É uma eterna questão. Colocar os alimentos no microondas faz mal ou é inofensivo? Podem os nutrientes perder-se ou a estrutura dos alimentos alterar-se? Será este eletrodoméstico absolutamente massificado nos países desenvolvidos representar algum perigo para a saúde?

Carlos Fiolhais, conhecido ensaísta e professor universitário de Física, afirma que a internet está cheia de informação errada: “Se procurarmos por artigos sobre a utilização do microondas aparecem logo coisas tenebrosas.”

Essa informação não é, para o físico, de confiança: “Tanto quanto sei, é até uma das formas mais saudáveis de cozinhar os alimentos. Os fornos de microondas estão extraordinariamente difundidos e não há um mínimo indício — excepto se houver uma falha técnica e qualquer aparelho pode falhar — de que seja perigoso para a saúde”, explica. “Se houvesse, haveria alertas e rastreios das entidades competentes.”

Como é que o microondas aquece e cozinha a comida?

O eletrodoméstico tem o mesmo nome do que as ondas eletromagnéticas que emite, com comprimentos de onda maiores do que as das infravermelhas e menores de rádio.

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“É uma emissão de luz muito precisa, com um comprimento de onda muito bem definido, que é de 12,2 centímetros”, explica. Esta emissão “é capaz de mexer as moléculas de água” que estão dentro de praticamente todos os alimentos: “O aquecimento faz-se precisamente através do movimento das moléculas a mexer.”

Mas se é capaz de fazer mexer as moléculas da água, não será capaz de fazer mexer outras moléculas dos alimentos, alterando eventualmente a sua estrutura? Se sim, muito pouco e sem perigos para a saúde. “É uma molécula muito leve [a da água], que gira muito facilmente. As de açúcar ou de gordura podem ter uma distribuição de carga como a da água, mas são muito mais pesadas e não rodam tão facilmente.”

É por isso que o aparelho é seguro. As microondas utilizadas foram afinadas e pensadas exclusivamente para o funcionamento deste eletrodoméstico, cujo principal efeito “é, de facto, na água.” Assim se entende porque é que aquecer uma sopa é tão fácil: “Quanto mais água tem, mais facilmente aquece no microondas. Se não tiver água não aquece. A batata doce tem alguma água e por isso consegue aquecer-se e até cozinhar, dependendo do tempo que lá fica.” Tal como os seres humanos, as plantas e os animais são matéria biológica e, portanto, “são constituídos maioritariamente por água.”

Seja para aquecer, descongelar ou cozinhar de raiz, a DECO — Defesa do Consumidor garante que estas radiações não alteram a composição dos alimentos. “Os micro-ondas aquecem ou cozinham os alimentos agitando as moléculas de água presentes na sua constituição. Ao cortar a emissão de ondas, estas desaparecem de imediato sem deixar vestígios.”

Ao contrário daquilo que, por vezes, se lê, o aquecimento é feito de fora para dentro. “É normal, porque as microondas entram por fora.” A excepção, está, claro, se o alimento tiver mais água por dentro, como no caso do ovo: “Tem mais água na gema do que na clara e, por isso, ao evaporar, é possível que rebente.”

Sobre a preservação do perfil nutricional, segundo a Harvard Medical School, “por ter tempos de cozedura mais curtos, os microondas fazem um melhor serviço em preservar a vitamina C e outros nutrientes que se degradam com o calor.” Adianta ainda que cozinhar vegetais a vapor dentro e fora do microondas poderá ser melhor do que cozê-los em água, pelo facto de perderem grande parte das suas propriedades. “Brócolos a vapor conservam mais glucosinolato [componente anti-cancerigena], do que quando são cozidos ou fritos.”

De acordo com a mesma reputada universidade americana, “o melhor método para reter nutrientes é aquele que cozinha rápido e que aquece a comida no período de tempo mais curto, utilizando a menor quantidade possível de líquido.” O microondas vai ao encontro destas condições.

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Há, de facto, algum perigo?

Não há nenhum obstáculo à sua utilização, caso as normas sejam seguidas. As regras são poucas e apenas nos dizem que os plásticos que não estão preparados devem ficar de fora. E, mesmo assim, a culpa não é deste aparelho eletrodoméstico que surgiu no final da Segunda Guerra Mundial, quando se começou a usar a forma de radiação chamada microondas, para se fazerem radares — e que é a mesma usada hoje nos telemóveis e no GPS, por exemplo, embora os comprimentos de onda sejam diferentes.

A culpa é do calor: “É perigoso pôr qualquer coisa quente naqueles plásticos, seja no microondas ou não. Há plásticos que não se podem aquecer porque libertam substâncias nocivas para a comida”, avisa Carlos Fiolhais.

Soma-se a isto a introdução de objetos metálicos no microondas. Não deve ser feita porque eles têm “cargas que se deslocam” e que podem gerar faíscas. “Mas nada do que se passa no microondas, vem cá para fora. A caixa é uma espécie de gaiola, de jaula”, o vidro por onde espreitamos tem uma rede mais pequena do que o comprimento de onda das microondas que circulam dentro do aparelho.