Como saber se está na altura de terminar uma relação

A forma como discute é importante, assim como a vida sexual. Uma psicóloga e uma terapeuta de casal dão-nos indicadores importantes.

Quando a vida não se torna mais fácil ao lado dele é um sinal, quando um dos elementos do casal não fez corretamente o luto de uma relação anterior, também

A. L./Unsplash

Há sempre um amigo sábio que nos atira uma frase destas: “No fundo, tu sabes se chegou a altura de terminar ou não.” Ele até pode ter razão — talvez lá no fundo todos nós saibamos a resposta, no entanto nem sempre é fácil ter esse rasgo de sapiência. Às vezes estamos tão embrenhados nas nossas dúvidas, questões e anseios que não conseguimos ver nada com clareza.

Terminar uma relação nunca é fácil. Mas às vezes o processo mais complicado é entender se chegou mesmo a altura de acabar. Para dar uma ajuda, a MAGG pediu à psicóloga e terapeuta de casal Rita Fonseca de Castro e à terapeuta familiar e de casal Manuela Silveira que nos dessem uma lista de sinais que revelam que chegou a altura de pôr termo a um relacionamento.

Quando existe qualquer tipo de violência na relação

Seja ela qual for, explica a terapeuta Manuela Silveira. “Apesar de a violência física ser o tipo de violência ainda com maior expressão na nossa sociedade, o surgimento de qualquer outro tipo de abuso, como a violência psicológica, social, sexual ou financeira na relação, constitui-se como um sinal de alerta de que este é o momento de terminar o relacionamento amoroso.”

Quando parece estar tudo errado na forma como comunicam

Iniciar uma discussão de modo duro (com um tom negativo, acusatório, sarcástico). Interagir com o outro recorrendo persistentemente a padrões negativos de interação como a crítica generalizada, desprezo, defesa (ataca para defender) e indiferença. Ainda sobre o campo da discussão, a psicóloga Rita Fonseca de Castro acrescenta quando uma pessoa se sente literalmente inundada numa discussão.

“As pessoas acabam por se proteger desta ‘inundação’ desligando-se ou construindo muros à sua volta. O desligamento emocional destes sentimentos intensos negativos é protetor, mas conduz também a um distanciamento crescente.” Podem surgir ainda “mudanças fisiológicas, tais como o aumento dos batimentos cardíacos, da secreção de adrenalina e da pressão arterial, que impossibilitam a continuação da discussão.”

Quando não existe respeito um pelo outro

É essencial para um relacionamento de sucesso: quando o casal chega a um ponto em que não tem qualquer respeito pelos sentimentos, ideias, opiniões, necessidades ou desejos do outro, pode estar na altura de terminar a relação. É preciso dar espaço ao companheiro para que ele se possa expressar e ser quem realmente é.

Quando isso não acontece, “rapidamente se introduz um mal-estar na dinâmica do casal que, se repercute nos indivíduos, levando ao questionamento da pertinência da continuidade do relacionamento”, explica a terapeuta familiar e de casal Manuela Silveira.

Rita Fonseca de Castro refere também que deve pesar as interações positivas e negativas. É um problema, diz a psicóloga, quando “as interações negativas e as discussões são consideravelmente mais frequentes que as positivas — os casais não se separam porque discutem (ter conflitos é normal), mas pela forma como discutem e superam os conflitos.”

Quando predominam as más memórias

Não se conseguem libertar da negatividade? Só pensam naquilo que aconteceu de mal na relação? Quase têm de fazer um esforço para pensar nos dias felizes? Pois, isto tudo é um problema. “O excesso de negatividade leva a que exista uma perceção distorcida que afeta o passado, presente e futuro de uma relação”, explica a psicóloga Rita Fonseca de Castro, citando logo a seguir uma frase de John Gottman: “Os casais que estão profundamente imersos numa visão negativa do seu companheiro, ou companheira, frequentemente reescrevem o passado”.

Quando estar sozinho ou com outras pessoas é melhor do que estar com ele

“Naturalmente, todos precisamos de tempo para nós, para estarmos connosco ou com outras pessoas que também são significativas na nossa vida. É normal”, diz a terapeuta familiar e de casal Manuela Silveira. “Contudo, quando se torna mais prazeroso estar com outras pessoas do que passarmos tempo com o nosso parceiro, poderá ser sintomático de que a relação está prestes a terminar.”

A psicóloga Rita Fonseca de Castro acrescenta que sentir-se profundamente sozinho mesmo quando se está acompanhado também é um mau sinal.

Quando o futuro não inclui o companheiro

Outro sinal de que a relação está prestes a chegar ao fim é a incapacidade de se imaginar a longo prazo com ele. “Uma manifestação pode ser a não inclusão do outro na vida familiar ou círculo de amigos”, explica a psicóloga Rita Fonseca de Castro, acrescentando: “É como se não valesse a pena porque, mais cedo ou mais tarde, vai acabar por sair da sua vida. A ausência de sentido de compromisso com a relação e com o outro é um mau preditor de sucesso da relação.”

Quando a ausência de intimidade e de sexo passa a ser normal

“Em todas as relações amorosas, existem períodos em que, por este ou aquele motivo (nascimento de um filho, excesso de trabalho, luto, doença, rotina), a componente sexual é um pouco deixada de lado, estando a atenção e as energias dos elementos do casal focadas em outras áreas da sua vida”, explica a terapeuta Manuela Silveira.

Então quando é que a ausência de intimidade e de sexo se torna um problema? “Quando passa a ser a regra e não a exceção. O que quero dizer com isto? Que quando a falta de intimidade e de desejo sexual deixa de ser uma questão de debate e de investimento por parte do casal, estamos perante um sinal de que, provavelmente, está na altura de terminar a relação.”

É um problema também quando, no exato extremo oposto, tudo se resume à sexualidade. Quando “a vida em conjunto, ou a parte positiva da relação, circunscreve-se à sexualidade – por mais importante que esta seja, não é suficiente para sustentar uma relação a médio/longo prazo”, alerta a psicóloga Rita Fonseca de Castro.

Vale a pena investir numa relação quando…

A psicóloga Rita Fonseca de Castro destaca quatro tópicos fundamentais para decidir continuar uma relação.

— Existe vontade e laços emocionais suficientes para lutar pela optimização da relação. Ambos querem que o relacionamento funcione, cientes de que uma relação satisfatória requer ajustamentos, cedências, trabalho e empenho;

— Ainda que existam sentimentos pontuais de saturação, como a monotonia ou rotina relacionais, reconhece-se a necessidade de introduzir novidade e há um esforço nesse sentido;

— Se está um estado emocional maioritariamente negativo, que acaba por envolver também o outro e a relação, mas se percebe que não se deve diretamente a ele. Existe, antes, um efeito de “contágio”;

— De modo inverso ao que frequentemente se pensa, situações como a infidelidade, dificuldades ao nível da vivência da sexualidade ou da comunicação não conduzem necessariamente ao final de uma relação, sendo ultrapassáveis, nomeadamente, com recurso à terapia de casal.

“Não se deve, sobretudo, ver o términos de uma relação como uma solução ‘fácil’ e que ‘dá pouco trabalho’, quando aparecem dificuldades na interação e relação”, explica a psicóloga. “A conjugação de duas pessoas com as suas especificidades, histórias de vida e vivências distintas é um desafio permanente.”

Quando a vida não se torna mais fácil ao lado dele

“A vida, na maior parte do tempo, é difícil com as suas adversidades, vicissitudes e dificuldades”, explica a terapeuta Manuela Silveira. “É na relação com os outros que encontramos esperança, energia e motivação para avançarmos. Se estamos numa relação que nos esgota, que nos deixa tristes na maior parte do tempo, que não nos eleva, enfim, que não nos torna a vida mais fácil de levar, então, é sinal de que a mesma não nos satisfaz, podendo estar na hora de terminar o relacionamento.”

Quando se pensa em ter uma relação com outra pessoa

É outro sinal de alerta, garante a psicóloga Rita Fonseca de Castro. “Quando se sente que a maior parte das necessidades individuais não estão a ser satisfeitas na relação”, a um ponto “que se chega a fantasiar frequentemente sobre como seria ter uma relação com outra pessoa”, isto pode ser um problema. “Ainda que seja em abstrato, há uma idealização do que seria a vida ao sair da relação.”

Quando já não existe amor

Faça este exercício. Por uns momentos, olhe simplesmente para ele: sente admiração? Interesse? Atração? Desejo? Consegue reconhecer o que levou a apaixonar-se por ele? Se a resposta a todas estas questões é não, então talvez esteja na altura de assumir que o amor acabou. “E, a acontecer, este é um dos principais motivos que levam a que se considere terminar uma relação, pois, sem amor, nada vale a pena”, diz a terapeuta Manuela Silveira.

Quando queremos mudar tudo

É normal querer mudar pequenos hábitos que acha irritantes, como deixar a pasta de dentes aberta ou a roupa suja no chão. O problema é quando, diz a psicóloga Rita Fonseca de Castro, “se alimenta a expectativa de que o outro vai mudar radicalmente em aspetos que são estruturais para a sua personalidade.”

Quando um dos elementos do casal não fez corretamente o luto de uma relação anterior

Não conseguir superar o relacionamento anterior pode ditar o fim da relação atual. Pelo menos é o que defende a psicóloga Rita Fonseca de Castro: “Se um dos elementos do casal não fez corretamente o luto de uma relação anterior e ainda se encontra emocionalmente ligado a um ex-companheiro, não conseguindo entregar-se devidamente à relação atual.”

Pode também ser um problema quando a questão não é a ligação emocional a um ex-namorado, mas sim à vida de solteiro. É um problema “quando se está numa relação mas se mantêm todos os comportamentos da vida de solteiro”.

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