Anna Delvey é uma mulher de 26 anos, nascida na Alemanha, e herdeira de uma fortuna milionária. Durante vários meses, esteve presente em todas as festas da elite de Nova Iorque e a sua história é tudo menos convencional. As boas roupas que usava, os hotéis de luxo onde ficava e as viagens caras que fazia para o resto do mundo colocaram-na no centro das atenções de algumas das figuras públicas norte-americanas. No entanto, sabe-se agora, só o primeiro nome é que era real.

O apelido, a nacionalidade e os milhões na conta bancária nunca existiram. Anna Delvey é, na verdade, Anna Sorokin. Uma mulher, natural da Rússia que, durante meses viveu sem um único dólar na conta mas que, mesmo assim, conseguiu ir ao bolso de grande parte da elite de Nova Iorque.

A vida luxuosa entre empréstimos e cheques em branco

Tudo começou em 2016 mas o caso tornou-se viral um ano depois através de uma reportagem da revista “New York” que traçou o perfil da impostora. Durante vários meses, Anna Delvey viveu num hotel de luxo na zona de Soho, em Manhattan, e pagava cerca de $400 (o equivalente a 342€) por noite. O estilo de vida que mantinha era financiado pelos vários empréstimos que contraiu, cheques em branco ou amigos que se ofereciam para pagar as despesas da falsa milionária.

Em outubro de 2017, Anna foi detida e acusada de roubo e fraude fiscal. Um ano depois, Shonda Rhimes (“Anatomia de Grey”) conseguiu os direitos da história que servirá como base para a sua nova série em exclusivo para a Netflix. Apesar de ainda não haver previsão para o lançamento, há muito para contar.

Desde gorjetas em viagens de Uber ou em refeições fora do hotel, ela dava dinheiro a toda a gente. Nunca me deixava pagar nada e parecia quase como que um jogo para ver se conseguia gastar mais dinheiro do que aquele que tinha”.

Grande parte deste perfil foi possível graças ao testemunho de Neffatari Davis. Uma mulher de 25 anos que trabalhava como concierge do hotel onde Anna ficou durante vários meses, e que se tornou na sua confidente até ao último momento.

O trabalho de Neffatari Davis consistia em sugerir roteiros, restaurantes ou programas para os hóspedes que procurassem conhecer Nova Iorque. E foi assim que ela e Anna se conheceram. Cada vez que sugeria um ponto turístico, um novo restaurante ou até uma discoteca divertida, a socialite retribuía com uma nota de $100.

À revista “New York”, Neffatari diz que durante a sua estadia, Anna se tornou na hóspede mais generosa de todo o hotel. “Os funcionários chegavam ao ponto de lutar entre si para ganharem o privilégio de poder levar as malas dela até ao quarto. Ou qualquer outra coisa que implicasse servi-la. Isso significava que, ao final do dia, ganhavas mais $100 em dinheiro”, revela.

Mas a generosidade de Anna estendia-se para lá dos funcionários do hotel e, grande parte do dinheiro que circulava em Nova Iorque podia muito bem ser da suposta milionária. “Desde gorjetas em viagens de Uber ou em refeições fora do hotel, ela dava dinheiro a toda a gente. Nunca me deixava pagar nada e parecia quase como que um jogo para ver se conseguia gastar mais dinheiro do que aquele que tinha”, continua.

Desde sessões de massagens ou de ginásio com um personal trainer contratado online, a sessões de manicura, Anna não poupava na extravagância. E chegou mesmo a comprar um pacote com tudo incluído para si e para a amiga. O preço? Cerca $4,500, o que corresponde a mais ou menos 3,849€.

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Além dos bancos, eram também os amigos que pagavam as despesas de Anna

De repente, Anna estava em todo o lado. “Ela tinha a capacidade de estar no lugar certo à hora certa”, revela uma das figuras que privou com ela em várias festas e eventos. Mas apesar das roupas luxuosas, nunca ninguém percebeu bem de onde vinha ou qual a origem da sua fortuna. Mas isso não parecia ser um problema.

Não era muito dinheiro, qualquer coisa como dois ou três mil dólares. Eventualmente ela esqueceu-se, e eu também.”

Quando Anna e Michael Xufu Huang, empresário e fundador do museu M Wood, em Beijing, se conheceram, Huang achou estranho que a socialite o tivesse convidado para uma exposição de arte em Veneza, em Itália. Mais ainda quando sugeriu que fosse ele a comprar a viagem e a reservar um hotel com o seu cartão de crédito. “Achei estranho mas não liguei muito, até porque ela disse que depois me pagava.”

Não era muito dinheiro, qualquer coisa como dois ou três mil dólares. Eventualmente ela esqueceu-se, e eu também”, diz o empresário. Segundo Jessica Pressler, a jornalista da revista “New York” responsável pela reportagem que se tornou viral, quando se é rico é permitido esquecer-se destas “pequenas” quantias.

E talvez esteja aí a possível explicação para que nunca ninguém tenha suspeitado de Anna quando esta tinha algumas atitudes pouco comuns. Como ligar a uma amiga para que ela lhe chamasse um táxi para casa, pedir para partilhar o quarto com alguém ou até mesmo dividir uma casa na certeza, porém, de que ambos dividiriam o valor da renda.

As dívidas, a falta de dinheiro e o princípio do fim da falsa milionária

Claro que esse valor nunca era dividido e Anna Delvey nunca pagava o que devia. Ia vivendo assim o seu dia a dia, arranjando sempre alguém que se encarregasse das suas despesas. Quando não eram os bancos onde tinha contraído demasiados empréstimos, eram os amigos mais próximos que asseguravam a vida luxuosa da suposta milionária.

Mas não tardou muito para que o plafond milionário da socialite chegasse ao fim. Numa noite, recorda a concierge, Anna pediu-lhe que reservasse uma mesa para duas pessoas num restaurante luxuoso em Nova Iorque. No ato do pagamento, todos os cartões de Anna foram recusados.

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“Eram para aí 12 cartões e o funcionário do restaurante testou-os a todos. Ele abanava a cabeça cada vez que um cartão era recusado e eu só suava por antever que tinha de ser eu a pagar uma conta destas”, conta Neffatari à revista.

O valor da refeição rondou os $286 (ou 244€) e embora fosse uma pequena fração daquilo que Anna costumava gastar no seu dia a dia, continuava a ser muito caro para Neffatari cobrir sozinha. Ainda assim, conta à revista norte-americana, transferiu o dinheiro da sua conta poupança e pagou o valor da refeição na totalidade.

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TED

Entendeu que depois da quantidade exorbitante de dinheiro que Anna tinha gasto consigo (através de jantares, gorjetas ou até do financiamento do seu filme amador), era agora a vez de ser ela a pagar alguma coisa à amiga. Mas os problemas não se ficaram por aí e os dirigentes do hotel exigiram que a milionária associasse um cartão de crédito à sua ficha de hóspede, já que as despesas continuavam a amontoar-se e Anna insistia em pagar tudo com dinheiro.

Depois de vários avisos, sem sucesso, os funcionários mudaram o código do quarto de Anna e guardaram todos os seus pertences no armazém. Era o princípio do fim. “Não podem fazer isto”, terá dito. Mas fizeram e não voltariam atrás.

Mas para a impostora não havia problema. Havia muitos mais hotéis onde pudesse ficar e continuar a sua vida de luxo. Reservou a estadia num outro hotel de luxo, confirmou e pagou tudo em dinheiro. Problema? As despesas voltaram a amontoar-se e ambos os hotéis apresentaram queixa contra a suposta herdeira de uma fortuna incalculável.

Já presa, Anna não se mostra arrependida

“Porque é que estão a fazer uma tempestade num copo de água sobre este assunto? Em cinco minutos consigo que um amigo meu venha aqui pagar o que devo”, terá dito à polícia no momento em que foi detida. E o mais provável é que talvez conseguisse mesmo, mas o dano estava feito e a vida luxuosa de Anna tinha acabado de chegar ao fim.

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Já detida, descobriu-se que as depesas em hotéis ou restaurantes de luxo eram apenas uma pequena parte de tudo o que tinha feito. Em novembro de 2016, pediu um empréstimo de mais de 22 milhões de dólares (18 milhões de euros) justificou-o com documentos assinados que confirmavam ser herdeira de uma fortuna de mais de 60 milhões de euros, depositada numa offshore na Suíça.

“Espero que seja a Jennifer Lawrence ou a Margot Robbie a interpretar o papel de Anna na série. Tudo menos a Lindsay Lohan, que nada tem a ver comigo”.

No mês seguinte fez o mesmo, mas com outro banco. Só que este exigiu um depósito de mais de $100,000 (o equivalente a 85,000€) para assegurar que o processo decorria com a naturalidade esperada. A linha de crédito que tinha sido aprovada no primeiro banco foi usada para garantir o segundo empréstimo. Mas quando um representante tentou averiguar a existência da suposta fortuna, Anna desistiu.

Não sem antes gastar toda a linha de crédito do primeiro em empréstimo em roupa, telemóveis, acessórios, hotéis e restaurantes.

À revista “New York”, os pais — que desejaram manter o anonimato por vergonha das ações da filha —, garantem que nunca houve fortuna nenhuma, e que não percebem o que levou Anna a fazer tudo isto. Anna está presa desde 2017, a aguardar julgamento por roubo e fraude fiscal e arrisca-se a uma pena de prisão de até 15 anos.

A jornalista que privou com ela durante meses para a reportagem, diz que em nenhum momento a jovem terá demonstrado arrependimento. “Os meus pais sempre confiaram no meu discernimento, aposto que não estão tão contentes agora”, contou.

Desprovida de maquilhagem, óculos de sol luxuosos ou roupa cara, Anna Sorokin é uma simples rapariga que fez mais do que aquilo que alguma vez poderia suportar, numa história com inúmeros detalhes complexos. E até já sabe que as suas ações vão servir como inspiração para uma série da Netflix.

“Espero que seja a Jennifer Lawrence ou a Margot Robbie a interpretar o papel de Anna na série. Tudo menos a Lindsay Lohan, que nada tem a ver comigo”, terá dito à jornalista quando esta a visitou à prisão para a reportagem.