Filhos. Como lidar com as primeiras saídas à noite dos adolescentes

Qual a melhor idade para começarem a sair? Os pais devem ir buscá-los sempre? Podem mandar SMS ou ligar? Duas psicólogas respondem.

Nas primeiras saídas dos filhos, é importante que os pais definam horas de regresso e momentos intermédios de comunicação

Bruce Mars / Pexels

Clara Matos recorda-se perfeitamente da sua primeira saída à noite. Com 15 anos, a hoje jornalista de 31, foi pela primeira vez a uma discoteca com o seu grupo de amigos do liceu, para comemorar o aniversário de uma colega de turma. “Lembro-me de ser inverno, jantámos numa pizzaria em Oeiras e fomos apanhar o comboio em direção a Alcântara, onde era a discoteca”, conta Clara à MAGG. Estava ansiosa mas também nervosa, pois devido à sua idade, tinha receio de ser impedida de entrar no estabelecimento noturno pelos seguranças — afinal, ainda não tinha 16 anos, idade legal para frequentar este tipo de espaços.

Sair à noite não era novidade para os amigos da adolescente, na época: desde o início do ano letivo anterior (10.º ano) que os colegas o faziam com alguma frequência. Mas a jornalista não tinha tanta liberdade e foi apenas devido a muitas semanas de insistência com os pais que conseguiu luz verde para ir comemorar o aniversário da amiga — mas, mesmo assim, admite que essa primeira saída não mudou muita coisa.

Se no secundário os meus pais me iam buscar nas primeiras horas da madrugada, acho que na ocasião da primeira grande festa da faculdade apanhei o comboio para regressar a casa já de manhã.”

“Recordo-me que entrei pouco antes da meia noite na discoteca, que ainda estava bastante vazia, e os meus pais estavam à porta da mesma à uma da manhã, a hora combinada para me levarem para casa. Pensei que a partir desse dia podia ser mais fácil sair, nem que fosse uma vez por mês, mas tal não aconteceu, continuaram a limitar-me muito”, recorda Clara, que conta que até ao final do 12º ano saiu muito pouco. “Talvez tenha conseguido acompanhar os meus amigos quatro ou cinco vezes, sendo que era aquela que tinha sempre de sair mais cedo e de dançar com o telemóvel no bolso, os meus pais costumavam ligar-me uma ou duas vezes por noite.”

Com a entrada na faculdade, foi mais difícil para os pais de Clara controlarem-na e acabaram por ceder e facilitar mais as saídas e as idas a festas — mas a jornalista é a primeira a afirmar que houve abusos da sua parte, que provavelmente não teriam sucedido se tivesse tido mais liberdade no ensino secundário.

“Chegar à faculdade foi uma espécie de grito do Ipiranga, uma mini-fase de revolta. Para começar, era mais difícil para os meus pais saberem onde eu estava fisicamente, não conheciam nenhuns dos meus colegas e, principalmente nas primeiras semanas de aulas, havia atividades inseridas nas praxes dia e noite, fosse na faculdade ou nas ruas de Lisboa. E assim que senti um pouco mais de liberdade, abusei e fui do oito ao 80 — se no secundário os meus pais me iam buscar nas primeiras horas da madrugada, acho que na ocasião da primeira grande festa da faculdade apanhei o comboio para regressar a casa já de manhã e cruzei-me com o meu pai, que estava a caminho do trabalho.”

A liberdade dos adolescentes é definida (e gerida) desde crianças

Não é fácil estabelecer uma idade a partir da qual os adolescentes podem sair à noite, tudo depende da maturidade de cada jovem. Tal como explica a psicóloga clínica Vera Lisa Barroso à MAGG, as saídas estão dependentes “da confiança pessoal e das competências sociais para sentirem vontade e segurança necessárias para sair das ‘asas protetoras’ dos pais”. Porém, a especialista acredita que as primeiras saídas não devem acontecer antes dos 14 ou 15 anos, pelo menos.

Bárbara Belo tem 43 anos e é mãe de quatro filhos — três rapazes de 14, 12 e 7 anos, e uma menina de 11, embora apenas os dois filhos mais velhos já saiam à noite, esporadicamente. A instrutora de fertilidade natural (Bárbara gere o blogue Fertilidade Natural) conta à MAGG que não se recorda ao certo do que a levou a decidir que tinha chegado o momento de deixar os filhos terem esta experiência, mas crê que “teve a ver com a situação em si, com quem iam, como regressavam, etc. E a maturidade que eles nos demonstraram ter, claro”.

Por mais que este seja um momento que causa desconforto a muitos pais, Vera Lisa Barroso salienta que as primeiras saídas são “uma etapa saudável e adequada à fase da adolescência, que representa o início de ensaios de autonomia, liberdade e até alguma emancipação”. Para a psicóloga, esta época da vida dos mais jovens também representa a possibilidade destes “conhecerem e estreitarem relações com os seus pares e partilharem momentos de interação com elevado impacto no seu desenvolvimento emocional, relacional e social”.

O controlo excessivo dos pais limita o crescimento e o desenvolvimento socioemocional dos adolescentes.”

Beatriz Matoso, psicóloga e psicoterapeuta do casal e da família, concorda que o desejo de sair à noite está diretamente ligado com a necessidade de autonomia dos adolescentes em relação aos pais. “Nestas situações, livres da orientação próxima dos adultos, procuram na relação com os amigos a possibilidade e o reconhecimento ao direito de criar espaço para a expressão das suas emoções”, diz à MAGG. A especialista acrescenta que tal acontece “através da música e da dança, por exemplo, que acaba por ser uma dramatização da intensidade emocional, característica da adolescência. É na interação com os pares que o indivíduo aprende a conhecer-se, na procura daquilo que o define e distingue dos outros”.

Independentemente de os pais serem mais controladores ou flexíveis com o tema da liberdade dos miúdos, este é um assunto que não deve ser apenas abordado quando os filhos começam a manifestar vontade de sair — de acordo com a psicóloga Vera Lisa Barroso, é em crianças que os pais devem começar a trabalhar a autonomia dos mais jovens.

“É importante que os pais ofereçam liberdade suficiente para que os adolescentes a aprendam a gerir, e tal deve ser implementado desde cedo e com todo o tipo de situações”, relata a especialista, que afirma que se as crianças crescerem a gerir o seu tempo, semanadas, bens, brinquedos ou tarefas, entre outros, a liberdade para as saídas à noite é apenas mais uma etapa do processo natural que têm vindo a vivenciar. “Se os miúdos forem estimulados desde muito cedo a gerir a sua liberdade e a responsabilizarem-se por determinadas tarefas e situações, sentem que os pais confiam neles e que são respeitados no seu papel de filhos, existindo assim menos riscos de abuso de liberdade”, afirma Vera Lisa Barroso.

No caso de Bárbara Belo, a liberdade dos filhos começou a ser trabalhada desde cedo: “O V., de 14 anos, faz ballet em regime profissionalizante desde os 10 anos. A partir dos 12 começou a viajar para fora do País, para participar em concursos, estágios ou usufruir de bolsas de estudo. O ´sair’ acabou por ser algo natural porque, desde tenra idade, comecei a ter que confiar nele, nas suas capacidades de escolher o que é melhor e mais seguro para si. Este ano recebeu um convite na área da dança que o fez ficar longe de casa durante um mês e, apesar de ser o mais novo do grupo de alunos selecionados, acabou por os acompanhar em algumas saídas à noite.”

Nem sempre existe uma proporcionalidade direta entre o controlo dos pais e os excessos dos adolescentes. Vera Lisa Barroso admite que essa “é uma possibilidade, mas não necessariamente uma consequência do controlo, até porque a confrontação relativamente aos pais depende muito das características da personalidade do adolescente e da estrutura familiar envolvente”, explica a psicóloga que, por outro lado, não nega que o controlo excessivo dos pais “limita o crescimento e o desenvolvimento socioemocional dos adolescentes”.

Beatriz Matoso também alerta que, caso “os pais contrariem os filhos de uma forma autoritária e os impossibilitem de realizar estas experiências, tal pode dar origem a conflitos que não favorecem uma evolução saudável dos adolescentes”.  Em todo o caso, “os abusos de liberdade deverão ter sempre consequências previamente definidas e informadas pelos progenitores”, considera Vera Lisa Barroso.

O álcool e as drogas não são os únicos perigos da noite

Hoje, Clara Matos é mãe de uma menina de dois anos e, embora ainda falte muito para a fase da adolescência e das primeiras saídas, este é um tema que deixa a jornalista dividida. “Já tive muitas vezes esta conversa com o meu marido. Ele sempre teve liberdade desde novo e começou a sair com 13 anos, e diz-me que até aos 18 a miúda não põe os pés fora de casa sozinha. Sei que é um exagero e gostava de lhe dar mais liberdade do que os meus pais me deram, mas hoje compreendo a necessidade deles em me protegerem e o porquê de estarem sempre preocupados e a ligarem-me para saber onde estava”.

As saídas à noite não são necessariamente sinónimo de perigo. Há uma boa dose de diversão saudável que é importante os mais novos viverem no tempo certo.”

A verdade é que sair à noite pode ter os seus perigos e inseguranças, principalmente para os mais jovens. Sendo assim, é importante que os pais conheçam efetivamente o que estas saídas acarretam para conseguirem alertar os filhos para situações mais inesperadas ou arriscadas — mas os adultos devem saber para o que alertar.

Tal como explica Vera Lisa Barroso, “muitas vezes, as conversas incidem exclusivamente na preocupação dos filhos consumirem álcool e/ou drogas” mas é importante que a família converse sobre outros cenários: os jovens devem permanecer sempre acompanhados e em grupo, garantirem que têm um telemóvel para comunicar (ou pedir ajuda), não devem perder de vista os seus pertences ou abandonar o seu copo de bebida, e devem ter atenção a grupos que possam estar sob níveis elevados de álcool (ou de substâncias) e, por isso, mais propensos a situações de agressividade.

Mas é inegável que o álcool é um dos grandes perigos da noite, e há jovens mais sensíveis a esta questão. Bárbara Belo, cujos dois filhos mais velhos (e os únicos que já saem esporadicamente) sofrem de diabetes tipo 1, admite que a doença dos miúdos é o fator que acaba por lhe causar mais stresse, apesar de tentar “que eles tenham uma vida normal, como dois adolescentes comuns” e evitar a todo o custo ser “uma mãe-polvo” — mas em relação ao álcool, a tolerância é zero.

“Ambos têm a consciência de que, independentemente da idade e devido à diabetes, a ingestão de álcool se torna um risco. O consumo destas bebidas pode provocar uma hipoglicemia, que pode levar a uma perda de consciência e até ser fatal, se não se atuar em tempo útil. O meu maior receio é mesmo este, que tenham uma reação grave e não haja ninguém para os ajudar. Até porque não são poucos os jovens da idade deles que consomem bebidas alcoólicas quando saem à noite e que ‘aterram’ pelos cantos, não sendo possível distinguir uma hipoglicemia de uma bebedeira, a não ser que se meça o açúcar no sangue”, conta a mãe de quatro filhos, que independentemente dos perigos da noite, tenta “não entrar em parafuso. A palavra chave é confiança. Eles sabem que podem sair porque, tanto eu como o pai, confiamos neles e nas suas capacidades de escolha”.

Depois de sinalizados os diferentes perigos e riscos, Vera Lisa Barroso alerta para o facto de ser “tempo de os pais poderem respirar porque as saídas à noite não são necessariamente sinónimo de perigo. Há uma boa dose de diversão saudável que é importante os mais novos viverem no tempo certo”.

A especialista também recomenda que estas conversas aconteçam gradualmente ao longo do tempo e não apenas nas vésperas das saídas. “Os miúdos têm uma maior curiosidade e recetividade aos conteúdos de conversas não dirigidas e fora de um contexto de interesse, ou seja, em momentos onde eles não estejam tão focados em conseguir os seus objetivos”, salienta Vera Lisa Barroso. A psicóloga acredita que “partilhar exemplos de pessoas conhecidas e eventualmente as histórias pessoais dos próprios pais, que podem ser demonstrativas de bons exemplos, podem significar momentos de aprendizagem para os filhos” e serem um bom ponto de partida para o diálogo.

Estratégias para lidar com as primeiras saídas dos mais jovens

As primeiras saídas à noite com os amigos não têm, obrigatoriamente, de significar logo idas a discotecas ou bares. Tal como sugere Beatriz Matoso, “os jovens podem começar por combinar jantares, idas ao cinema ou festas privadas [em casa de algum amigo, por exemplo], onde podem conviver durante um tempo combinado. A pouco e pouco, este tempo pode aumentar, de acordo com a sucessão e qualidade destas experiências”. E se tudo correr bem, as saídas poderão evoluir para espaços de diversão noturna.

Caso os pais conheçam os amigos dos filhos, podem ter os seus contactos telefónicos e recorrer a eles numa emergência, mas nunca numa atitude de controlo”.

Mas chegando a hora (ou, neste caso, a noite) da primeira saída do seu filho, há diretrizes a seguir e formas de lidar com este momento. É importante que se definam horas de regresso, momentos intermédios de comunicação (através de chamadas ou SMS, previamente combinadas) e que os pais conheçam o local da saída e o grupo de amigos com quem o filho estará. “É compreensível que no, início da adolescência, os pais queiram saber com quem os filhos saem, para onde e como regressam”, afirma Beatriz Matoso, que alerta que, caso os pais conheçam os amigos dos filhos, “podem ter os seus contactos telefónicos e recorrer a eles numa emergência, mas nunca numa atitude de controlo”.

Adicionalmente, Vera Lisa Barroso recomenda que, nas primeiras saídas, e principalmente se se tratarem de adolescentes mais jovens, “é importante que sejam os pais a ir buscá-los ao local. Em relação aos momentos de comunicação estabelecidos, as chamadas ou mensagens devem ser feitas pelos adolescentes nas horas previamente acordadas entre pais e filhos”, diz a psicóloga clínica. Beatriz Matoso discorda: “Não me parece essencial que pais os vão sempre buscar. Podem delegar essa tarefa num ou noutro pai que esteja mais disponível ou recorrer a um Uber”.

“No caso do A., de 12 anos, vamos buscá-lo ou, em alternativa, regressa com os pais de um amigo de nossa confiança. No caso do V., depende muito de onde está. Mas, claro, sempre que está por cá, somos nós a ir buscá-lo. Quando está fora, regressa a pé, se for perto do local onde está alojado, ou divide um Uber com os amigos”, conta Bárbara Belo.

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