Faça este exercício. Se um dia estiver a subir a Rua do Carmo, pare por uns segundos e olhe para o topo da rampa com olhos de quem não faz aquele percurso todos os dias. Garantimos que, caso apanhe um dos muitos dias da luz que só Lisboa recebe, a sensação é a de estar a ver um postal em movimento.

É com esse olhar de contemplação que Carlos Carvalho encara hoje uma rua para a qual já olhou com uns olhos que o medo nunca mais voltou a ver. “Quando cheguei, já de manhã cedo, só me deixaram subir para ir buscar uns documentos importantes. De resto, foi ficar o resto do dia a ver o fogo destruir tudo”.

Um dos atuais sócios, mas na altura apenas funcionário, da Luvaria Ulisses leva-nos quase pela mão até à porta daquele estabelecimento quase centenário como se os braços abertos e os gestos largos fossem capazes de mostrar a dimensão da catástrofe. “Tudo isto era fogo”, explica, lembrando a sorte de terem tido uma barreira que permitiu que as chamas nunca chegassem ao número 87 da Rua do Carmo. “Está a ver ali?”, e aponta para a placa onde ao longe se vê o nome da loja W52. “Aquele edifício era mais recente e, talvez pelo tipo de construção, fez com que o fogo acabasse ali”.

A Luvaria Ulisses escapou por pouco às chamas, mas não escapou às ruas cortadas que, nos meses seguintes, afetou o comércio dos que ficaram.

Madalena Traguil

O pior ficou para as lojas mais próximas do Armazéns Grandella, o epicentro de um incêndio que destruiu aquele que era “o coração do Chiado”, lembra o proprietário. Numa espécie de antes e depois, faz a vistoria ao que o seu olhar alcança: “Ali onde é a Nespresso era a Perfumaria da Moda [onde foi gravado o filme “O Pai Tirano”], mais abaixo era a Sapataria Americana, famosíssima na altura”, conta. Pelas suas contas havia ainda a Discoteca Melodia, uma casa de tecidos, a Valentim de Carvalho e a Discoteca do Carmo, onde hoje é a loja Muji, e da qual resta apenas a carrinha de fado que, estacionada há quase 20 anos na rua do Carmo, serve de banda sonora à cidade.

“Abro as janelas e o que vejo é uma nuvem negra”

Para os lisboetas, o incêndio funciona como um marco: toda a gente sabe onde estava no momento da notícia. Não é para menos, foram precisas mais de 12 horas para ver circunscrito um incêndio que deflagrou de madrugada, por volta das 5 da manhã e que destruiu 18 edifícios, numa área que — fazendo as contas — equivale a oito estádios de futebol.

Tinha onze anos, é normal que as memórias sejam difusas, mas Sandra Helena lembra-se “como se fosse hoje” do momento em que atravessava a ponte 25 de Abril com os pais, depois de um dia de praia. “Lisboa era um fumo preto”, garante.

Já para Filomena Candeias, colega de balcão na pastelaria Baixa Chiado, na rua do Crucifixo, as memórias começam mais cedo, praticamente na hora em que é dado o alerta. “Ainda não eram 7 horas já eu estava na rua”, conta, rua essa, a do Duque, a fazer fronteira com a zona afetada.

Filomena Candeias vivia bem perto do epicentro do incêndio. Acordou com um telefonema de uma tia e o resto do dia foi passado a rezar para que as chamas não chegassem até sua casa, na rua do Duque.

Madalena Traguil

Na altura com 24 anos, acordou com o telefonema da tia, que vivia em Loures, mas que soube da notícia primeiro através da rádio. “Assim que desligo o telefone, abro as janelas e o que vejo é uma nuvem negra”, explica, acenando as mãos como quem aproveita o fumo do cigarro acabado de acender à porta da pastelaria onde trabalha atualmente mas que só nasceu depois do incêndio, para melhor fazer transparecer o cenário que, até hoje, não lhe sai da cabeça. Tal como nunca lhe saiu da pele o calor da “bola de fogo ali tão perto”, ou o som das bilhas de gás que rebentavam a cada minuto.

As bilhas, sempre as bilhas. Não há ninguém que não se lembre dessas pequenas explosões a acontecer numa década ainda longe do gás canalizado. Não se sabe sequer se foi uma dessas explosões a dar o mote a um fogo que apenas se sabe ter deflagrado no rés-do-chão, “propagando-se muito rapidamente”, segundo o guarda do elevador de Santa Justa, na altura citado pelo “Diário de Notícias”. O inquérito levantado pela Polícia Judiciária foi arquivado em 1992, quatro anos depois da tragédia, ainda que até hoje ninguém cale as teorias de fogo posto.

“Se foi fogo posto ou um acidente nunca se há-de saber, o que eu sei é que a minha vida nunca mais foi a mesma”, garante João Veiga.

É preciso empurrar com força a porta da Joalharia Correia para chegar até àquele que, ainda que com os dias contados, será um dos maiores repositórios de pedras preciosas da cidade. “Em outubro vendo isto e vou aproveitar a reforma”, confidencia-nos o proprietário, num encolher de ombros que prova que esta decisão não é acompanhada por uma verdadeira vontade de descansar os seus 68 anos.

A história desta ourivesaria começa quando o seu pai, também ele João Veiga, viaja para Angola à procura de uma vida que Trás-os-Montes já não lhe dava. Da agricultura à venda de pedras preciosas vai uma história cheia de tantas outras, mas que tem como destino final uma Lisboa pós-25 de Abril, a servir de destino aos retornados.

Na mesma rua, umas portas ao lado, o pai João, depois de 1974, instala a Coralina Jóia, que, de tão original nos produtos que oferecia, empregava toda a família. “Na altura do Natal eram filas que eu sei lá”, conta-nos o herdeiro, não só da loja, mas de toda uma sentença ditada pelo fogo.

João Veiga nunca recuperou a loja perdida no incêndio. A família viu-se obrigada a mudar a morada da Joalharia Correia para uns números ao lado

Madalena Traguil

Naquela madrugada de agosto, já ninguém passava na rua por ordem da polícia e toda a família ficou na expetativa que o fogo não chegasse perto do património. Ainda que não tivesse afetado diretamente o rés-do-chão onde estava instalada a loja, o fogo destruiu os três primeiros pisos do prédio e a água dos bombeiros não fez exceção à ourivesaria quando a urgência era travar as chamas. “Quando cá conseguimos voltar a entrar, as paredes, tal era a humidade, estavam cheias de cogumelos”, conta.

Foram meses fechados para voltar a erguer o que restou e, no meio de projetos, candidaturas a prémios e fundos europeus, a câmara propôs comprar-lhes a loja, reabilitá-la para depois voltar a vender-lhes o imóvel. “Naquela altura pareceu-nos a melhor solução, sem sabermos que, anos mais tarde, a proposta de venda era tão alta que se tornou insustentável”. Nunca conseguirão, por isso, sair da loja ao lado onde se tinham instalado provisoriamente e onde, João filho espera conseguir vender o que resta do património de João pai, que morreu no início deste ano, “tal era o desgosto”.

Os que escaparam “por um triz”

Do outro lado da pequena colina, na Rua Nova do Almada, está outra das fronteiras deste incêndio. “Foi por um triz que não chegou cá”, garante Ricardo Esteves que há 36 anos guarda os livros da centenária Livraria Ferin.

Naquela manhã de 25 de agosto acordou com a notícia na rádio e pôs-se a caminho. Entrava religiosamente às 9h, mas nessa manhã, ainda o relógio passava pouco das oito e já ele marcava presença no fundo da rua, o limite de segurança imposto pelas autoridades. “As chamas eram tão altas que vinham lamber os edifícios das ruas ao lado. Foi um pequenino grande inferno”, garante.

Ricardo e toda a equipa da livraria não arredou pé do local, sempre à espera do pior. “No caso de uma livraria temos dois problemas: os livros ou são destruídos pelo fogo ou pela água dos bombeiros”, lembra. Mas a Ferin safou-se intacta. Pelo menos do fogo, já que o rescaldo afetou mesmo aqueles que escaparam às chamas.

Durante semanas e, nalgumas zonas, até meses, as ruas estiveram fechadas, o que limitou o comércio de uma zona que já vinha a travar uma luta desigual com o Centro Comercial Amoreiras, que há três anos vinha a roubar público à baixa de Lisboa. E foi exatamente numa tentativa de tornar essa zona mais agradável à passagem de peões que o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Krus Abecassis, mandou instalar canteiros altos de betão, que serviam de bancos para os que passavam e impediam os carros de passar.

Os novos Armazéns do Chiado foram inaugurados em 1999, onze anos depois do incêndio

Madalena Traguil

O que o autarca não previu foi que os tais bancos e canteiros que tinha instalado para agradar aos lisboetas tenham sido, naquele dia, o principal inimigo dos bombeiros. “Nero deitou fogo a Roma e Abecassis a Lisboa”, podia ler-se no jornal “A Capital”, que citava um dos 1700 bombeiros que combateu o fogo.

As palavras não saíram da boca de José Cachinho, mas podiam ter saído. Chegou a comandante do quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa mas, na altura, com 33 anos, era um dos bombeiros que naquele dia, assumiu como sua a luta de não deixar que o fogo fugisse ao seu controlo.

José Cachinho foi combater o incêndio naquela madrugada. Lembra que a proteção da altura se limitava a um capacete.

Madalena Traguil

Saiu da Amadora, onde vivia, ainda de madrugada e passou no quartel apenas para se fardar. “Fardar é como quem diz”, ironiza. Naquela altura, “combatia-se o fogo em mangas de camisa” e contava-se que um capacete na cabeça evitasse o pior. Ao longo do dia percebeu-se ainda que algumas bocas de incêndio não funcionavam e que algumas mangueiras dos bombeiros estavam rotas.

Saiu do quartel da Rua das Flores e foi a pé, até porque já tinha chegado à corporação a notícia de que os carros não passavam para a rua do Carmo por causa dos malfadados canteiros de betão.

O que tinha ouvido na rádio já o tinha ajudado a imaginar um cenário de destruição, mas nem a mais criativa das mentes era capaz de pintar aquilo com que se defrontou assim que chegou ao Largo Camões. “É que nem foi preciso ir mais longe. Ali já ao pé d’A Brasileira o calor já era insuportável e as chamas estavam altíssimas”, relata. Mesmo assim, desceu até onde foi possível e, durante oito horas seguidas ajudou a apagar um fogo que parecia não ter fim. “Depois desse período voltei ao quartel para descansar uma horinha e voltei”, refere, tal como fez várias vezes até perceber que não havia perigo.

Antes do incêndio, esta rua tinha canteiros de betão e bancos que impediram a passagem dos carros de bombeiros.

Madalena Traguil

Lembra-se de ouvir muitos gritos, passar por pessoas em pânico, mas nenhum momento foi tão marcante como aquele em que ouviu pela primeira vez que um dos seus colegas tinha morrido.

O incêndio matou um bombeiro de 31 anos, retirado em estado crítico de um dos edifícios e que não sobreviveu aos ferimentos, morrendo a 2 de setembro, e um idoso de 76 anos que se desequilibrou e caiu para as chamas quando estava a ser resgatado. Além disso, mais de 70 pessoas ficaram feridas, mais de duzentas ficaram desalojadas e pelo menos 18 edifícios arderam na sua totalidade.

Não que alguma vez deseje que uma catástrofe como esta volte a acontecer, mas o então comandante reconhece que, por vezes, são estes obstáculos que fazem uma cidade crescer. “Lembro-me de sair do quartel às duas da manhã e de o Chiado não ter uma única pessoa”. Com o incêndio, os edifícios foram recuperados, foram feitos novos acessos e até os equipamentos dos bombeiros sofreram melhorias. Mesmo assim, José Cachinho garante: “Um bocadinho de nós desapareceu naquele dia”.