Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que um disco de “Os Sims” entrou no meu computador. Era o primeiro jogo do franchise, lançado em 2000, e era uma coisa totalmente nova e diferente daquilo que existia no mercado. Passados os primeiros momentos de confusão, e das questões existenciais do género “o que é que eu tenho de fazer aqui?”, não tenho medo de admitir que foi o meu grande vício durante anos — até para aí 2002 quando saiu o “RollerCoaster Tycoon 2”, aquele simulador eletrónico de parques de diversões onde o mais giro era rebentar com as montanhas-russas e estragar o divertimento dos visitantes.

O jogo foi um sucesso lá em casa, no meu grupo de amigos, em Portugal e no mundo. Tanto que depois desse saíram mais três versões, todas elas com complementos pelo meio que davam conteúdo extra aos jogos base. Foi um jogo que marcou uma geração e entristece-me saber que, a partir de esta quinta-feira, 5 de julho, muitos miúdos não vão poder sentir aquilo que eu senti quando joguei “Os Sims” pela primeira vez.

É que a Electronic Arts (EA), a empresa responsável pelo desenvolvimento do jogo, anunciou recentemente, através de um comunicado oficial nas suas plataformas, que em países como a China, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, Omã, o Kuwait, o Catar e o Egito, o jogo para telemóveis — que foi lançado em março — deixará de estar disponível nas lojas online por “não estar em conformidade com as regras regionais”.

A situação, já de si grave, piora quando, com uma breve pesquisa, se descobre que em muitos destes países a versão física do jogo para computador já não está disponível para compra. O mesmo com a versão digital onde, por exemplo, na China está completamente proibida.

Apesar de a EA não desenvolver muito mais acerca do que são estas “regras regionais”, o tom do comunicado parece antever que se trata do tipo de conteúdo que é mostrado no jogo para telemóveis e computadores — onde as personagens masculinas podem engravidar ou o casamento entre parceiros homossexuais é permitido.

Crónica. Dói, mas alguém tem de vos dizer isto: vocês não são a Madonna

Como se atrevem? “Os Sims” foi um dos jogos mais importantes da minha vida, não só porque me ensinou regras básicas de como viver em sociedade, mas também porque me deu aquela noção de responsabilidade numa altura em que as minhas maiores preocupações passavam por decidir que jogo experimentar a seguir.

Descobri que se deixasse a comida ao lume e me distraísse com outra qualquer atividade, o mais provável era ficar com a casa queimada. Ou a importância de planear e poupar para conseguir aquela piscina gigante para toda a família virtual que tinha criado horas antes.

Ainda me lembro do momento em que depois de tanta poupança no jogo, me apercebi que o espaço no quintal era muito reduzido e incapaz de comportar uma piscina daquele tamanho. Toca a refazer o jogo inteiro, a poupar e sofrer para, no final de tudo isto, descobrir que naquela nova localização também não era possível ter uma piscina, já que o solo era demasiado irregular.

Não vou negar que, por vezes, o jogo me levava ao limite com tanta frustração. Quem nunca deixou os Sims morrerem à fome de tão irritantes que se tornavam? Ou quem nunca lhes tirou as camas numa altura em que o boneco só pedia descanso? Pois, todos nós nos tornámos pequenos monstrinhos sádicos, precisamente porque não havia limites. Tínhamos carta branca para explorar, experimentar e testar tudo — sem medo das consequências.

K-pop. Guia para entender o fenómeno coreano (e a pressão desumana sobre os artistas)

Com a devida educação em casa, conseguia perceber sem grande esforço que aquilo era apenas um jogo e que havia certas atitudes que não eram aplicáveis fora daquele universo. Mas “Os Sims” eram como que um escape ao normal, ao rotineiro, e às convenções. Uma alternativa aos dias maus, no fundo.

E eu só penso naqueles miúdos que vão deixar de ter a oportunidade de sentir o que eu senti. De viver o que eu vivi e de, mais tarde, terem a mesma sensação de nostalgia que me fez escrever este texto, e de conhecer um meio onde podiam dar azo à criatividade sem medo de serem julgados. Por favor, não matem “Os Sims”.