Na casa de Cátia Curica não há diferença entre o armário da comida e aquele onde guarda os cremes. Não é por falta de espaço nem mesmo pela falta de cuidado com a pele. Pelo contrário. É exatamente por querer cuidar de si da melhor forma que faz questão de que tudo o que aplica na pele tenha a mesma qualidade que aquilo que come, ou seja, 100% biológico. “Não faz sentido querer cuidar bem do meu estômago e do meu fígado e negligenciar um órgão tão importante como a pele”, refere.

Tudo começou ainda em adolescente, quando se apercebeu que tanto ela como a irmã, Rita, tinham uma pele tão sensível que qualquer maquilhagem ou creme banal era suficiente para uma reação alérgica. “A procura por produtos biológicos acabou, por isso, por ser uma necessidade”, explica Cátia.

No entanto, para encontrar produtos de higiene e limpeza naturais e biológicos era preciso ir ao estrangeiro e depois de vários anos a comprar online ou a fazer encomendas a quem saía do país, as duas irmãs decidiram, em 2009, abrir a Organii, uma loja especializada em cosmética biológica. Começaram no Chiado, em Lisboa, e atualmente, o império já chega ao Lx Factory, Príncipe Real, está prestes a instalar-se em Alvalade (esta nova loja vai substituir a do Saldanha) e também já têm representação no Porto.

Finalmente já tinham à mão tudo o que precisavam mas, mesmo assim, Cátia sentia que o biológico e o natural tinha margem para se transformar em algo ainda mais completo. “A cosmética biológica é, sem dúvida a mais vantajosa, mas se for feita em casa e responder às necessidades de cada um, melhor ainda”.

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Por isso, desde 2014 que complementa a sua formação em Farmácia com um saber que vai crescendo em cada experiência que faz na sua cozinha e, mais recentemente, também em laboratório.

A Organii prepara-se para lançar no mercado uma marca própria de cosméticos biológicos, a Unii Bio. A partir de Setembro e, para já, apenas nas lojas Organii, vai ser possível encontrar champôs sólidos, esfoliantes, óleos e pastas de dentes, todos feitos em laboratório e sem qualquer tipo de produto químico.

Cosmética para cada caso

Antes de chegar à receita perfeita, Cátia fez sabonetes que ficavam em papa ou criou amaciadores que, no final, não passavam de um bloco duro sem possibilidade de utilização. E foi exatamente nesse jogo de tentativa-erro que chegou finalmente às receitas que funcionam e que, principalmente, sabe que podem ser adaptadas a cada pessoa. “É essa a grande vantagem da cosmética feita em casa. Além de ser feita sem recurso a conservantes, é feita para responder a uma necessidade pessoal”, explica.

Foi precisamente sobre “Cosmética a partir da despensa” que Cátia veio falar ao Zimp, festival organizado pelo Instituto Macrobiótico de Portugal, onde também costuma dar formações sobre o tema.

Cátia tem à sua frente coisas como mel, algas, açúcar, sal, óleos e azeite, justificando assim o nome do workshop. “Não compro nada em específico para a pele, uso o mesmo que uso para cozinhar”, refere, aproveitando para lembrar que, ao contrário dos cremes que se compram no supermercado ou na farmácia, estamos perante produtos frescos. “Não duram uma eternidade como os outros, conservam-se, no máximo, quatro dias no frigorífico”, salienta, “mas vale a pena o esforço”.

Em meia hora, Cátia faz um esfoliante, uma máscara e ainda dá dicas caseiras para quando o inverno traz tosses e narizes entupidos. Por exemplo, é possível fazer uma espécie de Vicks Vapospray com o que temos em casa (pelo menos numa casa já preparada para estas eventualidades). Basta juntar manteiga de karite, óleo de coco e azeite em partes iguais, levar a banho-maria, deitar num frasco e pôr dez gotas de cada um destes óleos: gengibre, pinho e eucalipto. Depois de solidificar, é só espalhar no peito e nas costas e deixar que atue durante a noite. Já no caso de nariz congestionado, é só deitar a mesma quantidade de óleos em água a ferver e inspirar profundamente.

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E só mais uma, prometemos, antes de passar para a cosmética. Sabia que se deitar uma gota de óleo essencial de citronela em quatro de óleo de amêndoas doces, está feito um repelente? Pois, nós também não, mas Cátia garante que não há melga ou mosquito que se aproxime.

Agora sim, finalmente, deixamos aqui duas receitas que pode fazer em casa. Primeiro o esfoliante, que deve ser usado duas a três vezes por semana e a máscara, para fazer mais esporadicamente, mas sempre depois do esfoliante.

Esfoliante:

  • duas colheres de sopa de sal marinho (fino se for para o rosto, grosso se for para pés, joelho e cotovelos);
  • uma colher de sopa de óleo de coco;
  • uma colher de sopa de azeite.

Só com a mistura destes três ingredientes estava feito um esfoliante básico, mas Cátia sugere que se junte uma colher de chá de matcha, um produto rico em antioxidantes e que potencia a circulação, e duas a três gotas de óleo essencial para dar um aroma agradável ao produto.

Máscara:

  • duas colheres de sopa de mel;
  • uma colher de sopa de azeite;
  • uma colher de sopa de óleo de coco;
  • duas colheres de sopa de argila;
  • duas gotas de óleo essencial;
  • uma colher de chá de clorela ou spirulina em pó (algas que vão dar um aporte extra de minerais).

É possível (e aconselhável) juntar ingredientes que personalizem a máscara, como é o caso da curcuma, que tem efeitos anti-inflamatórios, caso haja alguma inflamação na pele. E se quiser potenciar ainda mais esta máscara, pode ir novamente à despensa ou ao frigorífico buscar o que pôr nos olhos para diminuir inchaços e olheiras: rodelas de pepino frio, saquetas de chá verde usados ou alga noori humedecida. Sim, aquela do sushi.