A dor pulsátil e lancinante de um lado da cabeça. Ou dos dois, se for um dia de (ainda mais) azar. A incapacidade de encarar qualquer tipo de luz, e ouvir vezes sem conta a expressão “é só uma dor de cabeça.” Até podia ser, mas não é. As enxaquecas são muito mais do que uma dor de cabeça.

O neurologista Carlos Andrade disse à MAGG que a enxaqueca “é o expoente máximo da dor de cabeça” e é, sobretudo, “uma doença. As pessoas precisam de perceber isso, e de pedir ajuda.” Para Elsa Parreira, neurologista, as enxaquecas são “uma dor especial e muito frequente.”

E lá frequentes, elas são. Afetam cerca de 8% a 15% da população dos países ocidentais, segundo as estatísticas apresentadas pela Sociedade Portuguesa de Cefaleias, que a médica preside. E tendem a recair mais sobre as mulheres. Talvez por alguns dos fatores desencadeantes das crises, serem exclusivos do sexo feminino – a toma da pílula, a menstruação e a ovulação, por exemplo.

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“São episódios de dor de cabeça, mais ou menos intensa, que podem durar horas ou dias, e que têm outros sintomas: náuseas, vómitos, intolerância à luz, ao ruído, a alguns odores e ao próprio movimento. Muitas vezes, durante as crises, as pessoas têm de descansar num local isolado”, avança a médica. E há várias coisas que podem desencadear uma crise. São estímulos internos e externos, a que as pessoas que sofrem de enxaqueca são especialmente sensíveis e que, “noutras pessoas, não têm qualquer consequência.”

A ansiedade, o stresse, a exposição a luzes ou ruídos muito intensos, a mudança do tempo e até a ingestão de alguns alimentos (o chocolate, por exemplo) são alguns dos “triggers”, como lhes chama Carlos Andrade. Mas a lista não está fechada. É muito extensa, e varia de pessoa para pessoa, até ao longo da vida.

O problema é que há quem, em vez de procurar tratamento médico adequado, apenas se preocupe em identificar os possíveis causadores da dor. “Quando partimos um pé, vamos ao médico e pronto. Não andamos a tentar perceber como é que aquilo aconteceu. Nas enxaquecas não, e há pessoas que passam uma vida inteira a perseguir os triggers, sem nunca se preocuparem em tratar a doença.”

E essa identificação até pode causar alguma confusão, principalmente no caso dos alimentos. Uns dias antes do início da dor, as pessoas podem sentir-se “mais irritadas ou mal dispostas, e até há quem desenvolva fome ou desejos por algum alimento em particular. Se, durante esta fase, houver um desejo enorme de comer chocolate, ele vai acabar por ser associado à enxaqueca. Mas, nesse caso, ela já se iria desenvolver de qualquer forma.”

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“As temperaturas mais elevadas podem desencadear uma crise em algumas pessoas que sofrem de enxaqueca”, explicou à MAGG Elsa Parreira. Mas não nos podemos esquecer que “é difícil isolar os triggers, e saber exatamente o que é que desencadeou uma crise”, esclareceu Carlos Andrade. “Se pegarmos numa pessoa que sofre de enxaquecas e a expusermos ao calor, até pode não acontecer nada. Mas, se ela for mais sensível a esse estímulo, pode ser o suficiente para desencadear a dor.”

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O médico salienta o facto de se tratar, muitas vezes, de uma combinação de fatores. E, na estação quente, há vários que podem contribuir para o aumento das enxaquecas. “O verão e as férias trazem consigo uma mudança de hábitos e uma alteração dos ritmos normais do dia-a-dia.” Dorme-se até mais tarde, dorme-se demais, ou até de menos. Bebe-se menos café e há uma tendência para consumir mais álcool – “tudo isto pode desencadear uma crise”, disse-nos.

Depois, a questão da maior luminosidade nos dias de verão também não pode ser esquecida. “Quem tem enxaquecas, sofre, normalmente, de fotofobia. A tendência natural destas pessoas é a de evitar a luz, porque a luminosidade as incomoda. Nesses casos, uma maior exposição à luz é bem capaz de tornar uma enxaqueca mais forte, mais evidente, e mais penosa.”