Se o inverno é a época da comida de conforto, com os cozidos à portuguesa e as feijoadas a ganharem destaque nos almoços de domingo, o verão é a altura ideal para enchermos a nossa barriga com camarão, amêijoas à Bulhão Pato, bolas-de-Berlim, gelados de todos os tamanhos e feitios, sardinhas e muito peixe grelhado.

Numa época do ano em que muitos portugueses se prepararam para uns dias de férias, em que o objetivo passa por fazer o menos possível, caso tenha filhos pequenos, pode estar a interrogar-se sobre o que fazer em relação à alimentação dos mais novos. Será que terá sempre de fazer comida à parte ou estes poderão acompanhá-lo nas refeições de marisco, por exemplo?

Bolas-de-Berlim? No primeiro ano de vida, nem pensar

A introdução de novos alimentos é um dos temas que mais causa discórdia entre pais e mesmo entre a comunidade médica. Há teorias para todos os gostos e o que um pediatra recomenda pode não ser exatamente regra universal. No entanto, com algum bom senso, há algumas diretrizes gerais que devem ser seguidas — e este é o caso do açúcar e do sal.

Tal como explica Hugo Rodrigues, médico pediatra, à MAGG, crianças a partir dos 12 meses podem comer de tudo, teoricamente, “mas o facto de poderem não significa que devam comer de tudo. Devem-se evitar os alimentos processados e muito condimentados, tendo particular atenção ao sal e ao açúcar, que são desaconselhados em idades precoces”.

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E não há doce popular nas praias como a bola-de-Berlim, um clássico de verão que faz os miúdos correrem pelo areal a perseguir os vendedores desta iguaria. O pediatra recorda que “os doces são evitáveis nos primeiros tempos de vida” e, em relação às bolas-de-Berlim especificamente, alerta que estas devem ser consumidas com moderação e nunca antes dos 18 meses: “Não existe uma idade a partir da qual se possa oferecer este doce aos miúdos, pelo que tem que imperar o bom senso. Diria que no primeiro ano nem pensar e, provavelmente, estendia essa recomendação até aos 18-24 meses”.

Os refrigerantes não devem ser introduzidos na alimentação das crianças pequenas.”

O calor também pede bebidas frescas e, embora as crianças mais pequenas devam consumir mais água do que o habitual durante o verão, pode existir a tentação de oferecer outra bebida. Os sumos de fruta podem ser uma opção, desde que 100% naturais, dado que já possuem frutose, o açúcar da própria fruta.

De acordo com Hugo Rodrigues, a laranja é uma alternativa, pois esta “pode ser introduzida a partir dos sete, nove meses, idealmente na sua forma completa pois possui fibras e outros nutrientes que não existem no sumo. No entanto, o sumo natural de laranja também pode ser dado às crianças a partir dessa altura.”

Por outro lado, o pediatra alerta para o facto de os sumos com açúcares adicionados (os mais comuns nos supermercados) devem ser evitados ao máximo e “os refrigerantes não devem ser introduzidos na alimentação das crianças pequenas”.

O marisco está proibido para as crianças?

Apesar de delicioso, o marisco é um produto que deve ser consumido apenas em locais de confiança, onde a frescura dos ingredientes seja a prioridade máxima — e esta recomendação é válida tanto para adultos como para crianças.

Porém, é um facto que o estômago dos mais pequenos é mais sensível e o marisco deve ser introduzido com calma e moderação. Apesar de não existir uma recomendação formal sobre a altura em que este alimento deve começar a fazer parte da alimentação das crianças, o médico pediatra recorda que, até há algum tempo, existia a ideia de que só deveria ser consumido a partir dos dois anos de idade. “Neste momento, não me parece a melhor opção e sugiro que se possa começar a oferecer a partir dos 12 meses”, afirma Hugo Rodrigues.

“Os primeiros peixes a introduzir na alimentação das crianças devem ser os magros mas, a partir dos oito, nove meses, também já podem comer sardinhas.”

No entanto, e uma vez que as crianças devem evitar pratos muito condimentados, experimente começar por doses pequenas de camarão cozido ou outros mariscos, como as amêijoas, ao natural, deixando de lado molhos como o Bulhão Pato ou o clássico à guilho.

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No que diz respeito aos peixes, e às tradicionais sardinhas, o especialista refere que a partir da marca de um ano de idade não há limitações e todos podem ser consumidos pelos mais pequenos. “Os primeiros peixes a introduzir na alimentação das crianças devem ser os magros [pescada, linguado, peixe-espada, cherne, pargo] mas, a partir dos oito, nove meses, também já podem comer sardinhas.”