Joana (nome fictício) tinha 18 anos quando foi ao ginecologista pela primeira vez — primeira e única durante largos anos. Depois de uma experiência que a traumatizou, a agora advogada de 28 anos esperou mais de uma década para regressar ao consultório de um ginecologista.

“Lembro-me que contei à minha mãe que tinha perdido a virgindade e queria ir à médica. Era nova e tinha tido apenas uma experiência sexual, tudo o que a ginecologista me fez magoou-me imenso, foi bruta e não me explicou nada de nada”, conta Joana à MAGG, acrescentando que a única coisa que saiu de positivo dessa consulta foi a recomendação para que levasse a vacina contra o HPV, embora na época apenas fosse gratuita para as raparigas de 13 anos (para esta faixa etária, a vacina estava inserida no Programa Nacional de Vacinação do Serviço Nacional de Saúde — SNS).

Mais de dez anos depois, foi justamente esta doença que marcou os últimos meses de 2017 para Joana, que admite não ter sido a pessoa mais cuidadosa na última década, tanto no uso de proteção nas relações sexuais (Joana teve cinco parceiros sexuais), como nas idas ao ginecologista.

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“Mesmo com a insistência da minha mãe, que me alertava constantemente para ir ao médico, só o fiz no seguimento de ter descoberto um quisto na mama. Depois de uma biópsia, e deste se revelar benigno, o médico recomendou-me que marcasse uma consulta de ginecologia, dado que o quisto podia ter origem hormonal.”

Em setembro do ano passado, Joana entrou num consultório da especialidade, fez uma citologia e, apesar de inicialmente a médica lhe dizer que parecia tudo normal, sem ter notado feridas visíveis no colo do útero, explicou-lhe que em poucos dias deveria receber os resultados do exame em casa.

Cerca de uma semana depois, o telefone da advogada tocou. “A médica tinha pedido o meu número no hospital e ligou-me a dizer que gostava de falar comigo. Fiquei muito assustada, tinha passado por uma biópsia e estive duas semanas à espera do resultado do quisto na mama, situação essa que já tinha sido complicada de gerir. A última coisa que eu queria era receber uma chamada de uma médica a dizer que não me queria enviar os resultados para casa sem falar comigo primeiro.”

Quando regressou à ginecologista, esta informou-a que tinha uma lesão interna no colo do útero e que queria fazer uma biópsia para confirmar o diagnóstico, embora fosse claro: era HPV.

Papiloma Vírus Humano. Sabe o que é?

Calcula-se que quatro em cada cinco mulheres tenham contacto com HPV em alguma altura da sua vida. Em Portugal, de acordo com dados do estudo Cleopatre (publicados em 2012, ainda são os mais recentes), a prevalência de HPV é de 19,4%, em média (em colheita cervical em mulheres entre os 18 e 64 anos, não vacinadas).

HPV é a sigla para Papiloma Vírus Humano (Human Papiloma Virus) , “uma família de vírus que se transmitem frequentemente por via sexual e podem provocar lesões que causam infeções na pele e nas mucosas humanas (colo do útero, vagina, vulva, cavidade oral, ânus e reto)”, explica à MAGG Teresa Fraga, ginecologista.

Existem mais de 200 tipos diferentes de HPV, “120 dos quais infetam a espécie humana, 40 a área genital e 14 são oncogénicos e considerados também de risco para o desenvolvimento de cancro do colo do útero”, salienta a médica, acrescentando que “alguns tipos são de baixo risco, podendo evoluir para doenças benignas como verrugas genitais. Outros são de alto risco e podem originar diferentes tipos de doenças oncológicas”.

A relação que deu origem à infeção (contágio) pode não ser evidente e é possível que existam lesões muitos anos depois do contacto sexual com o parceiro infetado.”

Segundo a especialista, a que tem mais prevalência é o cancro no colo do útero e os tipos 16 e 18 são responsáveis pela maioria dos casos deste cancro — em conjunto, estes tipos de HPV causam 75% dos casos desta patologia. No entanto, a ginecologista frisa que “esses são acontecimentos raros, já que na maioria dos casos (90%) o vírus é eliminado espontaneamente ao fim de algum tempo”.

O HPV não tem sintomas

Joana deixou que uma má experiência na primeira ida ao ginecologista a impedisse de marcar uma consulta desta especialidade durante mais de uma década. Segundo Teresa Fraga, o caso da advogada não é único e a médica relata que “surgem pessoas que não vão ao médico ginecologista há cinco, dez anos. Quando aparecem, já têm uma lesão grave ou um cancro invasivo, que pode ser completamente assintomático”.

A ausência de sintomas atribuíveis à infeção por HPV, “bem como a qualquer estádio de lesão grave do colo do útero, é um dos fatores que mais contribuem para que as mulheres que acham que o seu comportamento não é de risco, a sua relação sexual é estável e não têm nenhuma queixa do foro ginecológico, pensem que não têm necessidade de fazer o rastreio”, lamenta a ginecologista.

Teresa Fraga alerta que os sintomas, quando surgem, estão muitas vezes associados a cancros invasivos. “ As perdas de sangue fora da menstruação, as infeções persistentes, as dores pélvicas espontâneas ou nas relações, são sinais de um mau prognóstico”.

Dado que, na maioria dos casos, não existem sintomas associados à infeção por HPV, as pessoas infetadas podem transmitir a infeção a outros sem terem conhecimento do que se passa com elas. “Dada a evolução assintomática da doença, é importante consultar regularmente o médico e testar a presença de HPV. Por norma, os sintomas só ocorrem demasiado tarde e, mesmo nos casos de tipos de HPV associados a doenças benignas, a persistência do vírus pode causar verrugas genitais detetáveis a olho nu”, alerta Teresa Fraga.

O preservativo pode não ser suficiente para impedir a transmissão de HPV

A principal forma de transmissão do HPV é a atividade sexual, “seja por via vaginal, anal, oral ou qualquer tipo de contacto pele a pele”, explica a ginecologista, que salienta que “o uso de preservativo nas relações sexuais providencia alguma proteção contra o HPV, mas não previne completamente a infeção. O contágio é feito pele a pele, podendo existir transmissão através de áreas nos genitais ou outras não cobertas pelo preservativo”.

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Teresa Fraga refere que a transmissão de mãe para filho/a, durante a gravidez e parto (transmissão vertical), “também é possível. Quanto à transmissão do vírus através de objetos contaminados, como roupa ou toalhas, pode acontecer, mas é muito rara uma vez que o HPV é pouco resistente fora do seu ambiente natural e sobrevive mal fora deste, ao contrário de outros vírus como o da hepatite B, muito resistentes”.

A contaminação não só pode acontecer sem que se suspeite dela como pode prevalecer durante largos períodos, anos até, manifestando a sua presença só numa fase posterior, “pelo que a relação que deu origem à infeção (contágio) pode não ser evidente e é possível que existam lesões muitos anos depois do contacto sexual com o parceiro infetado”, avisa Teresa Fraga.

Não há cura para a infeção, mas sim tratamento para as lesões

No caso de Joana, a médica, ainda antes da biópsia, realizou um exame para perceber que zonas do colo do útero a advogada tinha infetadas. “O exame que eu fiz consistia em aplicar líquidos corantes no colo do útero e, nas zonas em que a coloração é diferente, conseguem-se identificar as partes infetadas e com lesão. No meu caso, o exame mostrou duas zonas infetadas, por isso a médica teve de fazer duas biópsias.”

Uns dias mais tarde, quando chegaram os resultados dos exames, a médica enviou um e-mail à advogada, onde explicava o tratamento que iria efetuar, neste caso a criocoagulação (tratamento de ‘”ferida no colo do útero” através do congelamento dos tecidos — queimadura pelo frio).

Teve de esperar dois meses até conseguir realizar o exame, que tinha de ser feito na semana após a menstruação. “Com os nervos desta situação mais o stresse acumulado do trabalho, a menstruação não me aparecia nem por nada. Cheguei a ter de adiar a primeira data do tratamento, a minha médica explicou-me que fazê-lo sem ter tido o período acarreta riscos —a criocoagulação cria uma espécie de crosta fria que cicatriza a ferida e se o período vier entretanto, o risco é que o fluxo arranque a crosta e cause hemorragias enormes.”

Quando Joana voltou à ginecologista, a médica analisou primeiro o colo do útero e voltou a repetir o procedimento do líquido para identificar as zonas infetadas.

“Se da primeira vez consegui ver tudo pintado nas imagens e um oito perfeito em cor de pele (daí as duas biópsias, uma em cada círculo do oito), desta vez estava quase tudo preto. Notavam-se ainda algumas zonas mínimas onde o líquido não se tinha agarrado.”

A ginecologista de Joana optou por não realizar o tratamento, explicando que era comum estas situações reverterem-se em mulheres com menos de 35 anos e que, “provavelmente, as próprias picadas da biópsia tinham ajudado a recuperar”, recorda a advogada.

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Teresa Fraga explica que a infeção do HPV não tem tratamento. Porém, como qualquer infeção viral, o organismo conta com o seu sistema imunitário para a combater. “E na grande maioria dos casos essa defesa é suficiente para permitir a eliminação espontânea do vírus e a resolução dos sinais muito precoces de infeção num período curto de tempo (um a três anos)”.

Caso a infeção persista “e dê origem a lesões cancerígenas, as mesmas podem ser tratadas com a destruição do tecido afetado. Também as verrugas genitais podem ser tratadas. É importante que a intervenção ocorra rapidamente, uma vez que são altamente contagiosas. Mesmo assim, de acordo com a Liga Portuguesa contra o Cancro, a sua reincidência é na ordem de 30% dos casos.”

Joana saiu do consultório da ginecologista com ordens para regressar daí a seis meses, para realizar outra citologia para despiste. “A médica recomendou-me reduzir o tabaco, repetir a vacina do HPV, bem como tentar evitar a toma da pílula durante pelo menos dois meses”, conta.

Como explica Teresa Fraga, existem fatores de risco que podem contribuir para a persistência do HPV e para o desenvolvimento de cancro do colo do útero, tais como “ser fumador, a idade precoce da primeira relação sexual, múltiplos parceiros sexuais e a medicação imunossupressora. É importante reforçar a imunidade do organismo e adotar um estilo de vida saudável”.

Os rapazes deviam ser vacinados

O HPV não é uma infeção exclusiva do sexo feminino. Aliás, de acordo com Teresa Fraga, “a população masculina foi durante muito tempo o vetor insuspeito da transmissão do HPV”.

Vacino todos os rapazes nas minhas consultas. Já foi estudado e comprovado que a vacinação é uma excelente medida preventiva contra o cancro.”

Existem várias doenças relacionadas com este vírus, como o “cancro do pénis, cancro anal e cancro da orofaringe, sendo que a relação entre o cancro oral e o HPV é relativamente recente em termos de conhecimento científico”, explica Teresa Fraga, que considera que os homens não sabem da gravidade desta situação, “embora os codilomas (verrugas genitais) sejam muito frequentes no sexo masculino e a causa de traumas e tratamentos morosos e pouco eficazes”.

Sendo a vacinação contra o HPV, atualmente, “o método ideal de prevenção primária com uma eficácia demonstrada próxima dos 100% (previnem a infeção pelos tipos de HPV nelas contidos)”, Teresa Fraga defende que também os rapazes “deveriam ser vacinados no Programa Nacional de Vacinação, que atualmente só vacina raparigas entre os dez e os 15 anos de idade (com duas doses da vacina nonavalente, a mais eficaz na proteção das doenças pré-cancerosas e cancerosas do colo, vagina, vulva, cancro anal e condilomas)”.

A vacinação dos rapazes é também algo que João Bismark, médico pediatra, considera muito útil. “Vacino todos os rapazes nas minhas consultas. Já foi estudado e comprovado que a vacinação é uma excelente medida preventiva contra o cancro. Enquanto pediatras e pais, se existe uma medida que pode prevenir o cancro, acho que não há grande escolha”, conclui o pediatra, que acrescenta que o ideal é que os rapazes, bem como as raparigas, sejam vacinados antes do primeiro contacto sexual, “estando estabelecida a meta dos dez anos de idade”.