Alexander Dorf tinha 16 anos quando encontrou a sua mãe biológica. Depois de anos a tentar descobrir as suas raízes, com o apoio dos pais adotivos, chegou o dia em que o jovem norte-americano abriu uma mensagem privada no Facebook, apenas com uma questão: “Olá, os teus pais chamam-se Jamie e Jeff?”.

A remetente da mensagem era Terri Barber, a mãe biológica de Alexander, e este reconheceu de imediato o seu nome. Com base nas informações cedidas pelos pais, passou anos no Facebook a pesquisar pela progenitora, sempre sem sucesso. Acabou por ser a mãe biológica a encontrá-lo.

Assim que Terri Barber recebeu uma resposta positiva à sua questão, enviou de imediato um email aos pais do seu filho biológico, explicando que apenas queria confirmar se estava a falar com a pessoas certa, mas demonstrando interesse de retomar contacto com o jovem.

Esta história, relatada num artigo do “The New York Times”, é apenas um dos muitos exemplos de uma tendência real — a utilização das redes sociais, nomeadamente do Facebook, para filhos adotados encontrarem a sua família biológica, bem como pais que tenham entregue crianças para adoção retomarem contacto com os seus filhos biológicos.

No mesmo artigo, conhecemos a história de Linda e Zev Wachtel, um casal que adotou a sua filha, Jessi, há 19 anos. Com a noção de que, eventualmente, a filha iria querer saber mais sobre a sua família biológica, os Wachtels foram honestos desde o início sobre o tema da adoção e cederam-lhe todos os dados que tinham.

Como estar seguro no Facebook?

Porém, os factos não abundavam. Há quase 20 anos, a adoção aberta era um tema mais complexo e o contacto de Linda e Zev com a mãe biológica de Jessi, Sharyn Padula, tinha sido curto. O apelido da mãe biológica nunca tinha ficado documentado e contactavam apenas por um número provisório (através de um cartão pré-pago), número esse que tinha sido cancelado pouco depois da adoção se concretizar. Por uma questão de segurança, nenhum outro dado como moradas, telefones e locais de emprego haviam sido trocados.

Anos depois, ansiosos por ajudar a filha a conhecer as suas raízes — “Eu só queria saber como ela era”, conta Jessi ao The New York Times, referindo-se à mãe biológica —, Linda fazia constantes buscas no Facebook por Sharyn, tentando várias vezes todos os apelidos que podiam fazer sentido ou lhe pareciam vagamente familiares.

Até que uma dessas buscas se revelou proveitosa. Por instinto, Linda tentou o apelido Padula e quando a fotografia de perfil de Sharyn Padula surgiu, não lhe restaram dúvidas. “Era como estar a olhar para uma foto da minha filha.”

Depois de contactar a mãe biológica, Linda Wachtel descobriu que Sharyn Padula procurava pela filha há cerca de 19 anos, muito pouco tempo depois de a ter entregue para adoção, situação de que se tinha arrependido quase de imediato.

Porém, com o número que usava para contactar a família adotiva cancelado, e sem quaisquer outros dados, a sua busca fui infrutífera durante quase duas décadas. Também Sharyn Padula tinha recorrido várias vezes ao Facebook em busca da filha, dado que sabia que os Wachtels tinham dado o nome de Jessica à menina. Pesquisou várias vezes por esse nome, bem como por outros diminutivos como Jessie, Jessy, Jessica e Jessyca, mas nunca Jessi.

O Facebook está a ser utilizado para reunir pais e filhos biológicos

Nos Estados Unidos, as redes sociais como o Facebook tornaram-se o veículo primordial para pessoas adotadas encontrarem a sua família biológica. No Reino Unido, um estudo realizado pela British Association for Adoption and Fostering revelou que 53% das crianças adotadas no país tentam encontrar os pais através desta rede social.

O Facebook é, sem dúvida, a ferramenta mais fácil que existe para realizar essa busca.”

Mais, no caso do Reino Unido, esta tendência gerou problemas. Em entrevista ao “Daily Mail”, e após relatos de crianças que fugiram das suas casas após o contato com os pais biológicos, um representante do Facebook afirmou a preocupação da empresa em relação ao problema e orientou os pais a utilizarem as configurações de privacidade da página para acompanhar a vida virtual dos filhos.

Em Portugal, onde no ano de 2016, 361 crianças tiveram medida de adotabilidade decretada pelo tribunal (dados do Relatório CASA 2016 — Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens), o Facebook também é utilizado para saber mais sobre a família de origem?

Elsa Braga, psicóloga e representante da Bem Me Queres — Associação de Apoio Adopção de Crianças, diz que sim. “Quando os jovens têm acesso a alguma informação e o desejo de procurar a família biológica, tentam pesquisar sozinhos, pelo menos numa primeira fase. O Facebook é, sem dúvida, a ferramenta mais fácil que existe para realizar essa busca.”

Seja por terem acesso aos registos de adoção da Segurança Social (o aceso é permitido a partir dos 16 anos, desde que com a autorização legal dos pais, ou após os 18 anos), à certidão de nascimento, por terem recebido informações dos pais acerca da família biológica ou até mesmo por recordações próprias, dado que muitas crianças podem ser adotadas mais crescidas e terem memórias anteriores à adoção, existem informações que as crianças e jovens podem recolher para completar a pesquisa nas redes sociais.

“Quando já têm alguns dados recorrem muito ao Facebook para descobrir quem são os pais biológicos. Com um nome que ouviram ou leram e a associação geográfica, é muitas vezes possível chegar à família biológica”, conta à MAGG Elsa Braga.

As redes sociais são a forma mais fácil de encontrar as origens — mas será a mais indicada?

O Facebook é um motor de busca poderoso, útil e, muitas vezes, certeiro. Mas será esta a forma mais indicada para uma criança ou um jovem descobrir a sua família biológica, sem qualquer preparação? A resposta é não, pelo menos de acordo com a psicóloga Elsa Braga.

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“É importante que este processo da busca das origens, por ser tão complexo, seja, quando possível, mediado por apoio profissional, para além do apoio dos pais”, salienta a especialista, que afirma que, muitas vezes, os filhos adotados podem não estar preparados para o que vão encontrar.

Como explica Elsa Braga, existe sempre uma razão pela qual as crianças foram entregues para adoção ou retiradas às famílias biológicas. “Existem diversos motivos para uma situação de adoção, e é importante ter isso em mente. Há, da parte das crianças e jovens adotados, muita idealização sobre quem e que tipo de pessoas serão os elementos da família biológica.”

Devido às expectativas criadas, a psicóloga alerta que não considera que a pesquisa individual e através do Facebook seja a melhor opção. “Os jovens podem deparar-se com situações mais complicadas que não antecipavam de todo e é de notar que, para os indivíduos menos preparados psicologicamente, isto pode traduzir-se num choque”.

Mesmo que exista uma busca inicial sem apoio, Elsa Braga aconselha que, sempre que se verifique uma atitude de apoio por parte dos pais, “a pesquisa pela família biológica deve ser feita em conjunto, em família, com recurso a ajuda profissional para apoio psicológico e, possivelmente, com a associação ou organismo que apoiou a adoção”.

Encontrar as origens. Mais do que curiosidade, é sobre construir uma identidade

É um sentimento comum a todas as pessoas adotadas — todas elas se questionam sobre as suas origens. “Imaginam, projetam ideais sobre quem seriam os pais e a família biológica. Esta busca, seja interna ou externa, trata-se, na realidade, de uma forma de construir a identidade”, explica a psicóloga.

Todos [pessoas adotadas] imaginam, projetam ideias sobre quem seria a família biológica. Daí até irem aos registos acho que não tanto, nem todos o fazem.”

De acordo com a especialista, mesmo as crianças que foram adotadas numa idade mais tardia (e que possam ter algumas memórias da família, mais dispersas) têm necessidade de sentir um contínuo na vida, na sua história pessoal, na sua identidade.

A busca pela família biológica “acaba por ser uma necessidade de auto-conhecimento, de preencher falhas de informação, necessárias para a construção da identidade”, explica a representante da Bem Me Queres, que alerta que esta “pode ser uma necessidade mais óbvia ou mais tranquila, depende das idade dos indivíduos”.

Transversal a todas as faixas etárias, Elsa Braga realça que esta questão sobre as origens não surge apenas quando as crianças adotadas já são adultas. “Mesmo em idade escolar, por volta dos sete, oito anos, as crianças vão-se já perguntando sobre a família biológica.”

A psicóloga explica que todos os indivíduos adotados passam por uma busca: a diferença é se esta é externa ou interna. “Há crianças, jovens e adultos que querem mesmo saber de onde vieram, procurar, ver a família biológica e interagir com ela — a isto damos o nome de busca externa. Depois existe a busca interna, que passa pelo perguntar, imaginar a família. Esta busca interna, todas as crianças que foram adotadas o fazem. Todos imaginam, projetam ideias sobre quem seria a família biológica. Daí até irem aos registos acho que não tanto, nem todos o fazem.”

Ter um motivo específico para a busca da família pode ajudar a reduzir a tensão do reencontro

São vários os motivos que levam a alguém a querer procurar a sua família biológica: tentar perceber o porquê de ter sido retirado à família ou entregue para adoção, saber se tem irmãos, se existem avós ou mesmo querer saber algum historial genético por razões de saúde.

Quando a busca pela família biológica se revela proveitosa, o reencontro nem sempre é fácil. Elsa Braga relata que estes são “momentos de grande tensão para a pessoa adotada, independentemente da idade”.

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Devido ao ajuste de expetativas, que é comum a todos estes encontros, a psicóloga recomenda que estes momentos sejam bem preparados. “Se o jovem ou o adulto for com um propósito mais específico, com o motivo que o levou a procurar a família em mente, isso pode ajudar a que a ocasião seja um pouco mais fácil de integrar”, conclui a especialista, que acredita que as motivações podem ajudar a dar sentido ao encontro.