“Plocka upp”. A expressão poderá não dizer-lhe nada, a não ser que saiba falar sueco. Significa ‘apanhar’ e é um dos termos que, em conjunto com “jogging”, cria a palavra “plogging”, a nova tendência que une o universo do fitness com o da sustentabilidade. Como? É simples: de saco na mão, basta aproveitar as corridas ou caminhadas que faz para ir apanhando o lixo que encontra no percurso.

A moda foi lançada na Suécia, mas já se espalhou pelo resto do mundo. Chegou à Finlândia, ao México, aos Estados Unidos, à Rússia, à Alemanhã. Uma pesquisa no Instagram pelo hashtag plogging mostra-nos 17.121 publicações relacionadas, sendo que já foram criadas variantes para diferentes países.

Em Portugal ainda só há cinco. Uma delas é de Marta Leitão, conhecida bodyboarder que já alinhou na iniciativa: “Vi numa notícia numa revista online, achei o conceito interessante e decidi investigar um pouco mais. Moro na Ericeira, que é uma zona excelente para correr pela sua envolvência natural e costumo fazer as minhas corridas por aqui, sempre com o mar como pano de fundo. Um dia decidi juntar o útil ao agradável e levar um saco para ir recolhendo o lixo pelo caminho, que acabou por funcionar como uma motivação adicional”, conta à MAGG. Percorreu o caminho entre a sua casa e a praia da Foz do Lisando, que estava com um areal “particularmente sujo.”

“Quando colocamos a atenção no lixo, ficamos totalmente focados na tarefa, estamos mais presentes e tornamo-nos também mais conscientes daquilo que ainda é preciso mudar no que diz respeito a comportamentos.”

Percorridos os cinco quilómetros de ida e de volta, a sensação é, relata, de missão cumprida: “Além de pôr o corpo em movimento estamos também dar um pequeno contributo ambiental e a passar uma mensagem importante e isso é muito gratificante. Quando partilhei a foto dessa experiência fiquei a saber que outras pessoas já praticavam na zona, e é sem duvida uma experiência a repetir.”

Em junho, a Associação ambientalista Zero — Associação Sistema Terrestre Sustentável anunciou que Portugal havia esgotado os recursos naturais de 2018, ou seja, que começaria a usar aqueles destinados a serem utilizados a partir de janeiro de 2019. Avançou ainda que, se todos os países vivessem assim, seriam necessários 2,19 planetas para sustentar as necessidades de recursos.

Tentei passar um dia sem usar plástico. Não passei do pequeno-almoço

Apesar de uma adesão pouco significativa no País, o plogging pode vir a aumentar em Portugal, tanto que já existe uma página de Facebook  portuguesa, criada em junho. O Movimento pelo Desenvolvimento Interior também já abraçou a iniciativa, através da organização da atividade, todas as semanas, em Mirandela.

“Eu e um colega vimos num vídeo [que mostramos a baixo] e decidimos começar. Fomos apenas três e agora o grupo vai aumentando”, conta à MAGG Isaac Freitas, 17 anos, um dos membros mais novos e um dos fundadores do movimento (em conjunto com David Moreira e Ruben Taveira). Composto maioritariamente por estudantes universitários, nasce para tentar colmatar as dificuldades desta região do País, dinamizando-a com a criação de diferentes iniciativas e atividades. “Queremos tentar mudar alguma coisa e tornar a nossa região economicamente voltada para os jovens e para o mercado de trabalho.”

“Sempre vi a minha cidade repleta de lixo. Acho muito triste passar por um parque, um terreno verde ou uma escola  e ver tudo repleto de lixo”, lamenta. As distâncias vão até cinco quilómetros. Os sacos utilizados são de 50 litros e já foram recolhidos, em apenas três vezes, 750 litros. “Queremos chegar aos dez mil litros.”

A sustentabilidade ambiental é uma das preocupações do MDI, que criou a iniciativa 100 Dias, Sem Plástico, que visa diminuir a utilização deste material no Agrupamento de Escolas de Mirandela.

O Movimento pelo Desenvolvimento do Interior a treinar os braços e as pernas com o lixo que recolheu

Erik Ahlström foi o sueco fundador da ideia. Na página oficial de Facebook lê-se que se trata de uma “organização oficial e movimento popular”, em que se apanha lixo enquanto se pratica jogging. No entanto, ressalva que também é possível praticar a atividade enquanto se “anda, pedala, anda de skate ou bicicleta”, por exemplo. Aquilo que interessa mesmo é que se pratique desporto enquanto se cuida do meio ambiente.

Na página de Facebook vão disseminando-se os princípios da organização e da atividade: “É sobre fazer qualquer coisa pelo ambiente e pela saúde, antes que seja tarde demais”, pode ler-se. “Encontrámos a solução para o problema que faz com que deixe de ser tabu apanhar lixo do chão e limpar.”

E se em vez de vários copos, utilizasse o mesmo a noite toda?

Apesar de a tendência ser recente, a prática não é totalmente nova. Em 2014, o humorista e escritor americano David Sedaris dava cerca de 60 mil passos diários enquanto apanhava lixo nos distritos de West Sussex. Os resultados de limpeza foram notórios, tanto que as autoridades locais decidiram homenageá-lo, com uma mensagem num dos carros de recolha de lixo: “Obrigada David por ajudar a manter o bairro limpo.”

Além da responsabilidade ambiental e social, que outras vantagens tem o plogging? De acordo com a plataforma Lifesum, uma hora a praticar plogging (sim, a atividade já entra na lista de desportos), gasta cerca de 660 calorias, mais 120 do que a praticar apenas jogging.

O facto de estar num para-arranca constante e de se estar a baixar muitas vezes poderá tornar a atividade desafiante e puxada, caso vá mesmo a correr ou a praticar outro desporto fisicamente estimulante. A personal trainer Marta Santos explica à MAGG que o plogging pode ser bom para treinar pernas e rabo, ao mesmo tempo que aumenta a frequência cardíaca. Portanto, mais calorias gastas.