Entre o Cais do Sodré e Belém existe uma espécie de terra de ninguém. Durante muito tempo esteve adormecida, mas parece que calmamente vai acordando. A Doca de Santo Amaro está a ressuscitar e prova disso são todos os projetos que por lá estão em curso. As obras da CUF Tejo já estão em andamento. Na antiga FIL nascerá um Pine Cliff.  E já há mão do Grupo José Avillez, que recentemente mudou o primeiro restaurante a abrir neste espaço, o Doca de Santo.

Mas não ficamos por aqui. Um dos novos projetos já está de portas abertas. Fica no armazém 0 da Doca de Santo Amaro e chama-se Izanagi. Quem não entende o nome, alusivo à mitologia de um certo país, perceberá de que tipo de gastronomia se trata. Se a assinatura é de Daniel Rente, então só podemos estar perante o mais recente restaurante de comida japonesa da cidade.

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Os fãs do ramen e do sushi (que aqui tem um arroz com diferentes proporções de vinagre, açúcar e sal) encontrarão opções, mas é preciso esclarecer: este não é um espaço onde só há hosomakis, temakis, niguiris, sashimi ou as grandes taças com caldo, massa a vegetais. É assumido: estes pratos populares ficam para segundo plano e dão lugar a outros pratos bem conhecidos entre a cultura japonesa.

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Com 60 lugares e mais uns quantos na esplanada provisória, montada no exterior, é um sítio para se estar à vontade. As etiquetas e protocolos barrocos ficam à porta. Simples e despojado, não se encontra aquilo que não faz falta, o que não significa que seja descuidado. É ao contrário. As paredes são de tijolo, justamente como o armazém em que se encontra, e condizem com a cor das cadeiras e sofás. A madeira também é um elemento predominante, seja pelas mesas, pelo chão, pelos balcões e outras estruturas que dividem as mesas para dois. Há muita luz natural porque há duas grandes portas de vidro. A cozinha é acessível aos olhos de quem por lá se senta, podendo observar os sete cozinheiros experientes nesta gastronomia que vem de longe.

“Temos um contrato que nos permite encarar o projeto a longo prazo. Não só relativamente ao restaurante, mas também na capacidade de colocar as docas no mapa outra vez”, disse Gonçalo Salgado, um dos sócios do restaurante, parte do grupo Sushi Café. “Queremos ser um player ativo no processo de reabilitação.”

Concentremo-nos no que se come. Aqui há comfort food. Há comida que aconchega, que tira a fome e que satisfaz. É comida para picar e partilhar, daquela que se encontra nas tascas, casas e cultura de street food do Japão. Vamos a alguns exemplos. Há tuna chimichirro (8,5€), que é atum braseado com o molho utilizado na América Latina — uma mistura pouco óbvia que, bem como a introdução de pormenores gastronómicos típicos portugueses, como a utilização de alho e azeite, faz juz ao slogan “cut the obvious”. Há hamachi (8,5€), uma entrada que junta lírio australiano — um peixe comum no Japão e que raramente entra na gastronomia portuguesa — com nata azeda, ervas e óleo ou azeite de trufas.

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De destacar serão ainda a Robata Mix (19,75€), uma mistura de diferentes espetadas grelhadas, de salmão, de barriga de porco, de lombo de novilho ou ainda de espargos enrolados em panceta, e o Okonomiyaki, as famosas panquecas fritas, disponíveis em duas versões: a Ebi Cheese, com legumes, camarão, queijo, bacon, tonkastu, ao nori e bonito flakes (13,25€) e a Hot Calamari, com legumes, calamares, camarão seco, bacon, tonkastu, ao nori, bonito flakes e tougarashi (11,50€).

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“Trazemos muitas inspirações do street food que se faz no Japão”, diz Daniel Rente. “Queremos uma cozinha japonesa descomprometida em termos de sofisticação mas comprometida com a questão gastronómica do sabor, do carvão, da chapa da grelha, daquilo que é a raiz da cozinha tradicional japonesa.”

As bebidas não são menos orientais. Com uma carta criada por Ben, o chef de bar, o cocktail de assinatura é o Izanagi Spicy Mule (7€), feito de uma infusão de sake e vodka, tougarashi, ginger beer, lima, pepino e coentros. A sangria — que nós provámos, mas que só futuramente fará parte da oferta do bar — é perigosamente saborosa. Potente e escorregadia, inclui young coconut da Tailândia e baunilha. Se preferir uma bebida sem álcool, não se esqueça de provar a yuzonada, a limonada japonesa em que se usa o yuzu, o cítrico japonês.

Dizia Daniel Rente que no Iznagui não se olha a calorias, fator imperativo sempre que se vai atrás da street ou comfort food. À chegada das sobremesas — criadas por José Barros — isto ainda fez mais sentido. A Freaky Asian Banana (4,5€) também é para partilhar e será um ótimo fecho de refeição, mas é preciso reservar lugar porque nem todos os estômagos terão lugar para este final. Trata-se de uma enorme taça com tempura de banana, crumble de Nestum, gelado de baunilha, caramelo de miso e M&M’s triturados.

O Iznagui faz parte do grupo Sushi Café, responsável por vários espaços de gastronomia oriental e que detém 12 restaurantes, entre os quais, os SushiCafé, o Asian Lab, o Este Oeste ou o Soi. A próxima abertura está para breve e vai ser diferente: é o Mano a Mano, o próximo italiano de Lisboa.

Morada: Doca de Santo Amaro, armazém 0, Alcântara
Horário: aberto todos os dias, das 12h30 às 23h30