Foi quando entrou para a escola primária que Inês Madrinha percebeu que aquele suor excessivo que tinha desde sempre não era normal. “Molhava os cadernos todos e tinha sempre um paninho na secretária para ir secando as mãos”, conta à MAGG.

Dar as mãos nas típicas rodas de criança eram um momento do qual fugia sempre que era possível. Mais tarde, percebeu que usar sandálias ou chinelos também seria difícil, uma vez que os pés estão constantemente molhados e escorregadios.

Agora, aos 27 anos, é capaz de olhar para trás e ver que nunca se sentiu envergonhada pelas consequências da doença, mas admite que viver constantemente com gotas a cair das mãos, como se as tivesse acabado de as lavar, não é a melhor sensação do mundo. “Ainda hoje, que já tenho o problema praticamente resolvido, tenho dificuldade em dar um passou-bem ou dar as mãos, principalmente a desconhecidos”, refere.

O problema de Inês está “praticamente resolvido”, porque há três anos decidiu avançar para uma cirurgia, a medida mais drástica de tratamento, mas também a mais eficaz. É que ainda que a doença não afetasse a sua vida social, a não ser no tal primeiro contacto com desconhecidos, sentia que a estava a impedir de exercer a sua profissão em pleno. Inês é formada em medicina tradicional chinesa e, por isso, as mãos são ferramenta essencial para o trabalho de terapia e massagem que faz diariamente.

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A operação a que Inês se submeteu chama-se Simpaticectomia Torácica Superior Bilateral e consiste na colocação de um pequeno clip de titânio a bloquear o gânglio do nervo simpático responsável pela transpiração. Demasiado rápido? Voltemos então ao início.

Hiperidrose. O que é?

Vamos dividir o sistema nervoso em dois tipos, o central e o autónomo. “O primeiro está responsável por todos os movimentos que controlamos como, por exemplo, o abrir e o fechar a mão”, explica o dermatologista Pedro Ponte. Já o autónomo está relacionado com as funções que o nosso corpo faz, sem que tenhamos que pensar nisso, como a respiração, circulação do sangue, digestão ou a transpiração.

A hiperidrose acontece quando há uma desregulação do sistema nervoso autónomo que faz com que haja um estímulo maior do que devia às glândulas sudoríparas, que leva a um aumento exagerado de transpiração em zonas como as mãos, os pés e as axilas.

O médico divide ainda a hiperidrose em dois tipos: primário e secundário, sendo este último aquele que surge associado a outras doenças como o cancro, doenças neurológicas ou mesmo desregulações hormonais. “Neste caso, o suor acontece ou no corpo todo ou então de uma forma mais estranha como apenas de um lado do corpo ou só numa mão e num pé”, explica.

Inês insere-se no caso de hiperidrose primária porque, além de ter os sintomas desde criança, sofre de um suor excessivo, mas localizado, neste caso nas mãos e nos pés, o que nem é a condição mais comum. Sabe-se que dos cerca de 300 mil portugueses que sofrem da doença, mais de metade sua demasiado da zona das axilas. Zona que é também uma das mais fáceis de ver atenuado o suor, com a ajuda de antitranspirantes que — caia aqui um dos grandes mitos da cosmética — não provocam cancro.

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“Não há qualquer ligação entre o uso destes produtos e o aparecimento de um cancro. O antitranspirante, quando muito e por ter alumínio, pode causar irritações na pele“, refere Pedro Ponte que, por essa razão, aconselha que seja aplicado à noite, para evitar o período mais ativo do dia e aquele em que, devido ao calor, pode haver mais irritação cutânea. “O ideal será que a pessoa ponha o antitranspirante antes de ir dormir, para que faça efeito durante esse período de descanso, para de manhã pôr um desodorizante normal”, salienta.

E já que estamos centrados no suor das axilas, ficamos também a saber que, ao contrário do que se pensa, o suor não tem cheiro e, por isso, é errado pensar que uma pessoa com hiperidrose possa ter que lutar contra cheiros desagradáveis. “O suor é um líquido inodoro e o mau cheiro só acontece quando entra em contacto com microorganismos do exterior”, lembra o dermatologista, referindo, no entanto, que uma pessoa que sua em demasia tem, claro, mais probabilidade de vir a sentir esse mau cheiro.

Truques e tratamentos

Antes de decidir avançar para a cirurgia, Inês passou por todas as fases. Uma vez que os sintomas apareceram ainda em criança, houve tempo para passar pelo consultório de dezenas de dermatologistas, experimentar cremes e comprimidos e até para ponderar injetar botox nas axilas, um dos tratamentos mais comuns, mas cujo efeito se prolonga apenas entre seis a dez meses.

Esta é uma das técnicas apontadas pelo dermatologista Pedro Ponte como uma das possíveis soluções para o problema, mas admite que, antes de uma cirurgia, há que tentar vias menos agressivas.

Existem comprimidos que inibem o componente que é libertado pelo sistema nervoso autónomo e que provoca o suor excessivo. “Mas têm uma contrapartida”, lembra o médico, “podem inibir também outras funções e ter consequências como boca seca devido à diminuição da produção de saliva, ou obstipação, ao alterar os padrões de digestão”. Ainda na medicação oral, existem os medicamentos para reduzir a ansiedade, uma vez que parte dos doentes com hiperidrose admite sentir um pico dos sintomas em situações de stresse.

Num patamar acima está a iontoforese, um tratamento que usa elétrodos ligados a uma corrente de baixa intensidade, bloqueando a produção de glândulas sudoríparas. A resposta a este tratamento, explica o médico, é variável e não resulta na maioria dos doentes. O mesmo acontece com a aplicação de toxina botulínica, vulgo botox, que continua a não ser uma solução perfeita, uma vez que, pelos resultados de curto prazo, obrigam a uma repetição periódica.

A cirurgia mais invasiva, mas também mais eficaz, é a Simpaticectomia Torácica Superior Bilateral, que o dermatologista considera “até bastante simples e, se feita por um médico com experiência, não demora mais do que uma hora”. Mesmo assim, Inês é a prova que nem este tratamento tem resultados 100% seguros. “Apesar de ter melhorado imenso das mãos, que era a zona do corpo que mais me preocupava, o problema não ficou resolvido nos pés”.

E é exatamente por esta falta de certezas na eficácia dos tratamentos que Pedro Ponte partilha algumas dicas que podem ser usadas no dia a dia para minorar os efeitos, sem recorrer a métodos mais drásticos. Sabia, por exemplo, que existe uma espécie de pensos higiénicos para colocar nas axilas? São absorventes que se encontram à venda nas farmácias e se colam na roupa de forma a evitar as manchas de suor.

A roupa se for preta também evita que se notem as manchas de suor e o dermatologista lembra que o material sintético também ajuda a disfarçar esse efeito colateral. “Mas, por outro lado, também aumenta a temperatura do corpo”, refere.

Para os pés existem palmilhas que absorvem a humidade e, apesar de nem sempre ser o mais confortável, o mais aconselhável é usar sapatos fechados, “até porque dificilmente alguém com suor excessivo nos pés consegue andar de sandálias ou chinelos”.

Depois, existem os pequenos truques de quem sabe como fugir às consequências desagradáveis de suar em demasia como, por exemplo, andar sempre com lenços e e compressas e evitar o contacto com as mãos. “Quando alguém me chega ao consultório e não estende a mão para cumprimentar eu sei logo: tem hiperidrose”.