21 perguntas a um estafeta de pizzas (que num mês foi assaltado três vezes)

Muitas encomendas são roubadas, e a humilhação e violência são constantes. A realidade de um estafeta de pizzas na Grande Lisboa.

O estafeta com quem a MAGG falou diz que já foi abordado das mais variadas formas e que nunca viveu momentos de pânico e medo tão intensos até começar a trabalhar na área

Domingo, último dia de descanso antes de mais uma semana de trabalho e, geralmente, dia de pizza para o jantar. O telefone toca com um número desconhecido e do outro lado há uma voz que nunca tinha ouvido na vida.

“Olá, Fábio. Daqui é o seu distribuidor de pizza. Não se importa de descer para vir buscar a encomenda? Essa zona é alvo de assaltos e já vários colegas meus foram roubados junto à sua porta”, ouvi do outro lado da linha, quando já me tinha esquecido que tinha pedido duas pizzas horas antes.

“Não tem problema, vou descer”, e desliguei a chamada com a desconfiança natural de quem nunca tinha ouvido falar em assaltos a estafetas de pizzas na Grande Lisboa. Desci preparado para fazer mil e uma perguntas ao rapaz que se iria encontrar comigo à porta do prédio quando, assim que estaciona a mota, se assusta com um grupo de miúdos que gritam “está ali a pizza, corram!”

Na maioria das abordagens há violência e intimidação, mas houve uma situação em que os indivíduos pediram uma pizza e, sabendo de antemão que não as iam pagar, ofereceram fatias ao estafeta com o objetivo de o tornar cúmplice do que estava a acontecer.

E correram mesmo em direção ao distribuidor para roubar uma encomenda que não lhes pertencia. Tudo mudou, porém, quando me viram à porta. Pararam, viraram na direção contrária e fingiram que nada tinha acontecido.

Incrédulo, recebi as pizzas e nem fui capaz de fazer as perguntas que queria. As dúvidas tinham-se dissipado: esta é uma realidade muito comum a todos os estafetas de pizza, como me confirmou depois. “É cada vez mais recorrente e nunca sei o que esperar quando saio da loja para uma entrega. Já que está aqui, não se importa de ficar à porta enquanto eu ligo a mota e me vou embora?”, pediu-me em pânico.

Esta situação foi motivo mais do que suficiente para a MAGG falar com João Santos (nome fictício), que trabalha há apenas três meses enquanto estafeta de pizza e que, conta, num só mês foi assaltado três vezes, das mais variadas formas. E acredita que vai continuar a sê-lo.

Respondeu a 21 perguntas acerca do seu trabalho, que diz que só mantém porque lhe permite conciliar a sua grande paixão, que é andar de mota, com a vontade de descobrir o mundo do trabalho e conhecer pessoas novas.

O distribuidor, que pediu inúmeras vezes para não ser identificado, revelou que a Domino’s Portugal não penaliza os estafetas em caso de assalto. O mesmo não acontece com outras cadeias muito conhecidas, como a Telepizza , que segundo o que a MAGG apurou junto de vários trabalhadores da empresa, não pagam o valor da entrega aos distribuidores caso esta seja roubada. A MAGG contactou por diversas vezes a Telepizza que não se mostrou disponível para comentar esta informação.

Há grupos organizados que esperam os estafetas nos bairros

Os assaltos têm sido recorrentes?
A frequência de assaltos é quase diária e pode ser consequência da nossa falta de cuidado nesse dia em específico. Quando o pedido é feito por um novo cliente, temos sempre o hábito de ligar para a pessoa para confirmar a morada e todos os dados. Mas nem isso garante que o pedido não tenha sido feito especificamente para não ser pago.

É um problema comum em toda a cidade de Lisboa ou é exclusivo a certas zonas?
Depende muito das zonas, sim, e é ingénuo pensar o contrário. Depende sempre do movimento das ruas, se são mais escondidas ou não, e dos grupos que se organizam para assaltar os estafetas. Chega a haver pessoas estrategicamente colocadas à entrada de um bairro para que, assim que vejam um estafeta a chegar, tenham tempo de avisar o restante grupo para avançar para o assalto.

Podemos falar em grupos organizados?
Mais ou menos. Não digo que existam os chamados spotters, que estão em permanência a ver se um estafeta chega ou não ao bairro, mas também não acredito que não tenham a mínima noção dos dias em que há mais pedidos para aquela zona. Eles têm-na e fazem questão de rondar a área durante muito mais tempo a ver se têm sorte. Não sei se é premeditado, se o fazem por achar que é engraçado e que é só mais uma brincadeira entre amigos, mas tem acontecido muito.

Como foi a primeira vez que foi assaltado?
O pedido foi feito por um novo cliente e eu fui ingénuo e não confirmei os dados. Acreditei que se tratava de um pedido legítimo e assim que cheguei à morada nem tive tempo de descer da mota. Vi-me rapidamente rodeado de um grupo de rapazes que levaram o pedido todo.

São vários os meus colegas que já foram assaltados, que desistiram, ou que continuam a trabalhar mas com muito medo.”

Nota um aumento de criminalidade?
Não consigo responder com certeza porque trabalho há pouco tempo na empresa. Apenas posso falar sobre o que é a atualidade e sim, há muita criminalidade em Lisboa. E violência, também. São vários os meus colegas que já foram assaltados, que desistiram, ou que continuam a trabalhar mas com muito medo.

O estafeta é penalizado depois de ser assaltado?
Depende das empresas. A Telepizza, por exemplo, penaliza os estafetas ao não pagar a comissão da entrega de um pedido que tenha sido roubado. A Domino’s não faz isso e até respeita muito os seus distribuidores porque sabe que são eles que estão na rua a dar a cara pela empresa. É pena que nem todas as empresas reconheçam isso.

Na Telepizza, os estafetas recebem um valor por hora de trabalho juntamente com um valor consoante o número de entregas — o que significa que mais entregas feitas é igual a mais dinheiro ao final do mês. Só que nestes casos as empresas não só não pagam esse valor caso o estafeta seja assaltado como, caso este tenha de voltar ao mesmo local para uma nova entrega, só recebe esse valor uma vez, mesmo que se tenha deslocado duas vezes para o mesmo local.

Logo quando entramos na empresa dizem-nos que sempre que tivermos dinheiro a mais devemos sempre voltar à loja. Caso sejamos assaltados com dinheiro a mais na bolsa, somos obrigados a repor.”

E se a mota for roubada?
Geralmente não levam a mota e tenho a certeza que é uma situação muito rara. O que nos dizem é que, caso a mota seja levada, esta tem um sistema de GPS integrado que permite saber de forma muito rápida o sítio onde está.

Então estão sempre livres de culpa?
Sim, exceto se nos assaltarem a bolsa e tivermos lá mais dinheiro do que é suposto. Todos os estafetas estão proibidos de andar com mais de 40 euros na bolsa, que é geralmente utilizado para fazer os trocos nas transações com os clientes. Logo quando entramos na empresa dizem-nos que sempre que tivermos dinheiro a mais devemos sempre voltar à loja. Caso sejamos assaltados com dinheiro a mais na bolsa, somos obrigados a repor. É uma das normas.

E isso é fácil de controlar?
É muito difícil, especialmente nos dias de maior movimento e confusão em que é complicado voltar à loja entre pedidos. Tudo pode estar a correr bem durante o dia até que, no último pedido no período de almoço, somos assaltados e vai todo o dinheiro que tínhamos — até mesmo aquele que devíamos ter guardado.

Assim que vi que aquele rapaz estava empenhado em magoar-me por uma simples pizza, decidi simplesmente baixar os braços, abrir a mala e dar-lhes as pizzas, as bebidas e as entradas da encomenda. Mas nem isso foi suficiente

Agredido com uma pedra na cabeça

Como é acordar sabendo que tudo pode correr mal numa questão de minutos?
É horrível, e mais horrível é se lhe disser que já me habituei. Além dos três assaltos, já houve também uma tentativa. Geralmente, estas situações são sempre de um para muitos e isso envolve todo o tipo de agressões, como empurrões ou ofensas várias. Tudo o que sirva como arma de intimidação, basicamente.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui assaltado. Tudo correu mal porque tentei impedir e isso só piorou uma situação que já era péssima. Assim que estacionei a mota vi um grupo de rapazes a correr para mim e foram violentos ao ponto de me fazer cair. Tentei, ainda assim, impedir o roubo e hoje estou mais do que arrependido.

Houve mais violência?
Sim, pegaram numa pedra da calçada e ameaçaram dar-me com ela na cabeça. Assim que vi que aquele rapaz estava empenhado em magoar-me por uma simples pizza, decidi simplesmente baixar os braços, abrir a mala e dar-lhes as pizzas, as bebidas e as entradas da encomenda. Mas nem isso foi suficiente porque acabei mesmo por levar com a pedra na cabeça. Felizmente tinha o capacete posto e nada de muito grave resultou daquela agressão.

Disseram-lhe alguma coisa? Justificaram-se?
Não, só disseram que não lhes devia ter feito frente e que devido às minhas ações todos os estafetas iam pagar. Depois de levar com a pedra, chamaram ainda mais amigos para se juntarem à festa e me agredirem ainda mais. À mais pequena oportunidade, aproveitei e fugi dali em pânico para a loja. Não tenho dúvidas que podia ter corrido ainda pior e duvido ainda mais que alguém se chegasse à frente para me ajudar.

Um estafeta é obrigado a voltar ao sítio da entrega onde foi assaltado?
Naquele momento, e já de volta à loja, liguei para o cliente e ele até foi muito compreensivo. Ao ponto de se oferecer para ser ele a ir à loja para levantar a pizza. Só por isso não tive de lá voltar mas, mesmo que tivesse, recusava-me. Os gerentes de loja dizem-nos que devemos sempre fazer as entregas que nos estão destinadas mas não somos penalizados a nível disciplinar ou salarial por nos recusarmos. Especialmente se for numa morada onde já tenhamos sido agredidos ou intimidados.

Assim que cheguei a casa do cliente fui recebido por três rapazes que receberam a pizza com o entusiasmo normal mas, assim que a entreguei, disseram-me logo que não iam pagar pela encomenda. Estavam muito calmos e até me perguntaram se eu queria uma fatia

São vários os colegas que já se recusaram a ir a uma entrega onde tinham quase a certeza que iam ser assaltados e acabou por ser uma transação normal. Quando estamos mesmo em dúvida, o que fazemos é enviar vários estafetas sem dinheiro e sem pizzas para fazer uma espécie de vistoria ao local. Eles, por sua vez, comunicam ao estafeta e aguardam que este faça a entrega e se vá embora.

Mas é óbvio que nem sempre é possível, até pela quantidade de trabalho que às vezes temos. Muitas das vezes estamos por nossa conta.

Há pedidos que são feitos especificamente com o intuito de não serem pagos?
Sim, e se pensarmos bem até é a maneira mais fácil de roubar um estafeta. E é por isso que são as situações mais difíceis de identificar porque tanto pode ser para assalto, como pode ser um cliente normal. Lembro-me de uma encomenda que aparentemente parecia totalmente normal e que depois se revelou uma experiência de assalto, embora sem violência.

Menos direta e com mais intimidação?
Precisamente. Assim que cheguei a casa do cliente fui recebido por três rapazes que olharam a pizza com o entusiasmo normal mas, assim que a entreguei, disseram-me logo que não iam pagar pela encomenda. Estavam muito calmos e até me perguntaram se eu queria uma fatia. Eu aceitei porque tudo o que eu não queria era ter problemas. No fundo foi também uma forma de intimidação e de me tornarem cúmplice do que estava a acontecer.

Durante o tempo que estive ali com eles, vivi momentos de pânico e medo, mas eles mantiveram-se calmos e explicaram-me que não tinham por hábito fazer aquilo. “Só às vezes”, disseram-me, e era porque achavam que as pizzas estavam muito caras e por isso preferiam fazer as coisas daquela forma. Sempre sem violência.

“Trabalhar nesta área deixa-nos muito desconfiados e preconceituosos”

O que é que denuncia uma chamada falsa?
Há vários fatores. Desconfiamos sempre de um pedido que seja feito para uma zona problemática, ou para ruas onde já vários estafetas nossos tenham tido problemas. Mas o que nos faz mesmo desconfiar de alguém é quando o pedido é feito por um cliente novo e esse pedido é de um valor elevadíssimo e sem cupões de desconto aplicados.

Eu nunca fui nada racista mas admito que me tornei um bocadinho mais desconfiado, preconceituoso e intolerante.”

Mas é muito difícil detetar a 100%. Houve uma altura em que todas os fatores que geralmente nos fazem desconfiar se verificaram num pedido que, afinal, era legítimo. A encomenda era para ser entregue numa zona problemática a um novo cliente, e era de valor elevado sem quaisquer promoções aplicadas. Quando liguei para o cliente a confirmar os dados, ele foi muito vago e tinha uma voz estranha.

Dirigi-me para o local com a certeza plena de que ia ser assaltado. Deixei o telemóvel na loja, esvaziei a bolsa do dinheiro e, para minha surpresa, descobri que era só uma pessoa normal que queria uma pizza para a sua refeição.

Trabalhar nesta área deixa-nos muito desconfiados e preconceituosos, até. Se me tivesse recusado, por ter quase a certeza que ia ser assaltado, teria sido uma situação muito chata porque era um cliente normal que tínhamos deixado à espera.

Este é um problema racial?
Eu nunca fui nada racista mas admito que me tornei um bocadinho mais desconfiado, preconceituoso e intolerante. É que na grande maioria das abordagens que me fizeram para assalto, todos os indivíduos eram negros e, geralmente, agressivos e com o intuito de roubar um pedido que não lhes pertencia.

Os seus amigos e família sabem do que se passa?
Os meus pais sabem de tudo o que se está a passar e todas as noites, quando chego a casa, perguntam-me sempre como correu o trabalho. Nos dias em que sou assaltado estou visivelmente perturbado e eles percebem isso. Tanto o é que fazem questão de me perguntar para dar espaço para desabafar sobre isso. A minha mãe é muito preocupada e não me quer a entregar pizzas durante muito mais tempo, embora perceba o facto de estar a fazer isto por gostar genuinamente do trabalho.

Para o dinheiro que ganhamos e os riscos que corremos, ser-me-ia muito difícil justificar a minha permanência na pizzaria se não gostasse mesmo muito do que estou a fazer.”

Vê-se a fazer isto durante muito mais tempo?
Não, só o faço porque isto junta a minha paixão, que é andar de mota, à vontade de querer conhecer o mundo do trabalho. Conto só estar aqui durante este ano e é porque estou a aproveitar estes meses para estudar para uma disciplina que tenho em falta para poder concorrer ao ensino superior.

Como sempre fui uma pessoa muito introvertida, esta foi a maneira que arranjei de me dar mais com as pessoas e com o mundo.

Quanto ganha um estafeta de pizzas?
Eu ganho entre 217 e 230 euros por mês, sempre em regime part-time. Nesta empresa todos os trabalhadores são contratados neste regime o que não implica que, por vezes, não tenham de fazer horas extras. Há alturas em que excedemos as 15 horas semanais que estão no nosso contrato, mas também recebemos por isso.

A primeira hora de trabalho é paga a 50% e a segunda a 65%. As restantes horas já são pagas a 100% mas é muito raro acontecer já que, geralmente, não há nenhum trabalhador a fazer mais do que duas horas extras por turno. No total, recebo menos de 5 euros por hora e 1 euro e pouco por cada entrega que faça.

É preciso gostar muito do que se faz para se sujeitar a situações dessas?
Sim, sem dúvida. O meu dia fica preenchido quando sei que vou passar várias horas em cima de uma mota e a conhecer pessoas novas. Aliás, sempre que vou a casa de alguém gosto de ver o entusiasmo dos miúdos e de toda a família ao verem uma pizza a chegar. Conversamos um bocadinho sobre tudo e é fantástico saber que contribuí para a felicidade de pessoas que não conheço de lado nenhum — mas que provavelmente vou voltar a ver enquanto for estafeta.

Para o dinheiro que ganhamos e os riscos que corremos, ser-me-ia muito difícil justificar a minha permanência na empresa se não gostasse mesmo muito do que estou a fazer.

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