhor coisa que eu e a minha mulher fizemos foi ficar hospedados num hostel em Lisboa, e não num hotel. Por isso logo no primeiro dia fizemos imensos amigos com quem ainda hoje mantemos contacto.

Gostou do tempo?
Sem dúvida. Da última vez que cá estive foi em meados de julho, no meio do verão, por isso estava muito calor mas sempre gostei muito das temperaturas em Lisboa. Ainda ontem estive na praia, por exemplo.

Devia experimentar o nosso inverno…
É assim tão grave?

Não é tão apocalítico como alguns dos seus filmes [risos].
Exato! Sei que não costuma nevar aqui em Lisboa, mas gostava muito de vir aqui no inverno. Aliás, adorava tirar mais um mês só para poder conhecer Portugal inteiro mas infelizmente tenho três filhos em casa que estão a morrer de saudades minhas.

Como é que nasceu o interesse por filmes de terror?
Foi muito cedo, quando eu ainda era um adolescente. Lembro-me que uma vez fui convidado para ir a casa de um amigo que andava comigo na escola, e aceitei porque a casa dele era muito diferente da minha. Enquanto que ele tinha permissão para ver tudo o que lhe apetecesse, eu não tinha essa liberdade. A certa altura os pais dele foram-se deitar e ele propôs que nós ficássemos acordados a noite inteira a ver filmes como “Fogo Maldito III — Inferno na Terra” ou “Pesadelo em Elm Street 4”. Era puto e fingia que ver filmes de terror era fixe, mas estava borrado de medo. Costumo dizer que o primeiro contacto com os filmes de terror foi uma experiência muito forçada mas com o passar dos anos fui gostando cada vez mais.

Sabíamos que nos ia dar um murro no estômago a qualquer altura, e era isso que nos motivava a gostar daquilo.

Mas consegue identificar o que lhe despertou o interesse?
É fácil: adoro a forma como a criatividade é utilizada nos filmes de terror. Quando era puto, no início dos anos 90, e numa altura em que você provavelmente ainda não tinha nascido [risos]…

Já vi que a barba não chegou para o convencer, mas nasci em 1993…
Pronto, devia ter tido três anos quando isto aconteceu [risos]. Nessa altura o género de terror não estava propriamente no seu melhor estado. Havia alguns filmes de terror muito bem feitos e muito interessantes, como o “Gritos”, mas regra geral estava muito fraquinho. Enquanto que nos anos 70 assistimos à era dourada dos filmes de terror, os anos 90 foi como assistir à decadência do género — era uma altura em que os realizadores, produtores e argumentistas não sabiam muito bem como fazer um filme de terror de maneira a conquistar um certo público alvo. Até chegarmos a 2000, altura em que o filme “Saw” mudou um bocadinho o estado apático e inerte em que o género se encontrava.

Lembro-me de pensar que o género era simplesmente descomplicado na medida em que sabíamos perfeitamente com o que contar quando fôssemos ver um filme de terror ao cinema. Sabíamos que nos ia dar um murro no estômago a qualquer altura, e era isso que nos motivava a gostar daquilo.

Acha que ainda é possível inovar nos filmes de terror, ou o género estagnou como dizem os críticos?
Quanto tempo é que temos? Tenho muito para dizer sobre isto [risos]. Acho que é ridículo que os críticos tenham a arrogância de dizer que o género estagnou quando existem demasiados subgéneros de terror. Há filmes de zombies e vampiros, com mais ou menos sangue, e mais ou menos elementos sobrenaturais, que é impossível não acreditar que o género seja capaz de se reinventar de ano para ano. No início de 2000, por exemplo, a chegada do “Saw” aos cinemas fez com que existissem cada vez mais filmes que apostassem naquele tipo de violência gráfica e explícita. Tiveram o seu momento de glória até que eventualmente caíram no esquecimento até surgir outro tipo de filme que metesse toda a gente a falar disso.

Os filmes com fantasmas, assombrações ou exorcismos estão outra vez na berra e é por isso que acho muito desonesto quando ouço ou leio críticos a afirmar que todo um género estagnou. Então estes filmes que estão a ter sucesso não contam? Vai sempre haver um estilo novo ou uma maneira diferente de fazer terror que permite que o género não caia no esquecimento e não se torne aborrecido.

Já viu o filme “A Freira Maldita” de que está toda a gente a falar?
Ainda não o vi apesar de o meu amigo James [Wan] o ter produzido. Aliás, na noite da estreia estava a caminho de Lisboa, por isso a culpa é de Lisboa e do festival MOTELX [risos]. Senão certamente que teria estado no cinema a ver. Mas é fantástico que estejam todos a falar do filme. O que é que andam a dizer?

Por isso quando alguém aponta para um filme em específico e diz que o género está a morrer, eu aponto para outros cinco que foram muito bem sucedidos e digo “mas estes foram apelidados os salvadores do género

Que é assustador mas que não foge muito ao que já foi feito antes. Que é só mais um filme que se foca na religião, em assombrações e espíritos. Como se inova a partir disto?
Os filmes de terror são compostos por ciclos de tendências. Lembro-me que nos anos 90, depois do filme “Gritos”, houve uma tendência para apostar em filmes de terror com personagens adolescentes, como “Sei o Que Fizeste no Verão Passado”, ou focados em lendas urbanas. Mas a verdade é que depressa deixou de ser interessante e não se fizeram muitos mais. E quem faz esta gestão sobre o que é ou não interessante é o público, que decide se vai ou não assistir àquele filme no cinema.

Com “A Freira Maldita” é a mesma coisa. As pessoas agora querem ver filmes com esta temática, mas assim que se fartarem e a indústria de Hollywood começar a perder dinheiro é quando surge outra coisa nova para os substituir. Mas sei que o filme lucrou imenso por isso o meu instinto diz-me que tão cedo isso não vai acontecer. Assim como o filme “Hereditário” que foi a sensação do ano e a grande maioria dos críticos adorou. Por isso quando alguém aponta para um filme em específico e diz que o género está a morrer, eu aponto para outros cinco que foram muito bem sucedidos e digo “mas estes foram apelidados os salvadores do género” e geralmente ficamos assim e a conversa morre de imediato.

Leigh Whannell fez o primeiro "Saw" sem grandes expectativas de algum dia vir a ter o sucesso que conseguiu e diz que isso o marcou para sempre

E alguma vez esperou que o “Saw” fosse tão bem sucedido como foi?
Nunca na vida. Nós só queríamos fazer um filme e tivemos a sorte de o primeiro ter sido um sucesso de bilheteiras um pouco por todo o mundo. O nosso grande objetivo era fazer filmes e ganharmos algum nome na indústria cinematográfica e achámos que o “Saw” seria a nossa porta de entrada para esse mundo. Aliás, estávamos à espera de ser aquele tipo de equipa que faz uns cinco ou sete filmes até que há um que nos coloca na ribalta. O que aconteceu foi exatamente o oposto e ficámos imediatamente conhecidos depois do “Saw”. Foi uma surpresa para todos — até para nós.

Esse filme mudou a maneira como viria a escrever novas histórias?
Sem dúvida, até porque eu e o James éramos muito ingénuos quando fizemos o primeiro filme da saga “Saw”. Não sabíamos muito bem o que estávamos a fazer. Eu, por exemplo, nunca tinha aprendido a escrever um guião por isso quando me pergunta o que é que aprendemos com aquela experiência, a resposta curta é “tudo”. Se não tiver espaço suficiente para escrever tudo o que eu estou a dizer nesta entrevista, pode simplesmente escrever “tudo” na resposta a esta pergunta [risos].

Mas a grande lição aconteceu no filme seguinte, quando achámos que o sucesso do “Saw” seria capaz de nos garantir que todos os filmes seguintes iriam ser um sucesso de bilheteiras. Apressámo-nos demasiado em fazer um filme novo, chamado “Silêncio Mortal”, e achávamos que estava tudo garantido.

Só que não estava… o que falhou?
Tivemos zero apoio dos estúdios, zero publicidade, e ainda fomos obrigados a regravar e a reescrever grande parte do filme porque a produtora não estava contente com o resultado final. Foi uma experiência negativa mas que serviu para nos ensinar muita coisa.

Se precisar de alguém para reprogramar os canais de televisão, não sou a melhor pessoa a quem deve ligar

Há diferenças entre escrever um filme de ficção científica e um filme de terror?
Depende do género. Mas no caso do meu novo filme, “Upgrade”, sinto que há muitas diferenças. Enquanto que num filme deste género há muita ação e a ideia é criar um ambiente frenético, nos filmes de terror o silêncio impera e a atenção está mais virada para aquilo que não está a acontecer.

A história de “Upgrade” passa-se num futuro em que a tecnologia influencia a vida de toda a gente. Ainda assim, a sua personagem principal recusa-se a aceitar esta realidade. De que lado da barricada é que se coloca? É fã das novas tecnologias?
É difícil não ser. Tenho sempre um computador comigo e uso um telemóvel como este [pega no iPhone que está a gravar a entrevista] e a tecnologia todos os dias. Mas não me considero um especialista ou um nerd das novas tecnologias. Se precisar de alguém para reprogramar os canais de televisão, não sou a pessoa a quem deve ligar [risos]. Vejo alguns dos benefícios da tecnologia e na forma como ela nos pode ajudar no dia a dia. Aliás, em Los Angeles conduzo um carro elétrico da Tesla e sou grande fã do Elon Musk [CEO da Tesla] que, apesar de recentemente ter sido alvo de inúmeras críticas, tem feito coisas muito boas pela sociedade.

Acha-o o novo Steve Jobs?
Sem dúvida, vou até mais longe e não tenho problema nenhum em dizer que acredito que já se encontra no mesmo patamar. Por exemplo, em Los Angeles, que é uma cidade dominada por carros, é de admirar quando vem alguém e diz para mudarmos isto. E nesse sentido Elon Musk mudou muita coisa ao tornar os carros elétricos mais populares e inteligentes. Pessoas como ele e como o Steve Jobs fazem avançar o mundo e trazem avanços significativos às nossas vidas.

De alguma forma parece que se inspirou na série “Black Mirror” da Netflix para o seu novo filme. Alguma vez viu a série?
Tentei não ver precisamente devido às semelhanças temáticas que existiam entre as duas produções. Vi apenas o primeiro episódio da primeira temporada, em que o primeiro-ministro britânico é obrigado a fazer sexo com um porco. Achei interessante [risos], mas evitei tudo o resto para não correr o risco de ser demasiado influenciado. Mas ao contrário de “Black Mirror”, tentei que o mundo de “Upgrade” não fosse distópico e mostrasse todos os pontos positivos de viver num futuro não tão distante assim, em que as personagens fossem o mais variadas possíveis — desde as que gostavam de tecnologia, às que repudiavam de forma muito feroz.

Costumo dizer que é “O Padrinho” da nossa geração e enquanto argumentista tenho de dar a mão à palmatória quando vejo uma grande ideia executada com mestria.

É fã de séries no geral?
Sim, mas geralmente demoro muito tempo a ver alguma coisa que me recomendem. Quando me dizem que tenho de ver isto ou aquilo geralmente não vejo porque não gosto que me digam o que fazer [risos], mas também porque tenho pouco tempo para acompanhar tudo o que está a ser transmitido atualmente.

É aí que a Netflix entra em cena já que pode ver qualquer coisa em qualquer lugar…
Sim, mas mesmo assim grande parte do meu tempo é ocupado a tomar conta dos meus filhos. Antes de ter filhos vi muita coisa e sou grande fã de “Mad Men” e “A Guerra dos Tronos”. Recentemente vi e adorei “The Handmaid’s Tale”, “Sharp Objects” e “Breaking Bad” — esta última série foi a única que vi porque toda a gente me dizia para ver e eu não percebia o hype que se tinha gerado em redor da produção da AMC. Ainda bem que vi, porque é capaz ser a grande obra-prima da televisão dos últimos anos.

A primeira temporada foi meio lenta mas havia sempre a ideia de que estava a levar a história para algum lado…
Sim, exato. Costumo dizer que é “O Padrinho” da nossa geração e enquanto argumentista tenho de dar a mão à palmatória quando vejo uma grande ideia executada com mestria. A ideia de ter um professor de físico-química que, de repente, se torna no maior barão de droga do Novo México, nos EUA, é brilhante.

Alguma vez o vamos ver a escrever ou realizar uma comédia romântica?
Adorava fazer isso. A questão aqui não é se alguma vez vou querer fazer, mas sim se me deixam fazer isso. Geralmente quando estamos rotulados a um só género é difícil fugir para outro tipo de projetos porque as pessoas não confiam na capacidade de um argumentista em fazer várias coisas.

Se alguma vez o meu nome estiver associado a uma comédia romântica, o mais certo é a primeira reação das pessoas ser de desconfiança. “Olhem um gajo do terror a fazer comédia, de certeza que é uma piada”, e se for preciso não vão ver o filme.

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