Rebentava a década de 90 e caía um reinado pautado por atenção absoluta e exclusiva. Foi a 19 de janeiro que eu nasci, pequenina e com um olho fechado e inchado. Foi neste dia que o meu irmão deixou de ser filho único, para ganhar um estatuto definitivo, que não mais lhe seria retirado: o de irmão mais velho. Ainda sem consciência de existir, demorou pouco até surgir um novo membro, mais novo do que eu. Ganhei uma irmã, quando estava a poucos meses de completar os três anos.

Sou a filha do meio há 25 anos. Sou a ensanduichada, sou a que reclama, reivindica, compara e, há muito tempo, era a que tentava saltar mais alto para ter a atenção dos pais. Embora se afirme que é neste sítio que se encontra a virtude, é também a este lugar — ou não lugar, o problema é esse — que se atribui uma síndrome. O síndrome de filho do meio.

A síndrome do filho do meio existe mesmo?

“Os estereótipos mais disseminados em torno do filho do meio, conhecido como aquele que fica em sanduíche, passam por considerá-lo o esquecido, o negligenciado, o invisível ou o complicado. Aquele que recebe tudo em segunda mão e sempre partilhado”, explica a psicóloga Filipa Jardim Silva.

A noção do filho do meio assenta em algumas ideias pré-concebidas, como no facto de as crianças deste lugar sentirem-se “negligenciadas ou excluídas em comparação com os seus irmãos mais velhos e mais novos, o que tenderá a impactar a sua personalidade e comportamento, tornando-o mais complicado ou rebelde.”

A todos os irmãos do meio, as minhas mais sinceras desculpas. Sei bem as vantagens de atirar este argumento — “Não tenho culpa de ser a do meio” — quando nada mais nos pode defender. Mas a verdade é que estereótipos estão longe de corresponder a verdades absolutas. Portanto, a veracidade desta síndrome não só é dúbia, como nunca foi comprovada. “Apesar da popularidade da síndrome, muitas crenças em torno dos filhos do meio não se baseiam na ciência”, explica. Embora alguma investigação tenha abordado o tema, os resultados não permitem fazer generalizações.

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A ordem do nascimento pode até ser um fator que influencia o desenvolvimento da criança, mas há muitos outros que interferem no processo de crescimento, retirando-lhe poder. “O contexto em que se dá a gravidez e o nascimento, a dinâmica familiar, os genes, o investimento parental, o tipo de relação com o(s) irmão(s) e a rede de suporte, são algumas das variáveis com impacto no crescimento e estruturação das crianças.”

O deslumbramento e receios dos pais são diferentes ao segundo nascimento. O desconhecido já foi enfrentado uma vez e já há mais calo para a coisa. O segundo filho, com “pais em segunda mão”, entra num barco mais ocupado do que aquele que recebeu o primeiro. Mas isso não tem de ser sinónimo de “que os pais não continuarão a investir neste segundo filho como investiram no primeiro.”

Os pais não vão gostar de forma exactamente igual dos filhos “nem vão conseguir ser milimetricamente iguais com eles,” mas isso não é sinónimo de negligência. “Isso torna-os humanos”, diz. “Cada filho terá o seu lugar especial junto dos pais, e terá também os seus desafios próprios.”

Os traços comuns, conforme a ordem de nascimento

Apesar da veracidade da síndrome não estar comprovada, há alguns traços comuns aos filhos do meio, que, como já vimos, não terão necessariamente de afetar todos. Podem sentir que têm menos atenção dos pais, comparativamente aos irmãos. Podem ter mais dificuldade em “afirmar-se e em conquistar a sua individualidade na dinâmica familiar”, o que poderá resultar “em alguma insegurança” ou num “sentimento de injustiça.”

O momento da adolescência pode ser mais complicado. Algumas investigações têm dado pistas de que há uma “maior susceptibilidade dos filhos do meio à pressão dos pares”, o que poderá ser perigoso, dependendo de quem são estes pares. Mas, por outro lado, tem também “identificado uma mentalidade mais aberta e flexível, com mais capacidade de abraçar a novidade em comparação com os irmãos mais velhos e mais novos.”

Pode acontecer também que as figuras de referência para quem nasce no meio se alterem: “Este desenho de dinâmica familiar poderá fazer com que os irmãos do meio tenham nos irmãos as principais figuras de referência em detrimento dos pais.” Esta visão diferente poderá consolidar ainda mais a flexibilidade social: permite que se tornem mais autónomos, desenvolvam competências de socialização, negociação, “adaptando-se a contextos e pessoas diferentes com mais facilidade.”

Se assim acontecer, “poderá resultar em adultos mais independentes, com maiores capacidades de adaptação, uma vez que provavelmente não tiveram tanta supervisão nem sobreprotecção como os irmãos mais velhos ou mais novos.”

Os pais devem ter em consideração a posição em que nascem os filhos?

Os mais velhos tiveram atenção exclusiva, “um investimento único e protecção acrescida”. Os mais novos tendem a ser mais desculpabilizados, a “usufruir de uma maior flexibilidade de regras e limites”, porque tiveram a sorte de enfrentar um caminho já desbravado pelos outros irmãos. Os do meio herdam pais mais confiantes, que sentem menos necessidade de proteger, que já ajustaram as posturas tendo em conta aquilo que acreditam que funciona melhor na dinâmica familiar.

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“É benéfico que os pais tenham em consideração que a ordem de nascimento será um factor que irá interferir no desenvolvimento de cada filho, sem que essa influência seja absoluta em alguma direcção”, diz Filipa Jardim Silva. “Assim, mais do que comparar os filhos entre si ou de os etiquetarem pela idade, os pais ganham em relacionar-se com cada um de forma particular, reconhecendo-os enquanto pessoas únicas, com a sua própria personalidade e funcionamento específico.”

Não sei se o egocentrismo marca a personalidade de quem nasce no meio, mas voltemos a mim. Há, de facto, traços com que me identifico. Fui uma criança ciumenta e chorava agarrada às saias da minha mãe porque não queria que ela saísse de casa. Mas, ao mesmo tempo, era a que falava mais e nunca tive dificuldades em fazer amigos, fosse em que circunstância fosse. A minha mãe lembra muitas vezes um episódio em que, ainda muito pequenina, numa piscina, eu lhe dizia: “Mãe, vamos ser amigas daquela senhora”, enquanto apontava para uma total desconhecida. Nunca tive problemas em partilhar aquilo que era meu, perguntem aos meus irmãos. Tive mais liberdade do que o meu irmão, mas não foi tão fácil como foi para a minha irmã, que fez tudo ao mesmo ritmo que eu, apesar de ser mais nova. As batalhas eram minhas, só que ela herdava os resultados.

Sou a mais ágil dos três irmãos (perdoem-me, mas vocês sabem que sim), porque cresci num campo de batalha, numa constante competição por atenção, onde, pelos vistos, só eu é que participava. A verdade é que, apesar de ser o meio da sanduíche, tive toda a atenção e mais alguma. E, melhor do que isso, tenho dois irmãos, que são mesmo as pessoas mais especiais do mundo.

Feliz dia dos irmãos do meio. Estou convosco.