Passaram 38 minutos desde que tínhamos feito uma publicação num grupo do Facebook a perguntar se algumas mulheres já tinham tido más experiências com a pílula e já havia mais de dez histórias diferentes relatadas nas caixas de comentários. Enxaquecas, náuseas, vómitos e irritabilidade são os sintomas mais frequentes de quem não se dá bem com o contracetivo feminino mais comum. Mas não é o pior.

Doze horas depois, eram mais de 70 as histórias negras sobre a pílula. Problemas no fígado, quistos nos ovários e hemorragias. “Nunca mais!”. “Nunca mais tomo”. “Deixei completamente esse veneno”. Estes eram só alguns dos desabafos.

“Lembro-me de estar na escola e de os meus colegas me dizerem que estava grávida”, recorda Ângela Silva, 35 anos, natural de Vendas Novas. Começou a tomar a pílula aos 14, porque tinha menstruações irregulares e muitas perdas de sangue. “Chegava a estar com anemia porque passava duas semanas sem parar de perder sangue.”

A brincadeira de que Ângela era alvo tinha uma razão: ela vomitava por tudo e por nada. Bastava o cheiro de um refeitório da escola para se sentir nauseada. Nas casas de banho, era garantido. “Se tivesse de ir a uma casa de banho pública, a um sítio com um cheiro mais ativo — nem precisava de ser mal cheiroso — tinha de colocar um lenço na cara para suster o vómito, mas o que acontecia é que acabava sempre por vomitar.

Ângela estava convencida de que estas reações fossem “uma coisa comum da adolescência”. Só soube que não quando procurou ajuda. “Fui ao ginecologista e ele disse-me que não era normal, que eram sintomas de gravidez, provavelmente por alterações hormonais, que teriam de ser verificadas através análises.” Os resultados confirmaram as alterações hormonais, mas, mesmo assim, não lhe foi recomendado que interrompesse a pílula.

Quando tinha perto de 20 anos, Ângela teve uma grande perda de sangue a meio do período fértil. “Fui de urgência para a maternidade Alfredo da Costa e disseram-me que tinha o útero descaído e escamado”, diz. Pior: tinha quistos. “Foi-me dito que isto era uma consequência de quem tomava a pílula há muito tempo e que quando engravidasse desaparecia.”

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Continuou a tomar. A coisa agravou-se. Uns anos mais tarde, teve novo episódio com muitas dores na zona abdominal e foi-lhe dito que tinha uma gastrite aguda. Só que a medicação prescrita não surtia efeito. “Fizeram análises específicas e descobriram que o fígado não estava a produzir ácido fólico. Foi neste contexto que a pílula me foi retirada”. Ângela tinha 25 anos.

Sofia (que pediu para não ser identificada) tem 21 anos e partilha de alguns dos efeitos secundários que Ângela sentiu, neste caso, as variações de humor: “Estava sempre cansada, engordava, estava sempre com fome (nunca me sentia saciada, por mais que comesse), tinha perda de desejo sexual, tinha secura vaginal, alterações de humor. Reagia a tudo à flor da pele. Sentia-me deprimida. Não tinha motivo, mas estava sempre em baixo”, conta. “Se rompia uma meia, já não queria sair de casa. Lembro-me do jantar de anos da minha irmã, em que estávamos 30 familiares, e de não estar a conseguir tirar uma fotografia com a minha máquina, desatar a chorar e a sair. Levava tudo a mal, achava que o mundo estava contra mim.”

Catarina Beato, 40 anos, também fez algumas tentativas com o contracetivo, mas durou pouco. A primeira vez foi ainda na adolescência, porque era muito desregulada.”Chegava a estar um mês seguido com menstruação”. A sensação que invade as mulheres pouco tempo antes de o período aparecer estava sempre presente. Tomou durante um ano e parou. Depois de engravidar, voltou a tentar. Mas passou-se o mesmo. Ao segundo filho a história repetiu-se. Desistiu.

As enxaquecas fazem parte dos sintomas frequentemente apontados por quem teve problemas com a pílula. Foi o fator decisivo para que Catarina Beato abandonasse o contracetivo e foi um dos motivos que levaram Sofia ao homeopata. Depois de cinco anos, várias pílulas com dosagens e combinações diferentes, a jovem de 21 anos montou o puzzle e percebeu que aquele medicamento não era para si. “Quando percebi que estava tudo ligado à pílula parei logo.”

Isto quer dizer que a pílula faz mal a todas as mulheres?

Há um motivo para a pílula ser um dos medicamentos mais tomados no mundo. De acordo com o relatório das Práticas Contracetivas, realizado em 2016 e publicado em 2017, pela Sociedade Portuguesa de Contraceção e pela Sociedade Portuguesa da Ginecologia, “a pílula continua a ser o método contracetivo preferencialmente utilizado pelas mulheres portuguesas, sendo o seu uso declarado por 58,1% das inquiridas.”

Por isso, não, a pílula não faz mal a todas as mulheres. Mas também não é certo que todas funcionem bem com ela. Afinal, não deixa de ser um fármaco. “Tem de ser encarada como um medicamento e como qualquer um tem efeitos benéficos e outros secundários”, explica o ginecologista Fernando Cirurgião. “É preciso equilibrar os pratos da balança.”

Quais são as contraindicações da pílula?

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De acordo com a Direcção-Geral de Saúde, as contra-indicações para o uso da pílula são: “gravidez, hipertensão arterial,hemorragia genital anormal, doença hepática, tabagismo nas mulheres com mais de 35 anos, neoplasia hormonodependente, cefaleias tipo enxaqueca, trombose venosa profunda ou troboflebite em curso, diabetes Mellitus com complicações vasculares,doença vascular cerebral ou coronária, hiperlipidémia, colelitíase e outras doenças cujo terapêutica possa interferir com a pílula (epilepsia, tuberculose).”

É o contracetivo mais prático, mais acessível e o mais fácil de administrar. Mas não são todos iguais e é preciso encontrar o ideal. Fazem-se ajustes, através de experiências que vão decorrendo em modo tentativa-erro. É ir vendo o que acontece e daí escolher o caminho. “A tendência natural é começar com uma dose hormonal menor. Consegue-se o mesmo efeito de contracepção, com menos possibilidade de efeitos secundários”, diz. “Mas com as pílulas mais fracas pode ser mais difícil controlar o ciclo e o fluxo, podendo haver pequenas perdas de sangue ou quistos, mas são situações compreensíveis.” Quando ao fim de três ou quatro meses estas persistem, então está na hora de mudar. “A tendência é para alterar para uma com uma dose hormonal mais elevada.”

O objetivo da adaptação das doses passa por deixar tudo o mais regulado e normal possível, tendo em conta as particularidades de cada mulher. Foi por este motivo que a investigação cientifica levou a que se criassem pílulas com tipos de hormonas e dosagens diferentes. Há as pílulas combinadas, compostas por estrogénio e progestagénios, em três versões: existe a monofásica (todos os comprimidos têm a mesma dosagem), a bifásica (comprimidos com duas dosagens diferentes) e trifásica (comprimidos com três dosagens que têm como objetivo imitar o ciclo menstrual). E há ainda a pílula contracetiva que contém apenas progestagénio, a hormona responsável por impedir a gravidez e que é indicada para quem não pode tomar estrogénio. É aquilo a que popularmente se chama a pílula da amamentação, porque mulheres que amamentam não podem ingerir a outra hormona.

Médicos de família preferem a pílula, ginecologistas não

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Segundo o mesmo relatório elaborado pela Sociedade Portuguesa de Contraceção e pela Sociedade Portuguesa da Ginecologia, “os médicos de família privilegiam o aconselhamento dos contracetivos hormonais, preferencialmente a pilula, enquanto os médicos ginecologistas privilegiam as novas vias de administração dos estroprogestativos e os métodos contracetivos de longa duração.”

Só que não existem medicamentos perfeitos. Embora exista variedade, a pílula não é exceção. Nem sempre é possível chegar-se a bom porto e os benefícios deste contracetivo podem acabar por se tornar nas suas desvantagens. As náuseas, as dores, as irregularidades dos fluxos, a irritabilidade, ao invés de serem eliminadas, surgem aumentadas, como no caso de Sofia ou Catarina.

“Pode haver uma hipersensibilidade ao medicamento. Acontece. Nessas circunstâncias, e havendo essa possibilidade, deve mudar-se de método contraceptivo”, diz o ginecologista.

A raiz desta hipersensibilidade pode estar na questão hormonal. Por mais semelhantes que sejam às que o corpo produz, nunca são exatamente iguais e há quem não reaja bem: “É uma questão de inadaptação à pílula. Algumas mulheres não recebem bem aquelas doses sintéticas.

Não existe um perfil único para as mulheres que vão sentir os efeitos secundários . “Só mesmo experimentando. Só através das tentativas. Há mulheres que começam a pílula para resolver esses problemas e não têm resultados imediatos. Pede-se alguma paciência nos primeiros nos três, quatro meses para se for necessário se mudar e adaptar às suas necessidades.”

A pílula é o contraceptivo com maior possibilidade de efeitos secundários?

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Fernando Cirurgião explica que sim, pelo facto de ser um medicamento, administrado por via oral, que passa para a corrente sanguínea.

O anel vaginal— o método contracetivo adotado por Ângela Silva, que Sofia experimentou e com que também não se deu bem — é, tal como a pílula, um meio de contraceção de hormonas combinadas. Apesar de funcionar da mesma forma, tem potencial para surtir, no entanto, menos efeitos secundários.

Mas na história de Ângela, o caso foi diferente, porque houve náuseas excessivas e problemas de fígado, que outras mulheres nos disseram também terem tido. De acordo com Fernando Cirurgião, a pílula pode ter exponenciado o problema porque sobrecarregou este órgão, mas não é a raiz do problema.

“A pílula não provoca problemas de fígado”, diz. “Tudo o que nós tomamos e ingerimos é metabolizado por este órgão, desde os medicamentos, aos alimentos. Na generalidade das mulheres que tomam a pílula ao longo da vida, as análises de rotina refletem o bom funcionamento do fígado. Neste caso podia haver já uma sensibilidade prévia em termos hepáticos o que regra geral leva a problemas digestivos.”

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E é aqui que chegamos a um ponto fulcral. Antes de iniciarem a toma da pílula, todas as mulheres devem perceber se estão ou não aptas a fazê-lo. E não deverá bastar aquilo que, regra geral, é suficiente: a construção de um histórico de saúde, com base no que o paciente relata, sobre si e sobre a família. Este inquérito dá um bom quadro, mas não deixa ver tudo.

Para se fugir do cenário vivido por todas as mulheres que partilharam as suas experiências, é fundamental “fazerem-se análises de carácter geral para ver se há fatores de risco que ponham em causa a saúde na sua ingestão.”

Sabe-se que quem tem nos antecedentes familiares de problemas cardiovasculares terá um risco acrescido na toma do contraceptivo, bem como pessoas obesas ou mulheres fumadoras com mais de 35 anos. Mas também é preciso verificar se há problemas hepáticos, o que se passa com os lípidos e com os triglicémios e ver se rins os funcionam corretamente.

“Uma história clínica bem detalhada já avança muita informação. Mas há algum facilitismo da parte dos médicos”, assume Fernando Cirurgião.