É raro o dia em que Emy Soares não come arroz de feijão. Também não diz que não a uma fatia de bolo sempre que alguém no trabalho faz anos e, quando vai jantar fora, prefere sushi ou pizza. Já Pedro Roque, não só come pastéis de nata, como ainda lhes põe um quadrado de chocolate a derreter em cima. Essa é quase a sua imagem de marca no Instagram, onde cabem também fotos dos croissants ao lanche ou do leite com Chocapic para ceia.

Se este primeiro parágrafo é capaz de fazer engordar só de ler, vale a pena passar para um segundo onde esclarecemos algo importante: tanto Emy como Pedro têm corpos de fazer inveja a muitos e esforçam-se para isso.

Emy trabalha como comercial num ginásio e Pedro é engenheiro civil e está prestes a terminar uma formação na área de Desporto. Juntos, além da vida de casal, partilham um projeto comum a que deram o nome de Flexduo e com o qual, através de vídeos no Yutube, partilham dicas, estudos, respondem as questões e, principalmente, desmisitificam o que é isto de dieta flexível. Ora esclareçam-nos a nós também.

“Ser flexível é uma mentalidade e não propriamente uma dieta”, começa por esclarecer Emy, o que já daí é uma novidade num mundo em que dieta ainda é sinónimo de restrição alimentar.

A dieta flexível, conhecida também pela sigla IIFYM de “If It Fits Your Macros”, algo como “Se couber nas tuas macros”, começou por ser uma técnica usada por bodybuilders que procuravam uma alternativa à dieta restritiva que normalmente têm que seguir. Neste caso, em vez de ter uma lista de alimentos ditos “limpos”, os seguidores desta tendência não restringem o tipo de alimentos consumidos, desde que sejam satisfeitos os objetivos diários de macronutrientes.

“Os alimentos são compostos por macronutrientes (proteína, gordura, hidratos) e micronutrientes (vitaminas, minerais). Delineando os valores dos macros e micros que necessitamos, consoante o nosso objetivo (emagrecer, perder ou ganhar peso, tonificar), conseguimos manipular esses valores com uma série de alimentos, não estando restrito a nada. Podemos incluir de tudo, com moderação”, esclarece Pedro.

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Mas calma, que ninguém pense que o dia a dia destes dois é feito à base de açúcar e fast-food. “Acima de tudo, assumimos uma postura equilibrada e de moderação. Essa postura não seria possível a comer um bolo inteiro ou chocolate todo o dia, sejamos francos. No entanto permite-nos comer uma fatia de bolo na festa do amigo ou um doce quando vamos passear porque apeteceu. Isso é equilíbrio”, acrescenta Pedro.

Na opinião da nutricionista Catarina Nunes, este deve ser sempre o espírito de uma dieta, independentemente do nome que se lhe dá. “Qualquer dieta pode e deve incluir todos os alimentos de que gostamos, incluindo aqueles menos interessantes nutricionalmente. Com isto não digo que deve ser obrigatório nem estou a incentivar a comer doces, por exemplo, apenas significa que, se a pessoa gostar de os comer, certamente haverá um lugar na sua dieta para os colocar, nas proporções adequadas”.

É por isso que Emy, apesar de admitir que não é do tipo de pessoa que faz “panquecas decoradas” ou que “janta alface religiosamente”, sabe que, nas quantidades certas e juntando ao prato carne/peixe e salada, não tem que deixar de comer o seu tão adorado arroz de feijão.

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Para alguém que quer perder peso ou ganhar massa muscular, dizer que não tem que cortar nos hidratos ou nos doces por completo parece mentira.

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“A ideia de dieta flexível só parece assustadora porque, infelizmente, o fitness tomou um caminho de desequilíbrio e obsessão. Exatamente por associar a restrição a resultados e também a rotular os alimentos como ‘não saudáveis’ é que hábitos tão comuns como comer aquilo de que se gosta com moderação e equilíbrio viraram um tabu“, lembra Emy.

“Na consulta de nutrição deve ser incutido a importância de ter uma alimentação saudável mas não se deve causar medo de comer algo fora do plano”, acrescenta Catarina Nunes. Mesmo assim, a nutricionista, apesar de fã da ideia de se poder comer de tudo um pouco, admite que nem sempre isso é feito da melhor forma. “Há quem siga uma dieta flexível mas que se restrinja durante o dia inteiro para no final do dia se conseguir entupir de doces e fritos”.

É esse o lado negativo de contar macros, para quem não o faz com o objetivo de comer de tudo e fazer disso algo a longo prazo. “Estar todo o dia a restringir para depois comer’ tudo o couber nas macros’ talvez possa causar stresse”. É por isso que, apesar de considerar que qualquer pessoa pode seguir uma dieta flexível, admite que seja mais difícil para quem é mais ansioso ou tenha uma relação pouco saudável com a comida, uma vez que comer de tudo pode ter acoplado um medo de engordar.

E depois há casos como o de Pedro, para quem a dieta flexível é a melhor das opções, vindo ele de um passado de distúrbios alimentares.

Em criança, comia muito e sem controlo. Com dez anos pesava já mais de 80 quilos e esse excesso de peso manteve-se até por volta dos 14 anos, quando decidiu emagrecer, ainda que de uma forma pouco saudável. Saltava refeições, fingia que não tinha fome e passava dias a comer apenas uma sopa e uma pequena porção ao jantar. “Passei de comer uma caixa de cereais numa só refeição para uma estratégia que, para enganar a família, me levava a triturar uma pequena porção de cereais, pôr numa tigela com leite e rodá-la de maneira a parecer que, suja, tinha estado cheia”, conta, num dos vídeos do canal de Youtube que criou.

Este comportamento restritivo durou anos, até ao momento em que entrou num ginásio, gostou da experiência e começou a aprofundar o seu conhecimento por treino e nutrição.

Hoje, apesar de contar macros — expressão usada por quem contabiliza a ingestão diária de calorias e macronutrientes dos alimentos que consomem, — acredita que a dieta que escolheu para si não se encaixa na tendêncida IIFYM, até porque lembra que quem faz essa contagem nem sempre é flexível, restringindo a sua alimentação apenas a alimentos ditos saudáveis ou, pelo contrário, comer em menos quantidade só para poder encaixar doces e fast-food no seu dia a dia, sem ultrapassar o valor calórico para si estipulado.

Maçã ou brigadeiro?

Não nos deixemos levar por esta onda quase de YOLO na alimentação. “Não se enganem, numa dieta para perder peso tem de haver restrição calórica. Agora, é o tipo de alimentos que oferecemos que vai garantir a adesão à dieta“, esclarece Catarina Nunes.

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E é por isso que pomos na balança destes especialistas a questão: Ainda que caloricamente semelhantes, o que é que escolhem, uma maçã ou um brigadeiro?

“Depende”, começa Pedro. “Se o nosso dia apenas se resumisse a comer 1 maça ou 1 brigadeiro, nesse caso a maçã ganha sem dúvida. No entanto se pensarmos num contexto total de dieta, onde baseamos a nossa alimentação em alimentos nutritivamente densos, num cenário em que tive um dia stressante e tudo o que eu mais queria na vida era comer um doce depois do trabalho, fará sentido comer a maçã?”

A nutricionista corrobora esta opinião, sem deixar de lembrar também que a maçã, além de fibras e vitaminas, é maior e dará mais saciedade. “Aliás, quem é que come só um brigadeiro?”, aproveita para questionar. “A vantagem de uma dieta que contém todos os alimentos nas proporções adequadas é que, se naquele dia nos apetecer realmente um brigadeiro, iremos comer sem culpa, pois como é sempre realizada uma alimentação saudável, não será este alimento fora do plano que irá afetar os resultados.”