Aquiles Filipe é neto de Aquiles José, filho de Aquiles Delfim e pai de Aquiles Gustavo e de Aquiles Afonso. A insistência em perpetuar o nome é apenas um pormenor de uma família que se alimenta do orgulho numa história comum, quando em comum têm também o apelido Brito.

Basta juntar dois mais dois e subtrair as grafias de outras épocas para que estas várias gerações de Aquiles se fundam num nome que, esse sim, é familiar a todos os que o ouvem: Ach Brito, a empresa que associamos aos sabonetes de embalagens bonitas, mas que é tão mais que isso.

Afinal, são cem anos de história, assinalados em Julho, e que, bem trabalhados — alerta produtores — eram dignos de adaptação ao cinema. É que como todo o bom filme, também aqui já houve momentos de glória e fracasso, episódios que quase pareciam ser os derradeiros, e capítulos, como o atual, que se fosse o último, seria um final feliz.

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“Se pensarmos bem, esta é uma empresa que sobreviveu a coisas tão importantes como a passagem da monarquia para a república, duas guerras mundiais, um Estado Novo, um 25 de Abril, uma abertura a novos mercados com a entrada na União Europeia e, mais recentemente, uma grave crise económica”, recapitula Aquiles (o Filipe) de Brito, da quarta geração de uma família que nunca deixou o negócio cair em mãos alheias.

Os sabonetes da Claus Porto são feitos um a um

Ainda que a primeira fábrica nacional de sabonetes e perfumes, na altura batizada de Claus & Schweder, tenha sido fundada em 1887 por dois alemães radicados em Portugal, Ferdinand Claus e Georges Schweder, não demorou muito tempo a passar para mãos portuguesas. Em 1903, Schweder retira-se do negócio e Claus propõe parceria no negócio ao seu colaborador português Achilles Brito que fica gerente único da mesma quando pelo meio se mete uma primeira Guerra Mundial que dita que uma empresa estrangeira seja expropriada e nacionalizada.

Aquiles de Brito, bisneto do fundador, é o atual líder da empresa

Victor Machado/Bluepeach

Em 1918, já como único detentor da empresa, Achilles continua a produzir fragrâncias, sabonetes e produtos de beleza, integrando a Claus & Schweder numa empresa que se atualiza também no nome para passar a ser Ach.Brito.

Acredito piamente que se não apostássemos a sério na tradição, a empresa já não existia. É isso que nos torna diferentes”.

Seguem-se décadas a liderar mercados e a inovar – foram a primeira marca de sabonetes sólidos a fazer gel de banho em Portugal, por exemplo – e, atualmente, a fábrica mantém duas linhas de fabrico: a Claus Porto e a Ach. Brito. Esta última engloba os produtos feitos em série para serem vendidos nos supermercados e em cadeias de hotéis e dos quais fazem parte os emblemáticos sabonetes Patti ou a água de Colónia Lavanda, os dois produtos que, segundo nos confidencia Aquiles Brito, bisneto do fundador e atual líder da empresa, continuam a ser os mais vendidos.

“A água de colónia estava em todas as casas de banho dos aviões da TAP, por exemplo, e como estamos a falar de décadas de ponte aérea com África, isso trouxe muita notoriedade à marca”, refere Aquiles. Já a linha Claus Porto é a linha mais requintada e mais emblemática. É por aqui que encontra os produtos genuínos que mantém as características, os ingredientes e o processo de fabrico de antigamente. São feitos um a um, de forma artesanal, desde a moldagem ao embalamento.

Achilles de Brito, o fundador da empresa

Aquiles acredita que este método tradicional de produção foi, por um lado, “difícil de manter face à facilidade que seria ter uma fábrica convencional”, mas, por outro lado, a salvação da marca. “Acredito piamente que se não apostássemos a sério na tradição, a empresa já não existia. É isso que nos torna diferentes”.

Das visitas ao avô à liderança da empresa

A fábrica, montada ali próximo da Avenida da Boavista, no Porto, era para Aquiles a casa do avô. “Não só porque ele estava sempre lá, mas também porque tanto ele como nós vivíamos nos arredores da cidade e os acessos não eram o que são hoje”, conta. Além disso, nada na altura lhe parecia mais divertido do que enfiar-se por entre as máquinas de produção para ver os sabonetes a sair. “Vinha sempre de lá com um no bolso da algibeira”.

Quando avô morreu, foi o tio de Aquiles que ficou a liderar a empresa, uma vez que o seu pai tinha falecido em 81.  Conseguiu que a produção nunca parasse, mas já não tinha a força de outros tempos. De tal forma que, em 1993, aborda Aquiles e a irmã Sónia para que, juntos pensassem num futuro para a empresa. “Como queria vender tudo, propôs-nos que fizéssemos isso em conjunto ou que eu lhe comprasse a parte dele”, explica. Pediu-lhe uma semana para pensar mesmo que tenha saído daquela conversa com uma ideia em mente: “Não podia ser eu a a pôr fim a uma marca que sobreviveu a tanto”. Falou com a irmã e os dois pegaram numa marca em total declínio.

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A juntar a isso estava o facto de Aquiles, então com apenas 22 anos, ter zero experiência na área. “Foi o meu primeiro emprego”, garante, admitindo que quase tão difícil como levantar uma empresa foi provar aos outros que era capaz. “Os funcionários da fábrica, os mesmos que me davam sabonetes para eu pôr na algibeira, eram agora os meus funcionários. Foi difícil impor algum respeito a pessoas que ainda me viam como o miúdo de quatro anos a pedir atenção”. É que naquela fábrica, houve quem trabalhasse durante 70 anos. “Começavam numa altura em que com 14 anos já era normal trabalhar e, como a produção nunca parou, ficavam até ser fisicamente possível, alguns até aos oitenta e muitos”, refere.

Quando assumiram o controlo da Ach.Brito, Aquiles e Sónia perceberam que o chip tinha que mudar. “Se fomos pioneiros durante décadas, agora já não conseguíamos competir num mercado cheio de produtos de higiene convencionais”, explica. Sabiam que tinham que marcar a diferença e, nesse campo, só a história jogava a favor. Abandonaram a estratégia obsoleta virada para o pequeno comércio e drogarias para se focarem na produção de produtos premium, já com fábrica montada em Vila do Conde, levando assim os produtos tradicionais com os rótulos de nostalgia à grande distribuição.

Para esse processo foi essencial a parceria com o investidor norte-americano Jon Bresler que decidiu pegar na Claus Porto e investir em produtos vintage que, na década de 90, já eram vendidos em lojas da Quinta Avenida, em Nova Iorque, para só mais tarde passarem a ganhar lugar também em Portugal.

Dar a volta

Hoje vende em mais de 60 países, em algumas das melhores lojas do mundo. É o caso da Bergdorf Goodman, nos Estados Unidos, Liberty London, no Reino Unido e na Printemps, em França.

Em Portugal, o arranque mais visível deu-se com a abertura das lojas A Vida Portuguesa, até porque a Ach. Brito é uma das acionistas da loja do Porto, cidade onde abriu recentemente uma loja da Claus Porto.

Não foram os 15 minutos de fama dos quais falava Andy Warhol, mas bastaram-nos uns dois minutos de Oprah para ver a empresa dar um salto.”

“Nada me dá mais prazer do que ver os nossos produtos a voltar à casa das pessoas”, admite Aquiles, já que na sua nunca se usou outra coisa. “Lembro-me de ver em todas as casas de banho da família aquelas garrafas de vidro da Vista Alegre, feitas para servir vinho do Porto ou whisky, mas que nós usávamos para encher de água de colónia”, conta.

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Aquiles não lamenta que o sucesso tenha vindo de fora para dentro, porque sabe que os portugueses nunca deixaram de apreciar a qualidade dos produtos. “Sinto cada vez mais que vivemos uma época de retorno à tradição e a Ach. Brito acaba por ser um exemplo disso”, admite.

Mesmo assim, nada como ter uma Oprah Winfrey a recomendar, durante o seu programa, o sabonete da marca portuguesa Claus Porto. No dia seguinte, os sabonetes desta gama esgotaram no mercado norte-americano. “Não foram os 15 minutos de fama dos quais falava Andy Warhol, mas bastaram-nos uns dois minutos de Oprah para ver a empresa dar um salto”, lembra Aquiles.

Assim como quando a Monocle dedicou duas páginas à marca portuguesa numa edição da revista sobre exemplos de empresas de sucesso. O texto começa por assumir que para Aquiles de Brito, o “doce aroma do sucesso é algo do dia a dia”. Estamos a festejar cem anos, a suposição não deve estar longe da verdade.