Diminui o stress, melhora o humor e queima calorias. Há quem o faça regularmente, mas também há quem não se imagine a fazê-lo. Podíamos estar a falar de yoga, mas por acaso não estamos. Estamos a falar de masturbação feminina.

“Para mim, é como fazer exercício físico, e por isso faz sentido que seja feito com alguma regularidade.” Mariana (nome fictício) tem 24 anos e, neste momento, não tem nenhuma relação. Encara a masturbação como um desporto e fá-lo (pelo menos) uma vez por semana, desde que haja vontade para tal. Começou a masturbar-se há cerca de três anos, mas sente que já foi tarde. Acredita que não há nenhuma desvantagem numa prática que a ajuda a descontrair, a conhecer o próprio corpo e que, ainda por cima, “sabe bem”.

“Uma das coisas mais apelativas na masturbação é o facto de ser um prazer sem consequências, o que é muito raro. É simples”, disse Inês

Raquel (nome fictício) tem 24 anos e também não tem namorado. Começou a masturbar-se na chamada pré-adolescência, e agora costuma fazê-lo uma vez por semana. Confessa que há fases em que a masturbação nem lhe passa pela cabeça, mas orgulha-se da naturalidade com que a encara. “Relaxa-me, é bom, e eu mereço. Beber álcool, por exemplo, também é muito relaxante, mas a masturbação não faz mal à saúde. E queima calorias”, disse.

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Para Inês (nome fictício), a descoberta foi mais tardia. Tem 21 anos e começou a masturbar-se aos 16, quando teve o primeiro contacto sexual com um rapaz, para se conhecer melhor, e para melhorar a experiência dos dois. “Uma das coisas mais apelativas na masturbação é o facto de ser um prazer sem consequências, o que é muito raro. É simples.” Agora, tem namorado, e não o faz tão regularmente, mas a masturbação já teve um papel muito importante na sua vida. “Em algumas alturas, fazia-o todos os dias, e esperava o dia todo por esse momento.”

A masturbação feminina ainda tem um longo caminho a percorrer

“As mulheres masturbam-se muito menos do que os homens que são, desde cedo, estimulados a desenvolver todos os aspetos da sua sexualidade. A razão pela qual não o fazem é, sobretudo, cultural.” Quem o diz é Maria do Céu Santo, ginecologista e obstetra, e pós-graduada em sexologia clínica. É também sobre a sexualidade masculina que ainda existe mais investigação científica – a oferta de trabalhos sobre sexualidade feminina está a aumentar, e o número de mulheres que se masturba também, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Há cada vez mais o entendimento de que a sexualidade é para todos, e não só para os homens, e isso vai ajudar muitas mulheres a perceberem que a masturbação é uma coisa perfeitamente normal “, disse Mariana.

Mariana lamenta que a sexualidade feminina e masculina ainda sejam tratadas de forma tão diferente, e que uma mulher que fale abertamente sobre sexo ou masturbação continue a correr o risco de ser julgada. Mas acha que isso não vai ser assim durante muito tempo. “Há cada vez mais o entendimento de que a sexualidade é para todos, e não só para os homens, e isso vai ajudar muitas mulheres a perceberem que a masturbação é uma coisa perfeitamente normal.”

Raquel acredita que muitas mulheres não se masturbam por receio, ou vergonha do próprio corpo, por não se sentirem confortáveis na sua própria pele. “Acredito que haja mulheres que não se masturbam porque percebem que a sua fisionomia não corresponde ao ideal que lhes é vendido, por exemplo, pela indústria pornográfica.”

Para Inês, “a ideia falsa de que as mulheres são menos sexuais cria culpa em qualquer iniciativa sexual, como é o caso da masturbação.” Conhece mulheres que não se masturbam e que nunca tiveram um orgasmo, e acredita que há quem não consiga ter prazer nas relações sexuais porque não sabe (ou nem sequer chega a tentar) fazê-lo sozinha.

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Quanto ao orgasmo feminino, é tudo uma questão de aprendizagem. “O orgasmo feminino aprende-se, e saber chegar lá sozinha é meio caminho andado para se conseguir fazê-lo com outra pessoa”, disse a ginecologista, relembrando a importância da masturbação na descoberta do “mapa geográfico” de cada mulher. Para além disso, na masturbação, os orgasmos são normalmente mais rápidos e intensos do que numa relação sexual – estas ganham pela componente afetiva, que torna os orgasmos mais recompensadores.

Mas para quem não se masturba, os argumentos são vários: acham a masturbação um ato demasiado solitário, estão numa relação e têm uma vida sexual ativa, ou não se masturbam, pura e simplesmente, porque não querem. E, ao contrário do que se possa pensar, uma vida sexual satisfatória e a prática da masturbação podem ser independentes – há mulheres que nunca se masturbaram, e que ainda assim têm muito prazer sexual.

Sofia (nome fictício), por exemplo, sabe que a masturbação é importante na descoberta do próprio corpo, mas nunca sentiu necessidade de o fazer. “Sinto que me conheço bem o suficiente.” Tem 26 anos, namora desde os 15, e por isso, a masturbação nunca foi, sequer, uma hipótese. “Nunca tive curiosidade e nunca pensei fazê-lo, até porque comecei a namorar muito cedo.”

Acredita que homens e mulheres são muito diferentes, e que a masturbação é mais para eles. “Acho que não temos tanta necessidade, ou até vontade de o fazer. Até certo ponto, diria que passamos bem sem relações sexuais, e sem nos masturbarmos”.

Joana (nome fictício), também considera que, quer a necessidade, quer o hábito, são muito mais masculinos do que femininos. “Acho francamente que sim: os homens precisam muito mais do que nós.” Tem 28 anos, namora desde os 14 e nunca se masturbou, nem nunca sentiu necessidade disso, talvez por ter iniciado cedo a sua vida sexual. Encara a prática com naturalidade, mas assume que não se imagina a fazê-lo. “É estranho, não sei. Acho que é por causa da sensação das mãos a tocarem e a sentirem esta parte do corpo.”

Não, o ponto G não existe

Para Bárbara (nome fictício), “nunca calhou” – tem 28 anos e namora desde os 18. Não se masturba, mas considera-se bastante aberta em relação a todas as dinâmicas sexuais. “Não sou púdica em relação a isso”. Até agora, nunca o fez, porque nunca sentiu necessidade. “Se não estivesse numa relação, e sentisse necessidade de o fazer, fazia.”

E nisso, estão as três de acordo – nunca se masturbaram, mas não põem de parte a hipótese de um dia o virem a fazer. “Não posso dizer que nunca o farei. Só que até agora nunca aconteceu, e nunca senti necessidade de o fazer. Não sei se algum dia sentirei”, disse Sofia.

A masturbação pode ser indicada como terapêutica em certos problemas sexuais ao nível da excitação, ou quando existam dificuldades em chegar ao orgasmo. E nesses casos, as mulheres perguntam sempre se não há outra opção”, disse a ginecologista.

Mas esta não é a postura habitual de quem não se masturba. Maria do Céu Santo disse à MAGG que, para além de não serem particularmente recetivas à masturbação, as mulheres não gostam de falar sobre ela, nem de admitir que se masturbam. Quando a masturbação lhes é sugerida como solução para algum problema, a reação é sempre a mesma. “A masturbação pode ser indicada como terapêutica em certos problemas sexuais ao nível da excitação, ou quando existam dificuldades em chegar ao orgasmo. E nesses casos, as mulheres perguntam sempre se não há outra opção.”