Entrevista. “As pessoas que estão à frente de cargos de grande poder são narcisistas”

Margarida Vieitez lançou um novo livro, "Perigo! Duas Caras". Ninguém está a salvo — e só há uma maneira de fugir.

"Perigo! Duas Caras" é o novo livro de Margarida Vieitez

Heng Films/Unsplash

Não é difícil gostar de um narcisista. No início eles são pessoas realmente encantadoras — quase demais, na verdade. Estão presentes em todos os momentos, sabem ser românticos e surpreender, prometem resolver todos os nossos problemas. É a primeira cara — logo a seguir vem a segunda, onde se destaca a grandiosidade, falta de empatia, superioridade e arrogância. Só para dar alguns exemplos.

Perigo! Duas Caras” é o novo livro de Margarida Vieitez, publicado pela editora Clube do Autor em abril. Especialista em relações, conflitos e mediação familiar há quase 20 anos, Margarida Vieitez percebe de relações — e em particular de relações tóxicas.

Depois de “Guerra entre Quatro Paredes” (2010), “SOS Manipuladores” (2015) e “Pessoas que Nos Fazem Felizes“, entre outros, a autora apresenta-nos um livro dedicado ao narcisismo — ou aos maxinarcisistas, termo que introduz neste livro.

No hotel Myriad, em Lisboa, Margarida Vieitez sentou-se com a MAGG para explicar quem são afinal as pessoas de duas caras, perceber como é que a sociedade está a alimentar o seu nascimento e entender como pode proteger-se deles de uma vez por todas.

No seu novo livro introduz o termo maxinarcisistas. Porquê criar uma nova definição?
A maioria dos narcisistas sente que é o máximo. A abreviatura “maxi” representa isto, a superioridade que os narcisistas sentem em relação às outras pessoas.

É uma forma de denominar os narcisistas. 
Exatamente. “Eu sou o máximo”, “eu sou superior”, que é um dos traços da generalidade das pessoas narcisistas.

Escreveu também que decidiu introduzir este termo porque a definição “narcisista” ainda não é amplamente reconhecida.

Sim, decidi colocar o termo “pessoas com duas caras”.

Que são os maxinarcisistas.
Exatamente. Porquê? Porque acho que muitas pessoas desconhecem o que é de facto o transtorno de personalidade narcisista. Não sabem como é que se comporta um narcisista. Mas se dissermos: “Conhece alguém com duas caras?”, toda a gente conhece. Um narcisista é isso. Num primeiro momento apresenta-se muito simpático, empático, disponível, e de repente transforma-se numa pessoa completamente diferente.

Mas acha que já não se falou imenso sobre narcisismo? Ainda existe assim tanto desconhecimento?

Sim, sem sombra de dúvida. Vamos as duas para a rua perguntar às pessoas [risos]. Egocentrismo sim, egoísmo sim, narcisismo existem dúvidas. Acredito que há um dever de informar as pessoas de que estes indivíduos existem e que podem fazer muito mal.

O que é então uma pessoa com duas caras?

Uma pessoa com duas caras, ou um narcisista, é uma pessoa que tem vários traços. Falta de empatia: os desejos, as necessidades, os sonhos das outras pessoas, aquilo que os outros pensem ou sentem, é-lhes completamente indiferente, ou não lhes diz muito. A crítica: eu costumo dizer que este livro é sobretudo sobre as pessoas viciadas em criticar, em culpar, sempre insatisfeitas. Nunca nada é suficiente para elas. Sempre em conflito, com necessidade de discutir. Há pessoas que têm necessidade de discutir todos os dias. Este livro é exatamente sobre estas pessoas, e explica-nos como nos defendermos delas. Outros traços: superioridade, grandiosidade.

São pessoas maxi.
Maxi, tem de ser tudo em grande. São pessoas normalmente que mentem, que apontam muitas falhas aos outros, que as deixam desconfortáveis, que as envergonham. Por vezes de forma subtil, e até dizem que estão a brincar. Quando proferem determinadas afirmações menos próprias, no final da frase dizem: “Não fiques assim porque estou a brincar contigo”. Por vezes não é bem uma brincadeira. Outro traço é a inveja: muitos deles não conseguem partilhar o sucesso, a felicidade, o bem-estar e alegria dos outros. Às vezes também são mauzinhos, e gostam de castigar. São castradores. Se alguém diz: “Apetece-me imenso comer chocolate”, eles respondem que é um disparate. “A esta hora? Nem pensar”. E podem fazer-nos acreditar que eles é que sabem, eles é que são donos da verdade.

Lançado em abril pela editora Clube do Autor, o livro custa 14,40€

Conseguimos mudar um narcisista?
Se eles quiserem efetivamente perceber o mal que fazem aos outros, e a eles próprios — também eles são pessoas que estão num enorme sofrimento…— se conseguirem perceber, se conseguirem chegar perto dessa realidade, sim.

Mas eles conseguem tomar consciência do mal que fazem? 
É difícil, porque a maioria destes comportamentos são inconscientes. Eles não têm consciência daquilo que fazem.

E como se veem como maxi, não acreditam que têm defeitos.
Exatamente, porque pressupunha encarar as próprias inseguranças e vulnerabilidades, algo que eles nunca fazem. O perigo está exatamente nas pessoas acreditarem em tudo o que eles dizem, duvidarem dos seus próprios juízos de valor e passarem em viver em função deles.

Vivemos numa sociedade que alimenta cada vez mais o narcisismo.”

No seu livro escreve que todos temos salpicos de narcisismo. 
Sim, todos temos. Existe um narcisismo saudável: nós dizermos “atingi um resultado excelente”, “tive uma nota fabulosa”, “hoje acho que estou muito bem”, etc., isso é muito positivo, são reforços da nossa auto-estima. E devemos fazê-los, sem dúvida alguma. O auto-elogio não é falta de humildade, e é muito importante para nós. Mas depois existe um narcisismo doentio, que é um egocentrismo total. Aquela pessoa só consegue olhar para si, os outros não existem, não têm necessidades. Os outros existem para servi-los.

Vivemos numa sociedade que valida cada vez mais o narcisismo?
Sem dúvida. Vivemos numa sociedade que alimenta cada vez mais o narcisismo.

Sobretudo no campo laboral?
No campo laboral a exigência é imensa. Hoje em dia, especialmente nas grandes empresas, as pessoas estão sujeitas a grande pressão para satisfazer todos os requisitos e mais alguns. Porque se não são desqualificadas, são postas de parte, não sobem na hierarquia. As pessoas tentam corresponder. E o que é que está atrás de tudo isto? O que é que as leva a corresponder a tudo isto? O poder, a imagem dita perfeita. Anda toda a gente à procura da perfeição.

Será que as exigências impostas são feitas por pessoas narcisistas?

São. A própria sociedade exige isso. E as pessoas que estão à frente de cargos de grande poder são narcisistas. Exigem que os outros correspondam às suas expectativas de forma desmesurada, sem nunca os satisfazer. É um dos traços mais importantes do narcisismo: o narcisista nunca está satisfeito. Andamos pela rua e vemos outdoors que nos dizem: “Você tem o controlo”, “você tem o poder”. O que é isto se não fomentar este tipo de comportamentos? Narcisistas necessitam de ter poder, controlo e domínio sobre tudo e sobre todos.

Porquê? 
Toda a gente acha que os narcisistas são pessoas muito auto-confiantes e seguras. Exatamente o contrário: são pessoas extremamente inseguras, com falta de confiança, que se sentem inferiores e incapacitadas, e que precisam de rebaixar os outros para não se sentirem assim. Despejam o lixo emocional sobre as outras pessoas.

O narcisismo é algo que nasce connosco? 
Pelo meu conhecimento, pela minha experiência e pelas imensas teorias que existem sobre este tema, a maioria destas pessoas teve muita falta de atenção, afeto e aceitação na fase da primeira infância e adolescência. Viveram experiências muito marcantes. Eram crianças que tinham um amor imenso para dar e que ninguém viu. Quando acompanho pessoas que percebo que têm traços profundos de narcisismo, tento investigar como foi a sua infância e adolescência. Normalmente bate certo: a imagem que os pais lhes deram deles próprios não foi a melhor. E essas pessoas sentem que não valem nada, por isso passam a vida inteira a torturar as outras para se sentirem um bocadinho melhor. São crianças feridas.

E estão em todo o lado?
Alguns são excelentes profissionais, estão no topo das empresas de vários setores. São médicos, advogados, juízes. É completamente transversal a todas as profissões. E a idades também.

E no género também? Não há mais homens narcisistas do que mulheres, ou vice-versa? 
Sim, no género também, de acordo com a minha experiência. É transversal. E ninguém está a salvo deles porque não depende do nosso know how, inteligência, nada disso. Há mulheres e homens brilhantes que de repente se envolvem com um narcisista. Ou no trabalho, ou um amigo que surge e ao final de uma semana já são os melhores amigos. Porque eles são muito sedutores, são muito conquistadores. É a primeira cara — rapidamente surge a segunda. E às vezes é no espaço de uma semana ou de um mês.

No livro apresenta vários testemunhos, que refletem exatamente o que acabou de dizer. Na maioria das histórias, no início os narcisistas são encantadores.
Transformam a vida das pessoas num paraíso emocional. Prometem tudo e mais alguma coisa, oferecem imensos presentes, estão muito atentos — demasiado atentos. Costumo dizer: quando alguma coisa lhe soar a falso, é um dos sinais. Desconfie. E não confunda isto com amor. As principais vítimas, quem são? As pessoas narcisistas gostam de determinadas pessoas.

Quem são?
São as pessoas mais bondosas, mais generosas. Que estão mais disponíveis para ajudar os outros. São as pessoas que têm grandes fantasias em relação àquilo que é a vida e o amor.

E também problemas de auto-estima?
Também, uma auto-estima fragilizada. Elas esperam efetivamente encontrar uma pessoa que lhes resolva os problemas. Buscam a segurança que não encontram dentro delas nos outros. E isso é muito perigoso: passam a validar-se naquilo que o outro diz. Entregam a sua auto-estima e valor aos outros.

Comer chocolate é mais saudável do que ter um namorado parvo.”

Como é que recolheu os testemunhos que apresenta neste livro?
Ao longo do tempo. Eu tenho uma boa memória: quando começo a escrever, todas aquelas histórias que tenho acompanhado fluem. E é maravilhoso. Fui sempre encontrando histórias que já tinha seguido, histórias que vieram entretanto ao meu conhecimento — quer ao nível profissional quer ao nível pessoal — e concentrei todas elas. Há muito tempo que estava para escrever este livro, e decidi que era o momento. Era o momento de avisar as pessoas. Porque a maioria não tem consciência do mal que os narcisistas podem fazer, e de que está em causa a sua saúde mental. E física, também.

Voltou a falar com algumas pessoas, possivelmente os casos mais antigos?
Não, mas sei o que é que se passou posteriormente. Muitas delas terminaram as relações que tinham, relações que lhes faziam mal e elas perceberam isso. Só que não é fácil sair de uma relação com um narcisista. Uma relação com um narcisista é como uma toxicodependência. É como uma droga. E há um processo de abstinência. Tenho pessoas que me dizem: “Mas eu gosto dele, eu gosto dela. Eu não consigo deixar”. A dependência emocional é muito difícil. Muitas pessoas não conseguem sair sozinhas, têm de ter acompanhamento.

Para depois conseguirem voltar a ter relações saudáveis.
Ainda hoje estava a escrever um artigo sobre relacionamentos. “Está à procura de namorado? Não aceite namorados sem saber se lhe fazem bem — coma chocolate”.

É mais saudável.
Exatamente, é mais saudável do que ter um namorado parvo.

Ou só por ter.
Ou só por ter, ou só para alimentar a auto-estima, ou só porque está sozinha. Normalmente não resulta.

Em todos os testemunhos que apresenta no livro há um narcisista como protagonista.
Sim, um ou uma narcisista.

Margarida Vieitez é especialista em relações, conflitos e mediação familiar há quase 20 anos

Conseguiu fazer sempre o diagnóstico? Porque na maioria dos casos essas pessoas provavelmente não estiveram consigo.
Consigo fazer a partir de mensagens. Este livro está cheio de mensagens, afirmações. Viu, na página 194? [mensagens e afirmações dos maxinarcisistas]. Todos nós temos desabafos, dizemos disparates, mas umas horas depois reconsideramos e assumimos que não foi correto. Até pedimos desculpa. Todos nós temos maus dias. Mas quando isto acontece de forma repetida — a diferença é esta, a frequência —, normalmente estamos perante comportamentos narcisistas. E estas mensagens e afirmações que estão aqui são sinais muito fortes de que estamos na presença de um deles.

Alguns exemplos de mensagens e afirmações de narcisistas

“Diz lá se alguma vez conheceste alguém assim?”
“Não te preocupes, porque comigo os teus problemas vão acabar para sempre.”
“Comigo vais ser, e ter tudo o que sempre sonhaste.”
“Sabes com quem estás a falar?”
“Logo vi que tu és fraquinho.”
“Perdoar… nunca.”
“Não vais ser ninguém sem mim.”
“És lenta, ou quê?”
“Não sabes nada.”
“Eu é que sei.”

No livro apresenta o caso de uma pessoa que vive obcecada com os gostos nas redes sociais. De que forma é que isto se relaciona com o narcisismo?
As redes sociais potenciam ainda mais a criação de falsas imagens. Nós vemos pessoas que estão constantemente a colocar fotografias e publicações, inclusivamente da sua vida privada, e que parece que tão depressa estão numa euforia imensa de felicidade como de repente estão na mais profunda angústia. E partilham isso de forma até inconsciente — eles não sabem bem que repercussões é que a partilha da sua vida íntima pode ter.

Então é normal os narcisistas fomentarem uma vida perfeita nas redes sociais.
Exatamente. Quando vir alguém a colocar casas de luxo, carros de luxo… Não digo músculos de luxo [risos]…

Porque nem todos conseguem ter…
Mas com necessidade de mostrar o corpo, tirar a roupa, tudo isso de forma muito constante. Então essa pessoa está efetivamente à procura de aprovação. E é isto que o narcisista procura, aprovação dos outros. Poder, para sentir que existe — e ele ganha poder através do conflito —, e aprovação dos outros — “eu sou bom, eu sou maxi”. O narcisista exige atenção constante.

No livro fala também de assédio sexual. Isto acontece porque o narcisista não aceita que alguém não queira estar com ele?
Sim, é muito difícil para o narcisista lidar com a indiferença e a rejeição. É das piores coisas que pode acontecer a um narcisista. Porquê? Porque fá-lo sentir os tais sentimentos de inferioridade. E vergonha. Ele sente-se um zero autêntico.

E isso pode contribuir para situações de assédio sexual.
Sim. Outra característica também é o forçar da intimidade. Normalmente o narcisista força a intimidade logo nos primeiros encontros, isto porque muitas vezes ele “renarcisa-se” no ato sexual. Também é normal fazer comentários muito pouco próprios sobre a sua conduta sexual e os resultados que obtém. Isto é outro dos sinais.

Em 2015 escreveu outro livro, “SOS Manipuladores”. Qual é a diferença entre um narcisista e um manipulador?
Um narcisista normalmente é manipulador, mas um manipulador pode não ser narcisista. Há muitas pessoas que manipulam, de vez em quando, e não são narcisistas. São — pensam elas — espertas.

No fundo os dois são pessoas tóxicas.
Sim, são pessoas tóxicas e é preciso ter cuidado com elas.

Um manipulador não é necessariamente uma pessoa que queiramos ter na nossa vida.
Não, um manipulador vive pelo interesse. E o narcisista também, toda a sua vida é à volta de interesses. Ele pensa: “Vou ter este e este amigo, porque se estiver doente tenho um amigo médico; se tiver algum problema legal, tenho um amigo advogado.” Toda a sua vida é gerida desta forma, com base num interesse próprio. O narcisista é aquela pessoa que geralmente nunca está para os outros mas que quer que estejamos sempre lá para ele.

[ É cada vez mais difícil ter uma relação] porque é cada vez mais fácil ter outra relação.

Como terapeuta de casal e mediadora familiar há quase 20 anos, qual é na sua opinião o maior ponto de conflito entre os casais atualmente?
Comunicação. Cada vez mais: as pessoas não sabem comunicar. Tenho de ensinar muitos casais a comunicar, porque a interpretação que fazem da mensagem do outro pressupõe sempre uma intenção maldosa. Tudo o que o outro está a dizer é interpretado como um ataque. Tenho pena que as pessoas não recorram a aconselhamento conjugal mais cedo, porque quando chegam, já chegam no limite. Um outro problema que sinto, especialmente em casais que começaram há pouco tempo, é um pé dentro da relação e outro fora. Assumir compromissos é extraordinariamente difícil hoje em dia. Confiança também: estão sempre a pensar que a relação pode terminar, estão sempre de malas feitas, e ao mesmo tempo não confiam. Isto também porque já passaram por uma série de experiências — isto numa faixa etária dos 30, 40, 50 anos — e têm muita dificuldade em confiar.

Porque é que é cada vez mais difícil ter uma relação?
Porque é cada vez mais fácil ter outra relação.

E é por isso que estamos sempre de malas feitas?
Exatamente. E depois vão saltando — exatamente o caso das pessoas narcisistas, que têm muita dificuldade em assumir compromissos e entregar-se. Elas têm um medo de amar imenso. Elas querem muito amar e sentir-se amadas, mas têm um medo imenso de se entregarem. Muitas delas, quando a relação começa a ficar mais séria, fogem. As pessoas hoje em dia têm muito medo de sofrer, e evitam o sofrimento a todo o custo. Especialmente nas relações amorosas. Depois acabam por se magoar ainda mais, porque o amor é o que dá sentido a tudo.

Além de “SOS Manipuladores”, escreveu “Pessoas que Nos Fazem Felizes”, que também aborda a questão das pessoas tóxicas. Isto é uma tema que lhe interessa particularmente?
Muito. E sinto que há uma imensa necessidade de informar as pessoas de que existe uma outra forma de perspetivar o amor. Parece-me que o conceito de amor está completamente deturpado. Eu abro a televisão e vejo uma estalada, a seguir um beijo, a seguir outra estalada, outro beijo e um empurrão. O que é isto? Isto é amor? Isto são grandes histórias de amor? Não são, isto é uma doença. Doença mental. É esta a minha missão: explicar que existem pessoas que podem gostar de si de forma saudável e que existem outras que não conseguem. Não conseguem dar nem amar. Portanto, escolha pessoas saudáveis para ter a seu lado. Porque as emoções contagiam-se. O simples facto de escolher uma pessoa mais negativa, sempre pessimista, uma pessoa tóxica, portanto, tem uma influência imensa no seu bem-estar, psicológico, físico.

Falava-me na questão da televisão e das imagens que nos são passadas.
E músicas! Tantas, tantas músicas. Ainda ontem ouvia uma música na rádio que dizia: “Tu não és aquilo que pensas, mas és aquilo que eu penso. Tu não vives sem mim nem eu vivo sem ti.” Mas o que é isto? E as pessoas acabam por ouvir estas palavras e acreditar que isto é que é amor.

Pode ser uma justificação para o porquê de vivermos cada vez mais relações tóxicas?
Ilusões. Parece-me que esta sociedade fomenta, alimenta, promove as ilusões completamente desmedidas — e o narcisismo, a tal grandiosidade em todos os contextos e áreas. Nós vemos por exemplo um anúncio publicitário na televisão que diz: “Compra este perfume para ter um namorado muito atraente”. Ou “compre o detergente X”… [risos]. Sabe qual é, não sabe?

Sei.
Pode ser que lhe saia dentro do pacote alguém assim [risos]. É um constante tiroteio, digamos assim, no sentido da perfeição, de ideais que não existem. A frustração ao lidar com essa constatação é cada vez maior. E é por isso que a depressão está a aumentar cada vez mais. O número de divórcios e separações também. O suicídio.

Cada vez mais um tema premente.
Cada vez mais.

Não é possível ter uma relação saudável e sentir-se bem com uma pessoa com traços profundos de narcisismo ao lado.”

Há pessoas que podem ter tendência para se envolver com narcisistas?
Sim, há pessoas que têm uma espécie de padrão e que procuram resolver alguns conflitos que trazem ao longo da vida nessas mesmas relações. Têm tendência a procurar pessoas que as façam sentir algo semelhante àquilo que experienciaram no passado, numa tentativa de resolução dessas mesmas situações. Por exemplo, se viveu uma relação difícil com a mãe ou com o pai, que era pouco afetuosa, que não o aceitou, então pode eventualmente ter uma tendência por pessoas que têm este tipo de comportamentos, numa tentativa de resolução desses mesmos problemas. Tudo isto de forma inconsciente. E de repente aparece-lhes uma pessoas completamente diferente desse padrão, uma pessoa saudável, e elas não sentem absolutamente nada por ela.

Então e como é que se quebra o padrão?
Compreendendo que ele existe e escolhendo pessoas diferentes. Que não tenham os mesmos comportamentos.

É possível ter uma relação saudável com um narcisista?
Não.

De todo?
De todo. Não é possível ter uma relação saudável e sentir-se bem com uma pessoa com traços profundos de narcisismo ao lado. Não é possível. Essa pessoa vai fazer com que se sinta completamente inexistente. Vai usurpar-lhe a vida, a energia — os narcisistas são sanguessugas de energia —, vai dar-lhe amor zero e não vai ter em consideração aquilo que é importante para si. Vai falar constantemente para uma parede. Tudo aquilo que ele lhe der, ele vai cobrar — por exemplo, vai dar-lhe um presente e a seguir diz-lhe quanto é que pagou por ele. Não vale a pena. Escolha pessoas saudáveis.

No campo amoroso nós podemos fazê-lo. Mas e quando o narcisista é um pai? Ou um filho?
Normalmente um filho narcisista tem como modelo um pai ou uma mãe narcisista. Gerou-se identificação com esses comportamentos — como não conseguiu lidar com eles, identificou-se. Estou a acompanhar alguns casais em que foi exatamente isso que aconteceu. Com uma mãe ou com um pai narcisista é também muito difícil, porque implica zangarmo-nos, aceitando que aquilo que eles fizeram é errado. E muitas vezes as pessoas estão em negação porque não querem zangar-se.

Como é que podemos ajudar um narcisista?
Não vale a pena falar com ele sobre emoções, sentimentos, aquilo que sente, o que é o amor, o que é a amizade. Isso tudo normalmente não resulta. Muito menos faça de psicólogo dele — eles detestam isso. Mesmo. Vai ter o efeito contrário. Parece-me que a única coisa que se pode dizer a uma pessoa narcisista é para ela pedir ajuda.

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