Histórias de Aretha Franklin, a mulher que cantou o feminimo

Foi mãe aos 12 anos. Teve várias relações, quase todas conturbadas. Cantora dos presidentes dos EUA, era uma pessoa insegura.

Aretha Franklin morreu aos 76 anos, de cancro do pâncreas

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Ainda eu não sabia a importância que a palavra ‘respect’ teria na vida de uma mulher qualquer pessoa já eu a soletrava em menina com a ajuda da Aretha Franklin. R-E-S-P-E-C-T dizia eu, de dedo no ar, logo seguido de um melancólico “You make me feel like a natural woman”. Os meus pais, que me viam do banco da frente do carro, riam-se com as performances, mas agora que sei que a rainha da soul morreu, é a eles que agradeço terem jogado a cartada do “Porquê? Porque sim”, na hora de decidirem que já chegava de Spice Girls e que o passeio de carro desse domingo ia ser feito ao som de Aretha Franklin.

Cresci a pensar no poder que estaria dentro de uma mulher que ousou, em tempos idos, marcar uma posição. É que se cantar a pedir respeito ainda hoje pode ser visto como uma reminiscência da queima de soutiens, imaginemos em 1967, altura em que se começava a falar de algo tão transcendente como a pílula anticoncepcional.

E comecemos exatamente por esse hit. Sabia que, apesar de eternizada pela voz de uma mulher, a versão original de “Respect” é de Otis Redding? Felizmente para o mundo e sem menosprezar o talento de Otis, abençoado o manager que achou que a letra ganharia outro poder na voz de Aretha.

No dia marcado pela sua morte, aos 76 anos, vítima de um cancro no pâncreas, recordemos-lhe a vida. Essa sim, cheia de estas e outras histórias para contar.

O single Respect não era para Aretha Franklin

Vamos então começar por esclarecer esta questão. De facto, a canção “Respect”, que ninguém imagina cantada por alguém que não Aretha Frankin, é na verdade um original de um homem que escreveu a letra com o intuito de pedir “some respect” e atenção a uma determinada mulher. Aretha reverteu os papéis e, ao assumir como sua a música, acrescentou-lhe alguns versos, arranjos novos, para que fosse lançada em 1967, bem a tempo de se tornar uma espécie de grito de revolta feminista para a década seguinte.

A música passou duas semanas no top Billboard Hot 100 e foi um do número dez na lista dos singles mais vendidos do Reino Unido. Foi banda sonora do filme Forrest Gump e está em número cinco da lista das 500 melhores canções de todos os tempos da revista Rolling Stone.

Aretha foi mãe aos 12 anos

Ao todo, Aretha teve quatro filhos — Clarence, Edward, Ted e Kecalf —o primeiro quando tinha 12 anos, com um colega da escola, e o segundo apenas dois anos depois, com o namorado de então. Tudo isto aconteceu numa altura em que começava a dar os primeiros passos enquanto cantora e, por isso, os filhos acabaram por ser criados pela sua avó e pela sua irmã.

Mesmo assim, não tardou muito a casar. Aos 19 anos, e contra a vontade do seu pai, casou com Ted White, com quem teve o terceiro filho, Ted White Jr, que seguiu uma carreira na música e chegou a integrar a banda que acompanhou Aretha durante vários anos. O casamento durou apenas oito anos, marcados por episódios graves de violência doméstica.

O segundo casamento de Aretha aconteceu em 1978, com o ator Glynn Turman, que juntou à família os seus três filhos. No entanto, o quarto filho da cantora tinha já nascido antes deste casamento, quando se envolveu com o seu manager, Ken Cunningham.

É que apesar de emanar segurança, Aretha era na verdade uma pessoa instável emocionalmente, com uma vida pautada por traições, relações mal resolvidas e, acima de tudo, uma baixa auto-estima. “Tinha medo de não ser boa o suficiente enquanto cantora, enquanto mulher e enquanto mãe. Não sei que outro nome dar a isso a não ser uma profunda insegurança”, disse a sua irmã Carolyn.

O sonho de ser a melhor

Ainda no capítulo das inseguranças, Aretha não lidava bem com a competição. Segundo a sua família mais próxima, Aretha nutria um profundo ciúme de cantoras como Roberta Flack, Barbra Streisand, Diana Ross ou Natalie Cole.
A sua outra irmã, Erma, disse um dia que a maior fantasia de Aretha era que todas as outras cantoras desaparecessem e só ela pudesse cantar.

Talvez por isso, quando, em 1989, gravou o dueto “It Isn’t, It Wasn’t, It Ain’t Never Gonna Be” com Whitney Houston, admitiu que a cantora não tinha a sua “sabedoria e maturidade” enquanto artista.

E quando, anos mais tarde, Beyoncé ousou apresentar Tina Turner como “A rainha” nos Grammy Awards de 2008, Aretha não se ficou: “Não sei que ego devo eu ter pisado, se o dos guionistas dos Grammy ou da própria Beyoncé”, disse aos jornalistas presentes no evento. A resposta não se fez tardar de Tina Turner que admitiu que com tantos reis e rainhas naquela noite, Aretha podia ficar com o lugar de rainha da soul e ela assumia-se como rainha do rock ‘n’roll.

Aretha, a cantora dos presidentes

Podíamos aqui continuar a juntar recordes ao nome de Aretha Franklin. Foi a primeira mulher a fazer parte do Rock and Roll Hall of Fame e também a primeira a ter cem músicas na lista dos Billboard’s Hot R&B/Hip-Hop, que compila a lista de músicas mais vendidas.

Mas Aretha foi também a voz de três dos presidentes norte-americanos. Mais presente na memória temos a tomada de posse de Barack Obama, em 2009, quando cantou “My Country Tis of Thee”, canção patriótica também conhecida por “America” escrita em 1831 por Samuel Francis Smith. Mais tarde, em 2015, na 38ª edição do prémio Centro Kennedy, em Washington D.C., Obama ficou visivelmente emocionado ao ouvir Aretha cantar a incontornável “You make me feel like a natural woman”, da autoria de Carole King, sentada ao lado do presidente dos Estados Unidos, durante a atuação. “A história americana cresce quando Aretha canta”, admitiu no final da performance da cantora.

Quando foi a vez de Bill Clinton, Aretha optou pela música “I Dreamed a Dream”. Nesse dia, estiveram também em palco Stevie Wonder, Michael Jackson e Diana Ross.

Mas a estreia da cantora nestas andanças das tomadas de posse presidenciais deu-se quando Jimmy Carter assumiu a presidência dos Estados Unidos. Em 1977 cantou “God Bless America”. A ovação, como sempre, foi de pé.

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