Francisca Veloso está munida dos números. Sabe que os últimos dados do INE – Instituto Nacional de Estatística nos dizem que Portugal tem mais de 3,5 milhões de pessoas acima dos 55 anos. Também sabe que esse grupo representa 34,4% de toda a população a viver em território nacional e que, de 1970 a 2016, o número de pessoas com 55 ou mais anos mais do que duplicou em Portugal. A nível laboral, Francisca tem noção que 40,2% da população em idade ativa tem mais de 55 anos e que, mesmo assim, do grupo de pessoas com essas idades, 69 mil estavam desempregadas em 2017.

Bom, é possível que não saiba estes números, vírgulas e percentagens todas de cor, sejamos realistas. Mas conhece bem a realidade de quem ainda se sente apto para trabalhar, mas tem dificuldade em encontrar emprego. “Se virmos com atenção, até a linguagem dos anúncios de emprego é feita a pensar nos jovens”, refere.

Percebeu que, de repente, entre familiares e pais de amigos, reunia à sua volta um grupo grande de pessoas com mais de 55 anos e que, depois de uma situação de desemprego, não conseguiam voltar ao mercado de trabalho. “Senti que havia algo a ser feito para mudar esta situação”. E fez.

Criou um site e uma página de Facebook onde são reunidas propostas de trabalho dirigidas a essa faixa etária e, tal como se lê na apresentação da página, o número 55 não é literal, “podem ter 54 ou menos, 70 ou mais”. “O que importa aqui”, lembra Francisca, “é dar trabalho a quem não quer ficar parado só por causa da idade”.

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O design como arma

Não é a primeira vez que Francisca se vê envolvida neste tipo de trabalho com cariz social. Em Londres, onde viveu, trabalhou enquanto designer na Participle, uma empresa ligada à inovação social que criou um serviço — o Circle — com o qual as pessoas com mais de 55 anos davam um valor quase simbólico, mas que permitia pagar —ainda que também de forma simbólica — a voluntários que quisessem dedicar horas do seu dia a tarefas como ajudar a ir às compras ou dar aulas de francês.

Essa vertente mais social acabou por ficar para trás com o regresso a Portugal e, atualmente, aos 29 anos, Francisca trabalha na Farfetch como designer de produto. “Mas a vontade de fazer mais com a minha área nunca passou”, garante e, por isso, começou a pensar em algo que pudesse desenvolver em casa, nos tempos livres, e que respondesse ao chamamento de fazer uma espécie de “voluntariado digital”, como lhe chama.

Criou um site no qual os empregadores podem publicar anúncios para pessoas com 55 anos ou mais, anúncios esses que também são divulgados no Facebook, rede social estrategicamente escolhida por ser a mais usada por pessoas dessa faixa etária.

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Em poucos dias, reuniu anúncios que vão desde vagas para barbeiro, rececionista de hotel, babysitter, motorista de Uber, empregado de mesa, manicure ou diretor comercial numa imobiliária.

No futuro, quando estiverem reunidas mais propostas, todas elas estarão categorizadas por localização e tipo de profissão, para facilitar a procura. Da mesma forma, espera criar uma rede que una quem procura trabalho com quem o pode oferecer, estando, por isso, aberta a parcerias com agências de recursos humanos.

Francisca não contava com uma adesão tão grande a algo criado há poucos dias, em casa, nos seus tempos livres, mas acredita que “se não servir para mais nada”, serve para chamar a atenção para algo que é real: “Há pessoas mais velhas, tão ou mais aptas que nós e com vontade de continuar a trabalhar”.