“100 Perguntas sobre o Cancro”. O cancro é igual em homens e mulheres?

É uma doença moderna? Porque é que se diz tantas vezes que foi encontrada uma cura? Um novo livro responde a estas e a mais 88 perguntas.

Daniel Closa e Salvador Macip tentam descomplicar o cancro tanto para os doentes como para os familiares

Cristian Newman/Unsplash

O que é o cancro? O número de casos está a aumentar? Os animais e as plantas podem ter esta doença? E podemos usar a palavra tumor como sinónimo? Estas são algumas das perguntas que receberam agora uma resposta em “100 Perguntas sobre o Cancro“. Nas livrarias portuguesas desde 16 de julho, o livro dos espanhóis Daniel Closa e Salvador Macip apresenta-se como um livro descomplicado para doentes e familiares que queiram saber mais sobre a doença.

Dividido em sete partes temáticas, mas com uma ordem de leitura indiferente, “100 Perguntas sobre o Cancro” não pretende ser um manual exaustivo sobre o cancro. Mas os pormenores moleculares e celulares da doença também estão lá.

“Cada pessoa pode aprofundar os seus conhecimentos até ao nível que mais lhe interessar”, explicam os autores no livro. “Quisemos satisfazer tanto quem está à procura de explicações claras sobre as grandes questões, como quem também quer conhecer os pormenores moleculares e celulares”.

A MAGG escolheu 6 questões essenciais do livro “100 Perguntas sobre o Cancro”, e apresenta-lhe as respetivas respostas — desde a polémica utilização da canábis até entender se esta é de facto uma doença dos tempos modernos.

O livro foi lançado pela Vogais, uma chancela da 20|20 Editora. Custa 16,59€.

O cancro é uma doença moderna?

“Por vezes, pode parecer que o cancro é uma doença relativamente recente, mas isso não é verdade. É provável que se encontre entre nós desde o início da Humanidade. A prova mais antiga da existência do cancro encontrada até hoje corresponde ao esqueleto de um homem encontrado num sepulcro no Sudão. Tendo morrido há cerca de 3200 anos, os seus restos mortais mostravam sinais de metástases. Como o cancro original apareceu num tecido mole e já só se conserva o esqueleto, não podemos saber concretamente qual terá sido a causa, mas sabemos que avançou e se espalhou por vários ossos.

Foram encontrados vestígios ainda mais antigos de um cancro que afeta os ossos, neste caso, de uns parentes nossos: os neandertais. Num esqueleto com mais de 120 mil anos encontrado na Croácia foi detetado um cancro no maxilar. Por outro lado, os médicos da Antiguidade já tinham observado casos de cancro e feito as primeiras tentativas — infrutíferas — de combatê-lo. Em 1862, o egiptólogo Edwin Smith adquiriu uns fragmentos de papiros na cidade egípcia de Luxor. Quando foram traduzidos, percebeu-se que se tratavam de uma recolha de casos clínicos, descritos com uma precisão razoável, incluindo as características e os tratamentos aplicados. O papiro de Edwin Smith, datado por volta do ano 1600 a.C., é considerado o documento médico mais antigo da História, e nele aparecem já descritos alguns casos de cancro, uns tumores no peito que se tentou cauterizar, sem êxito. O documento especifica que, para aquela situação, não havia tratamento. No papiro de Ebers, um pouco posterior e que descreve casos de cancro da mama e do útero, encontram-se outras referências ao cancro.

Devido à sua complexidade, é normal que o tema do cancro estivesse fora do alcance da medicina que se praticava na Antiguidade, por isso, limitavam-se a descrevê-lo. Só se podia constatar o aparecimento de um tumor, mas ignorava-se por completo as causas do mesmo e a relação com a fisiologia.

Durante a Idade Média, continuaram a ser feitas tentativas para eliminar «cirurgicamente» os tumores externos, os mais fáceis de ver. Se tivermos em conta quão rudimentar era a cirurgia naquela altura, é compreensível que os casos de êxito fossem mais do que escassos, e que, obviamente, nem sequer se pusesse a hipótese de se tratarem os casos de tumores internos.

Até ao século XV não se começou a estudar as causas das doenças com profundidade, e, durante dois séculos, o conhecimento relativo ao funcionamento do nosso corpo foi avançando lentamente. Mas só a partir da invenção do microscópio é que se puderam analisar a fundo os primeiros tumores. Antes, pensava-se que se podia tratar de uma doença contagiosa, causada por desequilíbrios dos «humores» internos, por uma degradação da linfa… À medida que os conhecimentos iam melhorando, apertava-se o cerco àquela doença incurável relacionada com uns tumores que podiam surgir em qualquer parte do corpo.

Foi no século XIX que Rudolf Virchow, um grande médico alemão, propôs a hipótese de o processo ser causado por alguma alteração no interior das células, e que, para encontrar um tratamento, era preciso identificar os erros que ocorriam a nível celular. A partir de então, a investigação da terapia contra o cancro ficou bem encaminhada e, com acertos e também com erros, golpes de sorte e reviravoltas inesperadas, começaram a surgir os vários tratamentos para deter o avanço do cancro.”

Os animais e as plantas podem ter cancro?

“Como quase sempre só falamos do ponto de vista das doenças que temos, que nos afetam ou podem afetar, poderia parecer que o cancro é um problema exclusivo dos humanos, mas não é assim, já que também o encontramos noutros organismos. Efetivamente, qualquer ser vivo com mais de uma célula (tecnicamente chamado pluricelular) pode acabar por desenvolver um cancro. Seja como for, nós, os humanos, somos uma exceção, uma vez que nos outros organismos o cancro não é um processo muito frequente, por vários motivos. Se pensarmos um bocadinho, é fácil perceber que a maioria das espécies de animais não vive tempo suficiente para que o cancro se possa formar. Na natureza, o mais habitual é morrer antes de chegar à velhice, o que faz com que também não haja tempo suficiente para desenvolver um cancro. Tenhamos em conta que, para os animais selvagens, a luta pela sobrevivência é dura, e que a maioria dos indivíduos acaba por ser vítima de predadores ou de doenças infecciosas. Ao encontrarmos a forma de sobreviver a estes dois perigos, nós, os humanos, prolongámos a vida o suficiente para dar ao cancro tempo de se manifestar.

No caso dos animais domésticos, que vivem mais anos do que seria previsível na natureza, as coisas são diferentes. Por exemplo, o frango: apesar de ter uma esperança de vida de 6 a 11 anos, não é estranho que desenvolva sarcomas e outros cancros em cativeiro. Também é comum nos cães: metade dos cães que ultrapassam os dez anos de vida irá sofrer de algum tipo de cancro.

Até mesmo as plantas padecem de cancro, embora os tumores sejam menos frequentes e não deem tantos problemas. Não têm, por exemplo, metástases, porque as células vegetais são muito mais rígidas e não se podem mover. Por outro lado, os seus sistemas internos de proteção contra o cancro são semelhantes aos nossos, mas muito mais eficientes quando se trata de travar o crescimento descontrolado das células.

Há algum tempo, descobriu-se um tipo especial de cancro que aparece nos animais: o cancro contagioso. Só se conhecem três ou quatro tipos. O mais estudado é o que afeta os diabos-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii), uns pequenos marsupiais australianos. Começou a surgir na década de 1990. É um tumor que estes animais desenvolvem no focinho e que se transmite de uns para outros, sobretudo através das dentadas e lutas habituais. Isto deve-se ao facto de estes animais serem geneticamente muito semelhantes entre eles e de o seu sistema imunitário não reconhecer como alheias as células tumorais de outros diabos. Em princípio, não são tumores muito agressivos, mas, como vão crescendo, a partir de uma certa altura dificultam a alimentação do animal, que acaba por morrer de inanição. Desde que surgiu pela primeira vez, 80% da população dos diabos-da-tasmânia já desapareceu, e estes são, atualmente, animais em risco de extinção.

Os cães padecem de um cancro semelhante. Neste caso, trata-se de um tumor venéreo que se transmite por via sexual. O mais surpreendente é que todos os cancros deste tipo observados em cães provêm de um único tumor primigénio que se foi propagando por todo o mundo. Graças a análises genéticas, soube-se que a cadeia terá começado há milénios. O outro caso de cancro contagioso em animais que conhecemos é o das amêijoas. Têm uma espécie de leucemia que também provém de um único cancro original e que foram transmitindo de umas para as outras. Outros «parentes», como os mexilhões, também poderiam ter um cancro parecido.

Dito isto, é perigoso ingerir organismos que têm cancro? É difícil reconhecer os tumores nos animais quando são pequenos, pelo que é possível que cheguem ao nosso prato com maior frequência do que possamos pensar. Em princípio, não deverá ser prejudicial para a saúde, uma vez que, quando digerimos a comida, as células cancerígenas são destruídas no estômago. Seja como for, nunca foram observados casos de cancro transmitidos a humanos por via alimentar, pelo que é provável que isso não possa acontecer.”

Existe o cancro do coração?

“Alguns cancros são tão pouco habituais, que pode até parecer que não existem. Um deles é do coração, um tipo de tumor pouco conhecido mas nem por isso menos real. Como sempre, também existem vários tipos. O mais habitual, dentro dessa baixa frequência, chama-se angiossarcoma cardíaco e desencadeia-se nas células que revestem os vasos sanguíneos do coração. Há outro que se chama rabdomiossarcoma e aparece nas células musculares que formam o miocárdio, a camada externa do coracão. E depois há outros ainda mais raros, como o mesotelioma, o lipossarcoma cardíaco ou o schwannoma, que afeta as chamadas células de Schwann.

Há dois motivos que explicam a tão pequena incidência de cancros do coração. Um deles é o facto de as suas células se multiplicaram poucas vezes. Não são como as da pele ou do intestino, que vão sendo substituídas constantemente. Apesar de isso também acontecer no coração, esta substituição ocorre a um ritmo muito lento. Como as mutações aparecem sobretudo quando as células se multiplicam, a probabilidade de que isso aconteça às do coração o é consideravelmente baixa. Outra causa de mutações que levam ao aparecimento do cancro são os agentes tóxicos externos. Mas, no caso do coração, como está protegido no interior da caixa torácica e completamente isolado do exterior, não lhe chegam demasiados tóxicos com capacidade para fazer mutar as células. Também não lhe chegam as radiações solares, nem os tóxicos dos alimentos, os contaminantes atmosféricos nem os produtos que absorvemos através da pele.

Tudo isto faz do coração um alvo pouco provável do cancro. Pouco provável mas não impossível. E, como se trata do coração, o risco que implica para a saúde é elevado, já que a presença de um tumor pode alterar facilmente o seu funcionamento, com todos os problemas que isso comporta. O ritmo do batimento cardíaco poderia ver-se comprometido ou poderia obstruir-se o fluxo sanguíneo, provocando uma interrupção da circulação do sangue por todo o corpo.

Em relação ao tratamento, o problema é que o coração é um órgão particularmente essencial para a vida. Não se pode retirar uma parte sem com isso provocar graves problemas. Foram realizados algumas vezes autotransplantes de coração, uma técnica em que se retira temporariamente o coração para poder extrair o tumor de forma mais eficaz e posteriormente volta a colocar-se o coração no corpo do paciente, que durante a operação permaneceu ligado a um sistema artificial de circulação. Como se trata de um tipo de cancro muito raro, não foi muito estudado. Não se desenvolveram tratamentos de quimioterapia específicos simplesmente porque há muito poucos cientistas a trabalhar neste campo.

O perigo mais imediato do cancro do coração não é tanto o cancro em si mas mais o facto de que, antes de crescer o suficiente para se tornar um problema, a sua presença poder afetar a circulação sanguínea. Por isso, normalmente, é detetado quando o paciente nota que se cansa demasiado, que tem uma dor ou pressão no peito ou tonturas e desmaia por falta de uma boa irrigação sanguínea no cérebro. Todos estes problemas estão também relacionados com doenças cardiovasculares, por isso, é preciso descartar que não seja esta a causa.”

Porque é que se diz tantas vezes que foi encontrada uma cura para o cancro?

“Se repararmos nas notícias, há muitos anos que estamos prestes a encontrar a cura para o cancro. De vez em quando, lá voltam as manchetes de notícias que anunciam a descoberta de um gene fundamental, de um novo medicamento, de uma nova proteína que controla o crescimento do tumor, a dispersão da metástase ou a maneira como o cancro ilude o sistema imunitário. Chegam a mostrar estatísticas que dizem que se consegue curar 80%, 90% ou 99% dos tumores. Isto sem falar dos intermináveis anúncios que afirmam que determinadas plantas contêm princípios anticancerígenos. Somos levados a pensar que temos a cura definitiva à mão de semear, mas, na prática, as coisas não são assim tão maravilhosas. Mas, então, o que é que se passa?

A explicação é muito fácil: o que vemos nos laboratórios é muito diferente do que se vê na vida real. Identificar um gene, encontrar uma proteína ou investigar um mecanismo são passos necessários para avançar no desenvolvimento de novas terapias, mas são apenas passos, não o cruzar da meta. Por outro lado, é importante ter presente que muitos destes estudos se fazem com células cultivadas em tubos de ensaio em laboratório. São aquilo a que chamamos estudos in vitro. É muito fácil matar uma célula numa placa de cultura. Até com água da torneira podemos fazer isso! Mas o que queremos realmente é matá-las dentro de um organismo e sem fazer mal ao resto das células. E isso é muito mais difícil.

Daniel Closa é licenciado em Biologia e investigador do CSIC. Salvador Macip é médico, investigador e escritor licenciado em Genética Molecular e Fisiologia Humana

Como os estudos em células isoladas se realizam em situações completamente diferentes daquelas em que crescem e se multiplicam dentro do corpo de uma pessoa, as descobertas que se fazem nestas condições devem ser confirmadas (ou descartadas) mediante estudos posteriores em animais e, mais tarde, em voluntários. Muitas vezes, o que funciona muito bem em laboratório não será de grande utilidade quando aplicado, de facto, num hospital.

Em relação aos estudos em animais, diz-se muitas vezes que conseguimos encontrar muitas formas eficazes de curar o cancro, mas apenas em ratos. Os estudos em animais são muito melhores do que os que se levam a cabo em células isoladas, pois estudamos a doença num meio muito mais real. Estes estudos já nos permitem ter em conta a forma como o tumor interfere com os outros sistemas do organismo ou a possível toxicidade dos medicamentos. Mas os modelos animais são mesmo isso: modelos. Há muitas diferenças no que respeita ao metabolismo, à resposta imunitária ou à resistência aos fármacos, por isso não podemos aplicar sem mais nem menos o que descobrimos num rato diretamente a humanos.

Para além disso, este tipo de estudo efetua-se com ratos de laboratório, criados em condições ideais. São ratos de raças bem determinadas, portanto, todos eles geneticamente muito parecidos, foram criados da mesma forma, alimentados com a mesma ração, afetados por tumores muito específicos, não têm outras doenças que possam interferir… Em contrapartida, nos pacientes humanos encontramos todo o tipo de variações em todos os aspetos: jovens, velhos, fumadores, obesos, desnutridos, fisicamente ativos, sedentários, citadinos, rurais… Há muitas descobertas que serão aplicáveis em certas condições mas não em outras. A vida real é extremamente variada, e isso reflete-se no estado de saúde dos doentes.

Tudo isto pode ser frustrante, mas, do ponto de vista dos cientistas, a única maneira de estudar um problema como o cancro é tentar simplificá-lo a priori, já que, se não o fizéssemos, seria impossível entender o que quer que fosse. Mas esta simplificação faz com que, muitas vezes, o que vamos descobrindo não tenha aplicação geral, servindo apenas em determinadas circunstâncias. Os problemas simples podem resolver-se rapidamente, mas os mais complexos têm de ser solucionados aos poucos. E o cancro é um problema extremamente complexo, como já foi possível perceber por esta altura.”

A canábis pode curar o cancro?

“Uma das propostas de terapia alternativa contra o cancro que se tem discutido há mais tempo é a canábis. A canábis (Cannabis sativa) é uma planta a partir da qual se obtêm substâncias que se usam como drogas recreativas (haxixe, marijuana), pelo que o seu consumo está proibido em muitos países. O principal componente químico destas drogas é uma molécula chamada Δ-9-tetrahidrocanabinol, também conhecida como THC, que se pode unir a diversos tipos de neurónios do cérebro e gerar os efeitos psicoativos característicos destas drogas. No entanto, para além dos efeitos que tem sobre a mente, verificou-se que também é um anti-inflamatório poderoso que detém a multiplicação das células.

A hipótese de que a marijuana poderia deter as células malignas surgiu em 1975, quando se verificou que inibia o crescimento de tumores em ratos de laboratório. Experiências posteriores confirmaram que os princípios ativos da canábis têm uma certa eficácia em laboratóro. Nestes meios controlados, verificou-se que podem matar ou deter as células cancerígenas e até travar a formação dos vasos sanguíneos e as metástases. Mas, tal como já dissemos várias vezes, uma coisa é o que acontece no laboratóro e outra o que constatamos nos pacientes. E, neste caso, ainda não temos certezas de nada.

Em alguns estudos como os que se efetuaram em gliomas, um tipo de tumor cerebral, inibe aparentemente o crescimento destes, mas noutros verificou-se o efeito contrário. Também se encontraram reações contraditórias no sistema imunitário: em algumas experiências, parece que o ativa e noutras, que o suprime. Julga-se que estes resultados tão diferentes entre si consoante a experiência possam dever-se ao facto de algumas células tumorais poderem ser sensíveis aos compostos da canábis, enquanto outras, não, mas de momento não sabemos identificar quais delas reagiriam bem.

Atualmente estão a ser estudados os efeitos dos derivados da canábis em linfomas, gliomas, melanomas, tumores da próstata, do pâncreas, do pulmão e da mama, entre outros. Num estudo, foram injetadas estas substâncias em nove pacientes com cancro do cérebro em fase avançada, que não sofreram efeitos secundários assinaláveis e experimentaram algumas reações benéficas, mas o efeito foi insuficiente e todos acabaram por morrer em virtude dos tumores.

Por conseguinte, apesar de alguns dos compostos que contém poderem ser interessantes para conceber novos tratamentos, não parece que a canábis venha a ser a substância mágica que alguns esperam. De qualquer modo, apesar de não curar o cancro, não podemos descartar que tenha uma certa utilidade. Ainda é preciso saber muito mais sobre o seu mecanismo de ação e procurar a dose que possa ser eficaz sem provocar efeitos sobre o cérebro ou criar dependência. O que se sabe é que usar canábis pode servir para tratar os efeitos secundários da quimioterapia tradicional, uma vez que ajuda a reduzir a dor, controla os vómitos e estimula o apetite. Mas, mesmo relativamente a isto, é preciso ter alguma sensatez, porque fumar a planta, como é costume quando se toma esta droga, poderia proporcionar níveis elevados destas substâncias, o que aumentaria o risco de sofrer de cancros como o do testículo ou do pulmão (ainda mais quando misturada com tabaco). Por isso, o seu uso neste formato não é recomendável, e menos ainda como possível tratamento de qualquer doença.

Se alguma vez se utilizar a canábis como medicamento, será sob a forma de derivados, provavelmente sintéticos, que se administrarão em forma de comprimido ou injetável. Como acontece quase sempre com as plantas que são anunciadas como soluções para uma doença, a realidade é que a partir da planta se podem obter compostos que, convenientemente purificados e preparados, são úteis. A canábis não é exceção à regra, embora possamos achar graça a manchetes chamativas que insinuam que ‘a marijuana cura o cancro’.”

O cancro é igual em homens e mulheres?

“É evidente que há alguns tipos de cancro que são específicos de um sexo. O da próstata, no caso dos homens, ou o do colo do útero, no caso das mulheres, seriam dois exemplos típicos. Quem não tem próstata não pode sofrer de cancro da próstata e quem não tem útero também não terá cancro do colo do útero. Mas há outros tipos de cancro que podem induzir em erro. Por exemplo, mesmo que normalmente não se pense nisso, os homens podem ter cancro da mama. A percentagem é muito mais baixa do que nas mulheres (só um em cada 100 casos é que afeta um homem), mas existe. O motivo é simples. Os homens também têm mamas, mesmo que não estejam desenvolvidas, já que não recebem naturalmente as hormonas que estimulam o seu crescimento. Mas as estruturas anatómicas e as células estão lá, pelo que também são suscetíveis de se tornarem cancerígenas.

O que é interessante observar é que, à parte das diferenças específicas associadas ao sistema reprodutor, sabe-se que o cancro é uma doença que, em geral, afeta mais os homens do que as mulheres. Uma exceção curiosa é o cancro da tiróide, que, por algum motivo, é mais frequente em mulheres do que em homens. Seja como for, a frequência mais elevada de casos de cancro nos homens observa-se em todas as etnias e zonas do planeta. É preciso destacar que as diferenças não são nada do outro mundo: e poderíamos fazer um cálculo aproximado afirmando que por cada dois casos de cancro em mulheres, há três em homens.

Mais uma vez, cada tipo de cancro tem uma história diferente, mas podemos generalizar alguns aspetos para encontrar uma explicação. Um fator evidente é o efeito das hormonas. Homens e mulheres têm hormonas diferentes a circular pelo corpo: andrógenos como a testosterona, nos homens, e estrogénios ou progesterona, nas mulheres. Isto não é uma verdade absoluta, já que os homens também têm uma certa quantidade de estrogénio e as mulheres também têm testosterona, mas os níveis de uns e de outros são muito diferentes.
As hormonas têm efeitos muito variados, muitas vezes até opostos, mas, em geral, os andrógenos favorecem o crescimento celular e, portanto, também o das células cancerígenas. O caso dos estrogénios é mais complexo, pois favorecem o crescimento em algumas células, mas, em outras, detêm-no. Afinal de contas, torna-se difícil assinalar mecanismos concretos, mas o resultado global é que o ambiente hormonal masculino é mais favorável ao tumor do que o feminino.

Por outro lado, também há diferenças nos genes dos cromossomas sexuais. O cromossoma X é muito maior do que o Y, e as mulheres têm dois, enquanto os homens têm um X e um Y. Isso faz com que a quantidade de oncogenes, genes supressores e, em geral, pontos do genoma onde se podem desencadear as mutações que haverão de gerar o cancro não se distribuam exatamente da mesma forma nos dois sexos. Por exemplo, no cromossoma Y, foi identificado um oncogene, o que faz com que os homens tenham mais probabilidades de padecer de certos cancros do que as mulheres.

Por fim, há um fator importante relacionado com o ambiente e o estilo de vida. Durante muitos anos, o tabaco era consumido maioritariamente por homens. Esse facto, por si só, explicava em grande medida a enorme incidência de cancro do pulmão em homens. Hoje em dia, verifica-se que os homens fumam menos e que as mulheres o fazem com maior frequência. O resultado é que os cancros do pulmão estão a diminuir nos homens e a aumentar entre as mulheres. Com as bebidas alcoólicas acontece algo parecido, e quando se fazem estudos sobre comportamento deteta-se que os homens podem estar mais expostos a agentes cancerígenos do que as mulheres. Mas isto é muito variável e, mesmo quando se eliminam estes efeitos ambientais, o cancro continua a afetar mais os homens do que as mulheres. Estas diferenças devem ser tidas em conta para se entender o processo que conduz ao cancro e também para estabelecer estratégias terapêuticas. À medida que vamos entendendo melhor estes pormenores, poderemos ir aperfeiçoando os tratamentos em função de cada sexo.”

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