Crítica. Uma mãe com três filhos viu “Tully”, o novo filme que põe a cru a maternidade

A barriga de Charlize Theron significa "muito mais do que uns quilos a mais." E talvez só quem tenha passado por um pós-parto o entenderá.

"Tully" estreou a 7 de junho nas salas de cinema portuguesas. É do realizador Jason Reitman, o mesmo de "Juno" ou "Nas Nuvens"

Se há coisa de que gosto é de ser surpreendida durante um filme. São muitos anos, muitas comédias românticas, muito drama, muita história de amor. Sei sempre como vai acabar. Exceto em “Tully”. Tenho feito, aliás, um esforço estóico para não tirar o fator surpresa a quem ainda vai ver este filme. Só por isso, já valeu a pena ter ido ao cinema. Mas há mais.

“Tully” tem um cartaz péssimo, mas tem aquela vantagem de ter um trailler que dá uma ideia, mas que não diz nada. Charlize Theron é a atriz principal e é maravilhosa. Já o marido, Drew, interpretado por Ron Livingston, que fez parte do elenco em “Sexo e da Cidade” na pele de Jack Berger, podia ser casado com esta loira ou namorado da outra, a Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), que fazia exatamente a mesma figura. No entanto, a sua ausência, ou o seu carácter de personagem sem interesse nenhum, será fundamental para o decorrer da história.

“Tully” podia ser apenas uma metáfora sobre a dificuldade de ser mãe numa família numerosa de classe média, sem empregada, avós próximas ou outro formato de apoio. Mas é muito mais do isso.

Charlize consegue mostrar essa bipolaridade maternal de amarmos perdidamente um filho exatamente ao mesmo tempo que já nem o podemos ver ou ouvir. E aquela coexistência quase contraditória entre a suavidade de um beijo e o suspiro desesperado de cansaço.

Talvez só quem já tenha passado por um pós-parto entenda a barriga proeminente e que isso significa muito mais do que uns quilos a mais. Talvez só quem tenha filhos entenda aquele grito no carro depois de muito tempo a conduzir com pontapés na parte de trás do banco. Talvez só quem tenha mais de 40 anos perceberá a ânsia de querer voltar a ser jovem, solta e livre.

Por isso, arrisco dizer que talvez só uma mãe com mais de 40 anos atingirá todas as metáforas e sensações sublimemente provocadas em “Tully”. Mas obrigaria os maridos, namorados e companheiros a irem ver o filme.

Às outras pessoas, evitaria o susto. Ou, se precisarem, diria para aproveitarem porque este é um filme contracetivo. “Tully” é um drama, nunca uma comédia, real, bruto e comovente. Pedagógico também.

*Catarina Beato é blogger, autora da página “Dias de uma Princesa

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