Histórias de mulheres que tiveram uma depressão antes dos 30 anos

Cintia Alves passou dois meses fechada no quarto, Carla Rocha não dormia, Cristina Silva pensou em morrer. Relatos de dor e de superação.

Cinco mulheres contam-nos o que as levou à depressão — e como conseguiram vencê-la

Edu Lauton/Unsplash

Chorar por tudo e por nada. Falta de apetite. Perda abrupta de peso. Foram estes os primeiros sintomas de Cristina Silva. Com o avançar do tempo, começou a adormecer cada vez mais tarde. O desespero começou a ser uma constante, a ausência de motivação também. Quando já só conseguia dormir de madrugada, decidiu escrever uma carta à mãe e admitir-lhe o que sentia: naquele momento, só queria morrer.

Cristina Silva tinha 18 anos quando teve uma depressão. “A minha mãe decidiu levar-me ao médico. Como não estava em casa grande parte do dia, não tinha consciência de que as coisas estavam assim tão más”, conta a portuense de 44 anos à MAGG.

Foi o médico de família que fez o acompanhamento. Começou a tomar medicação, e o tratamento durou cerca de um ano. Não foi fácil: no início sentiu que não estava a resultar, e chegou mesmo a dizer à mãe que queria parar. Ela insistiu em que continuasse.

“Passado três meses os medicamentos começaram a fazer efeito. Aí sim, comecei progressivamente a sentir uma diferença grande.” Primeiro conseguiu controlar os ataques de choro, mais tarde a dificuldade em dormir. Um ano depois, Cristina Silva superou a depressão.

Noutras alturas da sua vida voltou a experimentar momentos depressivos, mas nada como naquela época. Olhando para trás, Cristina Silva sabe o que a levou até ali: entrar na faculdade, com um ritmo completamente alucinante e muito diferente do que estava habituada; e o nascimento da filha de uma prima que foi criada por ela.

“De repente vi-me na faculdade com uma criança. Como a mãe tinha de trabalhar durante o dia, a criança ficou em nossa casa praticamente desde os 15 dias até aos 18 anos. Só ia para casa aos fins de semana.”

A ausência de tempo livre foi o mais difícil de gerir. A tirar o curso de tradução, frequentemente tinha de entregar trabalhos grandes de um dia para o outro. Entre as aulas e a responsabilidade de cuidar de um bebé, Cristina Silva viu-se engolida pela pressão e falta de tempo para si. “Foi muito complicado na altura.”

“Fiquei dois meses trancada dentro de um quarto só a fumar cigarros e a beber café”

Depressão. Segundo dados divulgados em abril pelo Ministério da Saúde, o número de portugueses inscritos nos centros de saúde com depressão passou dos 6,85% para os 9,8% (entre 2011 e 2017). As perturbações de ansiedade quase duplicaram (dos 3,51% para os 6,51%) e o consumo de medicamentos como antidepressivos e benzodiazepinas também cresceu.

“Se olharmos para os números, em 2017, cada português utilizou uma média de 16 embalagens de medicamentos”, lê-se no documento citado pelo jornal “Público“.

Angústia, tristeza, fadiga, cansaço. Perturbações no sono, falta ou alterações na concentração, diminuição do desejo sexual, irritabilidade, diminuição das capacidades cognitivas, dificuldades de memória. São estes alguns dos sintomas da depressão que, explica Fernando Almeida, psiquiatra no Hospital Lusíadas Porto, “afeta o indivíduo na sua globalidade”.

Principais sintomas da depressão

As pessoas com depressão normalmente apresentam vários dos seguintes sintomas:

— Perda de energia;
— Alteração no apetite;
— Dormir mais ou menos que o habitual;
— Ansiedade;
— Concentração reduzida;
— Indecisão;
— Inquietação;
— Sentimentos de inutilidade, culpa ou desesperança;
— Pensamentos autoagressivos ou de suicídio.

As razões que levam a uma depressão são muito variadas. Os mais comuns são os chamados fatores reativos — como uma separação, a morte de alguém, perda de emprego ou o fim de um relacionamento. É qualquer coisa externa que, de repente, se torna absolutamente avassaladora para o indivíduo e leva-o à depressão.

Foi exatamente o fim de um relacionamento que levou Cintia Alves a atravessar uma grave depressão quanto tinha 25 anos. “Achei que a minha vida tinha acabado”, conta à MAGG a brasileira de 44 anos, que vive em Portugal há dez. “Fiquei dois meses trancada dentro de um quarto só a fumar cigarros e a beber café.” A situação foi de tal forma dramática que a designer de produto deixou de tomar banho, só pensava em morrer, perdeu 20 quilos e teve um aborto. Nem sequer sabia que estava grávida.

Sem saber o que fazer, a mãe decidiu um dia arrancá-la do quarto e levá-la a um médico. Cintia Alves recorda a dor profunda que sentiu nos olhos quando saiu finalmente do quarto e a luz lhe bateu nos olhos. “Doía tanto. Até conseguir abrir os olhos foi uma dor terrível.”

Numa época em que “não se falava em depressão e não havia psicólogos nos hospitais públicos no Brasil, a solução passou por ir a um manicómio falar com um psiquiatra”. Quando Cintia Alves percebeu onde estava, entrou em pânico. Ver aquelas pessoas com problemas psicológicos muito graves, e um ambiente que descreve como “horroroso”, foi um choque. “Achava que a minha mãe me ia abandonar ali”. Não foi o caso. Na verdade, o médico desvalorizou completamente a situação. Chamou-lhe “uma crise de dondoca” e mandou-a para casa.

Hoje, Cintia Alves tem a certeza que teve uma depressão que não foi diagnosticada. Para a brasileira, o médico que a atendeu estava habituado a lidar com casos muito mais profundos: “Ele fez-me uma pergunta no início da conversa e repetiu-a no final. Eu respondi exatamente da mesma maneira.” Como a sua situação não era tão grave como outras, ele desvalorizou.

Nos dias a seguir a esta experiência traumática, Cintia Alves ouviu a mãe falar com as amigas, dizendo-lhes que iria procurar outro psiquiatra, e que talvez fosse melhor a filha ficar no internamento de doentes mentais. “Entrei em pânico, fiz as malas e fui para Salvador. Cheguei em pleno verão, altura em que  há festas o dia inteiro. Com medo da minha mãe, comecei a sair e foi assim que consegui libertar-me daquela situação.”

Um novo ambiente, novos sítios que já não faziam recordar o amor perdido, novos amigos. Tudo isto ajudou Cintia Alves a superar a depressão. A par disso, também se agarrou a livros de auto-ajuda, que lhe mostraram uma perspetiva diferente das coisas. Há um em particular que não esquece: “O Poder Infinito da Sua Mente“, de Lauro Trevisan.

A psicoterapia também pode ajudar — e muito

Apesar da situação de Cintia Alves ter sido grave, uma mudança de ambiente foi suficiente para sair da depressão. Liliana Patrício encontrou a resposta no coaching e na psicoterapia. Só demorou muito mais tempo a pedir ajuda do que deveria — mesmo sendo psicóloga e percebendo do assunto como ninguém.

Sentia que não havia nada suficientemente bom em mim para estar com os outros e partilhar com os outros. Então era preferível não estar.”

“Tive muita dificuldade em pedir ajuda. Realmente nós achamos que quanto mais informação nós temos mais fácil é, porque detetamos logo os primeiros sintomas e vamos procurar ajuda. Não é verdade. Quanto mais sabemos das coisas, pior é, porque temos a sensação de que temos tudo controlado. E não temos. Não temos nada controlado.”

Liliana Patrício começou por se sentir extremamente cansada. Com menos disposição, alegria, vontade de fazer as coisas. Começou a isolar-se, a diminuir o número de atividades sociais e projetos em que se envolvia. “Sentia que não havia nada suficientemente bom em mim para estar com os outros e partilhar com os outros. Então era preferível não estar.”

Tudo começou quando tinha 25 anos e trabalhava como psicóloga numa unidade de cuidados continuados. O trabalho em si não tinha, obviamente, um ambiente alegre, mas a jovem natural de Coruche sentia-se realizada. A equipa era boa, “o que não era assim tão bom era a relação com a direção da instituição.”

O primeiro sinal de alerta soou quando Liliana Patrício começou a aperceber-se de que saía do trabalho às 17 horas e meia hora depois já estava na cama. Era estranho, mas não podia ser uma depressão. Não podia.

Mas era. Olhando para trás, Liliana Patrício sente que a sua depressão foi provocada 70% pelo trabalho e os restantes 30% por outros fatores — nomeadamente ter voltado para casa dos pais, uma vez que a instituição ficava tão perto deles, e o fim de um relacionamento.

“Foi o culminar de situações que, isoladamente eu talvez até teria conseguido ultrapassar de uma forma mais ou menos tranquila, só que todas juntas acabaram por ser um boom.”

Quando chegou a altura de passar a efetiva no emprego, Liliana Patrício decidiu sair. Não se imaginava a fazer aquilo para o resto da vida. Nesta altura tinha vários sintomas depressivos, mas ainda não conseguia aceitar a situação que estava a viver. Uma semana depois de se despedir, teve um grave acidente de viação. O carro foi para a sucata, Liliana Patrício deu entrada no Hospital de São José com a suspeita de um traumatismo. Isso acabou por não se verificar, e a jovem teve alta.

O acidente foi o resultado de cansaço extremo e de uma descompensação emocional, garante. Mas “foi importante eu ter tido o acidente. Foi a altura em que pensei que, se naquele momento não tive de morrer, então por algum motivo seria.”

Mas continuou sem procurar ajuda. Desempregada durante um ano, o período foi vivido com um imenso desespero. Apesar de saber que estava viva por algum motivo, não sabia qual era. Nem porque é que continuava a estar tudo tão difícil. Doloroso. “Porque é que a vida não se desembrulhava.”

“Isto levou a um grande desgaste familiar. Já não era só eu que estava deprimida, eram os meus pais também que já não sabiam o que é que haviam de fazer para me conseguir ajudar.”

Liliana Patrício deixou chegar a situação ao limite. Quase três anos depois dos primeiros sintomas, decidiu pedir finalmente ajuda. Um pouco desacreditada da psicologia, porém, devido a tudo aquilo que tinha passado, começou pelo coaching. Ela sabia que poderia ser necessário algo mais se as suas suspeitas se confirmassem, e lhe fosse de facto diagnosticada uma depressão. Mas parecia uma boa forma de começar.

“O que eu pensei foi: se eu me conseguir entender um bocadinho melhor, se calhar também consigo perceber todas as questões que tenho aqui neste momento para resolver.”

E assim foi. Num quadro de ataques de ansiedade, decidiu procurar também a médica de família, com quem tinha uma relação de grande confiança. Ela receitou-lhe medicação para a ansiedade. Depois, decidiu iniciar a psicoterapia. “Nunca cheguei a precisar de outro tipo de medicação, porque felizmente as coisas acabaram por se resolver.”

Com a psicoterapia, Liliana Patrício apercebeu-se de que tinha passado tanto tempo a explicar aos outros que tinham de se conhecer quando ela própria não se conhecia. “Já trabalhava como psicóloga há quatro anos, ajudava os outros a conhecerem-se e não me conhecia a mim própria. Foi uma chapada de luva branca, daquelas que às vezes precisamos de levar.”

Na opinião do psiquiatra Fernando Almeida, a psicoterapia é um passo extremamente importante para a cura. “Ajuda imenso os doentes, mesmo os que precisam de antidepressivos. A psicoterapia ajuda-os a compreenderem porque é que as coisas aconteceram, a terem uma outra perspetiva sobre o problema e o que originou a própria depressão. Isto não é feito com recurso a medicamentos.”

Muitas vezes eram cinco e seis da manhã e eu ainda estava acordada. Eu não dormia. Às vezes dormia uma ou duas horas à tarde, mas era só.”

As medicinas alternativas podem ajudar? E a religião?

Carla Rocha tinha 19 anos quando teve a sua primeira depressão. Na altura com uma anemia grave, os médicos não conseguiam encontrar uma explicação para o problema e suspeitaram que pudesse ser uma leucemia. “Isso ficou de tal forma na minha cabeça que, quando dei por mim, já estava com uma depressão”, conta a lisboeta de 36 anos à MAGG.

Começou com uma ausência total de motivação. Não tinha vontade de fazer nada, fosse comer ou tomar banho. “Chegava a ficar semanas sem tomar banho. Não saía de casa, só comia porcarias. Não tinha qualquer cuidado comigo.” Os barulhos mais insignificantes tiravam-na do sério, dormir também se tornou num enorme problema. “Muitas vezes eram cinco e seis da manhã e eu ainda estava acordada. Eu não dormia. Às vezes dormia uma ou duas horas à tarde, mas era só.”

Um mês depois dos primeiros sintomas, Carla Rocha decidiu procurar ajuda. Primeiro foi ao médico de família, que a encaminhou para um psiquiatra. Começou a tomar medicação, mas os efeitos não foram os esperados. Perdeu o controlo do vocabulário, construir frases tornou-se num enorme desafio. A memória também foi afetada.

“Na altura estava a trabalhar numa loja. Um cliente pedia-me qualquer coisa na caixa, eu só tinha que andar uns metros e de repente já me tinha esquecido do que ia buscar. Da mala, da carteira, do que quer que fosse.”

Carla Rocha acabou por se despedir. Decidida a fazer uma espécie de retiro, durante seis meses mudou-se para a terra da mãe, em Trancoso, na Guarda. Aproveitou para tirar a carta de condução e decidiu parar de tomar os medicamento. Ficou apenas com o comprimido para dormir e com outro para momentos SOS — como um ataque de pânico ou de ansiedade. Com o tempo começou a diminuir os medicamentos, até deixar de os tomar completamente. “Não sei se foi um bocadinho pela minha teimosia, mas consegui voltar ao normal.”

Um ano depois, Carla Rocha superou a depressão. Mas mais tarde voltou a ter outra, tinha então 26 anos. “Acho que tinha a ver com a minha incapacidade para reagir aos problemas. Todas as dificuldades que encontrava deitavam-me abaixo, fosse por amizade, relacionamentos amorosos, família.”

Foi o Reiki que a ajudou a encontrar uma forma de lidar com as suas emoções. Aos poucos, começou a aprender a lidar com os problemas, a saber agradecer pelo que tinha, a desfrutar de cada momento. “Quando já tinha passado um ano ou mais de ser iniciada em Reiki, em conversa com o meu marido chegámos à conclusão que nunca mais tinha tido uma depressão.”

Para Cidália Ventura não foram as medicinas alternativas que a ajudaram, mas sim a religião. Mas já lá vamos. Quando tinha 25 anos, a empresária de 48 anos, natural de Gavião, começou a viver alguns sintomas: falta de motivação, choro compulsivo, tristeza profunda. “Fui descurando. Achei que não seria nada, que era cansaço, que não devia dar importância.”

O miúdo perguntava-me se estava bem. Eu olhava para o quadro, olhava para ele e não conseguia ter reação, dizer nem sim nem não. Fiquei até ao final da aula a fitá-los.”

Quatro anos depois a situação agravou-se. Cidália Ventura começou a ter sintomas evidentes de depressão mas, mesmo assim, recusou-se a aceitá-los. Sempre alegre e bem-disposta, não fazia qualquer sentido que passasse por uma situação daquelas. “Nunca na minha vida me imaginei a passar por isto. Aliás, as pessoas todas à minha volta, quando se aperceberam, e mais tarde quando souberam, disseram-me: ‘Cidália eu imaginava toda a gente com uma depressão, menos tu’.”

Os números (assustadores) da depressão

A nível global, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram de depressão, o equivalente a 4,4% da população mundial. Em termos mundiais é mais prevalente no feminino (5,1%) do que no masculino (3,6%). Portugal é o país da Europa com a taxa de depressão mais elevada e o segundo no mundo (só ultrapassado pelos EUA). A maior causa do suicídio é a depressão (em 70% dos casos).

Em Portugal, de 8 em 8 horas morre um português por suicídio – a cada hora há um português que tenta matar-se. Uma em cada quatro ou cinco pessoas vai ter uma depressão ao longo da vida. O tratamento da depressão tem uma taxa de sucesso de 70-80%. Estes são os dados mais recentes citados pela Aliança Europeia contra a Depressão em Portugal.

Mas foi exatamente isso que Cidália Ventura teve. E a consciência de que precisava mesmo de procurar ajuda deu-se quando estava a dar uma aula de Latim de 10.º ano. “Estava a corrigir um trabalho de casa que era o bê-a-bá. Era a mesma coisa que nós sabermos o a-e-i-o-u.”

Só que Cidália Ventura olhava para o quadro e aquilo não lhe dizia absolutamente nada. “O miúdo perguntava-me se estava bem. Eu olhava para o quadro, olhava para ele e não conseguia ter reação, dizer nem sim nem não. Fiquei até ao final da aula a fitá-los.”

Cidália Ventura insistiu e foi dar uma segunda aula, com miúdos mais pequenos. Era uma turma extremamente ativa, mas a professora tinha “pulso neles”. O resultado foi o mesmo: passou a aula inteira a olhar para eles, incapaz de reagir. Eles abusaram no mau comportamento durante algum tempo até que, percebendo que algo se passava, pararam. “Eles próprios se sentaram e ficaram a olhar para mim.”

No final da aula, a professora entrou no conselho executivo e contou à vice-presidente da escola o que tinha acontecido. “Eu não estou bem, preciso de ajuda”, admitiu. “Ela respondeu-me: ‘Cidália, ainda bem que reconheces que precisas de ajuda. Já não era sem tempo’.”

Cidália Ventura marcou consulta num psiquiatra. Os anos que se seguiram não foram fáceis: esteve 15 anos a lutar contra a depressão, num processo que foi feito de altos e baixos, vitórias e derrotas. “Até rescindir contrato em 2014, trabalhava um ano, um ano e meio, dois anos, e ficava um ano em casa.”

O que é que mudou então passados 15 anos para que Cidália Ventura vencesse a depressão? “Neste percurso todo, encontrei um caminho espiritual que me ajudou muito. Há pessoas que procuram a solução no esoterismo ou agarram-se a outra coisa qualquer. Eu converti-me à religião evangélica e encontrei aí o meu grande ponto de abrigo.”

Sentir que não estava sozinha e que havia alguém que a acompanhava foi transformador. Assim como entender que nada além dela a impedia de cumprir os seus objetivos, ter uma vida dita “normal” e, acima de tudo, ser feliz.

A importância de perceber que a medicação não é um bicho-de-sete-cabeças

Apesar de Cidália Ventura ter encontrado apoio na religião para superar de vez os seus estados depressivos, não descarta a importância que o acompanhamento psiquiátrico teve na sua vida.

“Nunca tomei muita medicação. Quando as pessoas dizem: ‘Não, não vou ao psiquiatra porque encharcam-nos em medicamentos e ficamos zombies.’ Comigo isso nunca aconteceu”, revela Cidália Ventura. “O máximo que tomei foram três comprimidos, e um era para dormir.”

E ajudaram. “O papel do médico é extremamente importante, e quando alguém entra neste processo eu aconselho sempre a pedir ajuda. Mas costumo dizer também que grande parte da cura está no nosso interior.”

As depressões têm várias formas de tratamento, explica o psiquiatra Fernando Almeida. Quando há uma razão específica que levou a este estado, resolvido esse problema a probabilidade de deixar de estar deprimido é grande. É o caso de alguém que perde o emprego e desespera com a necessidade de suportar financeiramente a família. Se um mês depois arranja um novo trabalho, se calhar até com melhores condições do que o anterior, é provável que a depressão desapareça.

“Não é necessariamente assim, obviamente. Mas a probabilidade de a depressão desaparecer é grande. Agora, pondo de parte este tipo de situações, que são mais simples e podem não requerer tratamento médico, a maior parte necessita de um tratamento psicofarmacológico.”

Os medicamentos são “utilíssimos, extremamente imprescindíveis e muito mais rápidos a atuar.” E quanto mais cedo for iniciado o tratamento, melhor: “Não é raro com um mês, um mês e meio de tratamento, melhorarmos esta pessoa que, sem tratamento psicofarmacológico, anda meses e meses sem melhorar.”

Quanto mais tempo demorar a fazer o tratamento, pior. “Este é um aspeto muito importante: quanto mais tempo a pessoa estiver deprimida, menor a probabilidade de recuperar completamente.”

Sem ignorar que obviamente existem medicamentos com efeitos secundários, Fernando Almeida salienta que “a medicação tem de ser dada com conta, peso e medida e consoante as necessidades”. Há patologias e patologias, cada caso é um caso e cada medicamento é um medicamento.

Há doentes que não sentem nenhum efeito colateral. Outros sentem-nos com maior ou menos intensidade. No final, cada doente é um doente e é importante dialogar com o médico sobre isso. Só não é possível ignorar isto: há alturas em que a medicação é mesmo necessária. E pode salvar vidas.

Quando a depressão surge sem motivo aparente

“Outro aspeto curioso que pode levar à depressão é acontecer qualquer coisa de importância relativamente menor, mas que funciona quase como que uma faúlha que provoca um incêndio”, explica o psiquiatra Fernando Almeida. “Esse incêndio acontece porque a pessoa tem aquilo que nós chamamos uma depressão endógena.”

Ele tentou suicidar-se, e só se salvou porque o filho, que não era suposto voltar a casa nesse dia, teve de voltar para trás para ir buscar um objeto”.

Está na nossa própria biologia, está ligada à nossa componente genética, é o nosso próprio organismo que nos faz deprimir. Esta depressão é tão grave que pode inclusivamente causar alucinações, ou seja, fazer com que o indivíduo acredite em coisas que não são reais. O psiquiatra Fernando Almeida dá o exemplo de um paciente que seguiu há muitos anos. Muito bem financeiramente, o homem mandou fazer umas obras na casa e o empreiteiro cobrou-lhe mais mil contos (acima dos 100 mil euros) do que deveria.

“Para este homem, mil contos não era nada. Não lhe faziam diferença. Mas a verdade é que esta faúlha originou que ele tivesse uma depressão brutalmente grave.”

O homem meteu na cabeça que estava arruinado. Que tinha feito negócios péssimos, e que portanto não era merecedor de estar com a família. “Ele tentou suicidar-se, e só se salvou porque o filho, que não era suposto voltar a casa nesse dia, teve de voltar para trás para ir buscar um objeto”.

O filho chamou pelo pai e, sem ter resposta, começou à procura pela casa. Descobriu-o na casa de banho quase asfixiado — tinha tentado enforcar-se. “Mas foi a faúlha que provocou isto porque havia esta componente endógena.”

Em relação a este tipo de depressões, Fernando Almeida alerta: a medicação nestes casos é de facto imprescindível. “De facto não faz sentido estes doentes andarem a ser empatados com psicoterapia sem fazer um antidepressivo eficaz para o seu tratamento.”

Devo começar pela psicoterapia ou pelos fármacos?

Não há uma resposta certa para saber se se deve ir a um psicólogo ou a um psiquiatra e Fernando Almeida é o primeiro a salientar isso. Como psiquiatra pode parecer suspeito apelar a um dos lados, no entanto é importante que fique esta mensagem: a psicoterapia (que pode ser feita com psicólogos e psiquiatras) e os medicamentos complementam-se, mas nem sempre a primeira poderá superar a necessidade de tomar fármacos — algo que só um médico como um psiquiatra poderá prescrever.

Retomamos o exemplo da depressão endógena. “Há doentes onde aparentemente há uma causa para a depressão e no entanto é claramente endo. Há uma componente bio que, se não for tratada, vai andar ali meses e meses a empatar.”

Alguns psicólogos terão este know-how. Mas outros poderão não ver além do fator reativo e fazer durar um tratamento que estará a ter poucos ou nenhuns efeitos.

“Vou-lhe dar um exemplo. Há muitos anos segui um doente que era ajudante de barbearia. Ele tinha uma questão de trabalho grave com outro barbeiro, e estava claramente deprimido, ansioso, revoltado, irritado.”

Em determinada altura da conversa, o homem disse que sentia um cheiro esquisito. Mas continuou a falar. No final da consulta, Fernando Almeida retomou a questão do odor e perguntou-lhe que cheiro era esse. Ele respondeu-lhe que era a couro queimado.

“Cheiro a couro queimado — sei eu, porque sou médico —, pode acontecer no contexto de uma epilepsia. Este homem tinha 40 anos, nunca teve epilepsia, portanto era possível que tivesse um tumor cerebral.”

Tinha. Infelizmente, já havia pouco a fazer. O homem morreu passado poucos meses. Este é um caso drástico, é verdade, mas mostra a importância da psiquiatria. Até porque na luta contra a depressão, repita-se, o tempo é fundamental. Quanto mais cedo se iniciar o tratamento correto, maior a probabilidade de ficar curado — totalmente.

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