Adolescência. 3 histórias chocantes de sexo, violência e selfies

Depois de "O Fim da Inocência", Francisco Salgueiro recebeu centenas de relatos de jovens. O resultado é "S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies".

Warren Wong/Unsplash

Sexo, drogas, álcool. Noites levadas ao limite, partilhas incessantes nas redes sociais, bebedeiras que quase terminam em coma alcoólico. Foi em 2010 que Francisco Salgueiro publicou o livro “O Fim da Inocência“, inspirado na história real de uma adolescente portuguesa.

Inês tem uma vida aparentemente perfeita, frequenta um dos melhores colégios nos arredores de Lisboa e relaciona-se com filhos de embaixadores e presidentes de grandes empresas. Mas é também consumidora regular de drogas, participa em jogos sexuais arriscados e utiliza desregradamente a internet.

O livro foi publicado em junho pela Oficina do Livro. Custa 15,90€

“Antes de terminar ‘O Fim da Inocência’, perguntava a toda a gente se alguém conhecia histórias de outros adolescentes e ninguém conhecia. Era uma espécie de tabu”, conta à MAGG Francisco Salgueiro, 45 anos. “Quando o livro é publicado, começo a receber imensas histórias.”

“O Fim da Inocência” foi um enorme sucesso — em vendas, é verdade (já vai na 13.ª edição), mas também no despertar de uma consciência adormecida. Os pais não faziam a menor ideia do que os filhos andavam a fazer, a comunicação social não abordava estes temas. Depois do livro, e ainda mais depois da adaptação ao cinema (“O Fim da Inocência” foi o filme mais visto em 2017), tudo isso mudou.

Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Oito anos depois, ainda é raro o dia em que Francisco Salgueiro não recebe pelo menos um email de um adolescente a narrar-lhe alguma coisa. Foi por isso que surgiu a ideia de publicar “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies“, que reúne várias histórias reais que lhe foram enviadas. São relatos novos e verídicos que mostram o que os jovens do século XXI fazem no seu dia a dia, em particular à noite.

E mudou assim tanta coisa desde Inês? Sim. E está pior? Sem dúvida. “Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Por um lado, culpa das suas próprias profissões e estilos de vida, os pais acabam por estar mais desligados. Por outro, os miúdos vivem a cultura do YOLO (You Only Live Once — só vivemos uma vez) e do FOMO (Fear of Missing Out — medo de estarem a perder alguma coisa).

“Para nós pode não parecer muito tempo, mas para os adolescentes oito anos é de facto muito tempo em termos de novidades do que eles fazem no seu dia a dia. Há coisas que eles fazem hoje em dia que não passa pela cabeça dos pais ou das pessoas mais velhas.”

A MAGG pediu a Francisco Salgueiro que escolhesse excertos das histórias que mais o chocaram. Uma rapariga apanhada pelo segurança da discoteca a fazer sexo oral na casa de banho, e a ser filmada por amigos e desconhecidos. Uma jovem que reflete sobre um grupo de amigos que só interage via redes sociais (mesmo quando estão na mesma sala). Uma saída à noite que termina com uma agressão verbal — e física. Três histórias chocantes de “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Atenção: as histórias que se seguem contêm cenas e linguagem sexualmente explícitas que podem ser consideradas inadequadas e ofender.

Primeira história: como os adolescentes têm relações sexuais cada vez mais cedo

Puxei-o pela mão e levei-o para a casa de banho. Ficou tudo a olhar para nós. Eu senti-me a maior. Tinha a hipótese de ir para a casa de banho das raparigas, mas não dava pica e ali ninguém iria filmar. E eu queria ser filmada. Tipo, qual o interesse de se fazer uma coisa daquelas se não é para ficar registada?

Com um único gesto, puxei-lhe as calças para baixo e comecei a fazer-lhe um broche. Tal como no livro [“O Fim da Inocência”], tinha gelo na boca. A Inês dizia que lhe dava mais prazer. Tipo, Ok. Se dizes que sim, eu acredito em ti.

Senti-o muito à rasca. Comecei a ter medo de ter nas mãos outro Francisco, que não gostava de ser apanhado a foder. O caralho dele não levantava. Levei-o à boca, assim todo mole, e comecei a fazer movimentos para a frente e para trás. Aos poucos, ele foi ficando cada vez mais duro e quente.

Lentamente, comecei a ouvir à minha volta um crescendo de urros, gritos, guinchos, flashes.

Eu não tinha fechado o trinco de propósito e éramos o centro das atenções com tudo a olhar. Não havia uma única pessoa que não tivesse um telemóvel na mão e que não nos estivesse a filmar ou a tirar fotografias. Eu estava-me a lixar porque o meu cabelo era suficientemente comprido para me tapar a cara. Jamais alguém me reconheceria. Ao Bernardo sim, mas também me estava a lixar para isso. Ele sabia o que estava a fazer.

— Saiam todos daqui.

Ouvi uma voz ao longe. Era a voz de uma pessoa bué enfurecida, pronta a bater em alguém. Primeiro pensei que houvesse uma luta dentro da casa de banho, mas… a porta da casa de banho abriu-se e, por entre os meus cabelos, já com o caralho duro na boca, vi um segurança. Ele agarrou-nos pelos braços. Levou-nos. Aliás, arrastou-nos, como se não tivéssemos peso.

O Bernardo pouco tempo teve de apertar as calças. Apesar de eu gostar de ser apanhada a foder, a ser fodida, ou qualquer outra variante, jamais quereria que se soubesse que era eu. Não pretendia ser tagada no Facebook ou no Instagram.

O segurança atirou-nos para fora da … (discoteca perto da 24 de Julho). Atrás de nós vinham várias pessoas a filmar tudo, porque queriam ver a minha cara e o que íamos fazer de seguida. Tipo, amadores. Achavam que ia continuar a foder no meio da rua?

Dois seguranças vieram atrás de nós e deram dois murros na cara do Bernardo, que começou a chorar. Oh, God. Pussy.

Eu vi um táxi e fiz-lhe sinal para parar.

— Vem — disse-lhe muito rapidamente na minha figura de bruxa, ainda com o cabelo a tapar-me a cara.

— Para onde é que querem ir? — perguntou o taxista.

Ainda havia pessoas a seguir-nos e a filmar-nos com os telemóveis. Os que se encontravam na fila para entrar, olhavam, sem perceber o que se tinha passado. Mas um gajo e uma gaja serem expulsos numa discoteca… dois mais dois… Dahhh!

— Para qualquer lado longe daqui. Arranque já — ordenei eu ao taxista. Ele nem abriu a boca, simplesmente arrancou.
— Foi o máximo, não foi? — perguntei eu ao Bernardo, enquanto ia tirando o cabelo da boca, onde ainda sentia um sabor amargo.
Abri a janela, ergui-me, pus o tronco de fora e comecei a dar berros de contentamento. Eu estava realmente feliz. Depois de tudo por que tinha passado na pré-adolescência, sentia-me livre. Aos quinze anos estava a passar os melhores momentos da minha vida.
— Eh, pá. Tu mete-te já para dentro do carro, senão eu paro esta merda e deixo-vos aqui — disse o taxista aos berros, lixado.
Antes de me enfiar dentro do táxi dei mais uns berros “Vivam a vida. Que se foda tudo o resto”.
— Tu és parva?! Queres ser apanhada?! Eu amanhã vou aparecer em todo o lado — começou o Bernardo a gritar dentro do táxi.
— Há algum problema? — perguntou o taxista, cada vez mais irritado. Mas de que é que ele estava à espera? Se está à porta do … (discoteca perto da 24 de Julho), tem de ter tomates para os passageiros que apanha. Ou então é, tipo, burro.
— Não, nenhum, pode continuar — disse-lhe eu.
— Não há problema?! Claro que não há problema! YouTube, Instagram, e até nas páginas do Facebook “Comi-te no …” e a minha cara. A minha. Não tenho o cabelo comprido como o teu — continuava o Bernardo a gritar.
— A sério, falem mais baixo porque não estou com pachorra para vos aturar — avisou o taxista.

Até que, subitamente, o Bernardo tentou abrir a janela, mas já não foi a tempo, e vomitou, tanto para dentro como para fora do carro. Ou seja, lixou o carro todo.

O taxista travou a fundo.

— Eu sabia que vocês eram uns filhos da puta. Saiam do meu táxi. E quero dinheiro para limpar isto. Olhem só para a merda que fizeram. Isto vai ficar a cheirar durante semanas. Filhos da puta de miúdos mimados que não sabem beber!

Eu não conseguia parar de me rir baixinho. Saquei do meu telemóvel, tirei uma fotografia ao Bernardo ainda com vómito na cara e fiz uns instastories. Ele tentou tirar-me o telemóvel da mão, mas aquilo era tudo demasiado hilariante. Comecei a gravar tudo: o taxista aos berros, o Bernardo a vomitar de stresse. Eu a enviar instas e a ver os likes a aumentarem. Estava-me a dar uma pica! Só me apetecia foder. Não com o Bernardo naquele estado, claro. Mas ver que começava a ter tantas visualizações estava a dar-me, tipo, uma pica muito fixe.

Tão fixe! #obernardovomita
LOLOLOLOLOLO #gin #bernardo #vomito
O taxista é um patrão #lol #vomitonanoite

O Bernardo era filho de um embaixador, só que… not… isso era o do livro “O Fim da Inocência”. Este Bernardo era um rapaz perfeitamente normal, que já tivera algumas namoradas e que começou a ir comigo para o … (discoteca perto da 24 de Julho). Era o meu Bernardo.

Já falei de todas as minhas amigas menos de mim.

Fraquinho #ogajonaosabebeber
Medo #otaxistaaindavosbate #fujam

Cabelo castanho claro. Olhos azuis. Ginásio cinco vezes por semana, para não ficar com o rabo descaído como as amigas da minha mãe… ainda por cima, eu era gorda quando era pequena. Não uma bola. Mas aquilo a que os rapazes chamariam de gordinha. Aos onze anos começaram a nascer-me muitas borbulhas na cara, fiquei gorda e era gozada no colégio. Tive de aprender a maquilhar-me nos tutoriais do YouTube. Depois apareceu a Jade que começou a defender-me e por isso é que me tornei no seu “projeto social”. Falarei sobre isto mais lá à frente.

Para a próxima sai comigo #date #tueeu
És boa #foder #lamberte

— Acabou. Não te quero ver mais! — O Bernardo saiu do táxi ainda com vestígios de vómito no blusão, despiu-o, atirou-o para o chão e chamou um Uber, entrou nele quando chegou e deixou-me sozinha ainda um pouco longe de casa. Completamente sozinha.

Uber. Bora lá chamar um. Abri a aplicação, mas a bateria do telemóvel já estava marada há algum tempo. Tanto tinha 50% como 2%. Quando ia a carregar no botão para chamar o Uber, o telemóvel desligou-se. Fuck.

Segunda história: selfies, ou quando a vida só faz sentido quando é exposta

Ao final do dia e depois da praia, íamos sempre para casa de alguém do nosso grupo ou de algum conhecido.

Não me sentia muito confortável com estas visitas, não por querer estar mais vezes com a Katya e quase nunca poder para ninguém desconfiar, mas por me fazer lembra “O Fim da Inocência”, quando eles não sabem mais o que fazer da vida e se reúnem na casa da Femke, todos drogados, sem encontrarem sentido para as suas vidas, depois de já terem experimentado tudo.

E nós estávamos na mesma. Tínhamos começado aos doze anos, e já havíamos feito tudo. Fodemos muito. Drogámo-nos muito. Bebemos tanto, que muitos de nós já tinham ficado em coma alcoólico.

Apesar de estarmos uns sete na mesma sala, não falávamos uns com os outros. Cada um concentrado no seu telemóvel, a escrever, a ver o Insta, a fazer stories, a tirar selfies. Tipo, sei lá. Simplesmente não conversávamos. Cada um era o realizador da sua própria vida.

Sorríamos, tirávamos uma selfie, e depois ficávamos com a mesma cara aborrecida com que estávamos anteriormente.

Deixámos de viver o momento, porque o momento só existia se fosse gravado. Nós encontrávamo-nos no ponto de só nos entretermos se a vida fosse documentada. A maioria de nós não conseguia ficar mais de dez minutos sem checar o telemóvel.

A nossa vida resumia-se a sexo, drogas e selfies.

Apesar de o Verão ter sido todo assim, só naquele momento, fechada numa casa, sem distracções, e todos em modo zombie com os telemóveis na mão, é que tomei consciência daquilo em que nos tínhamos tornado. Fiquei horrorizada porque eu também fazia a mesma coisa, apesar de ter ao meu lado a pessoa que amava e que, por sua vez, também tinha o telemóvel na mão e fazia umas cenas quaisquer.

Tentei reler “O Fim da Inocência” na minha cabeça e não encontrei nada que eles tivessem conseguido fazer a seguir, que não tivesse dado merda. A Inês tinha conhecido a Rita, tinham-se tornado as melhores amigas, mas a verdade é que essa amizade fora tão tóxica que elas iam morrendo.

Eu queria fazer alguma coisa da minha vida. Precisava de fazer algo da minha vida. Tinha apenas dezasseis anos. Então virei-me para a Katya:

— Não dá mais.
— O quê?
— Esta relação não nos leva a lado nenhum.
— Tu não gostas de mim? O Verão não foi espectacular?
— Gosto, e sim, foi espectacular. Mas há quanto tempo não fazemos nada como fazíamos ao princípio?

De facto, só nos primeiros dois meses de relação é que nos fartámos de sair, e ao fim de pouco tempo a relação entrara numa rotina de sexo e pouco mais.

— Eu também gosto de ti, Joana.
— Eu também gosto de ti, Katya, mas não dá mais para mim. Preciso de voltar a sentir-me viva.

Este é um extracto da conversa que tive com a Katya, depois de grande parte do Verão ter sido passado daquela maneira. Naquele momento, pensei que aquele grupo de pessoas estava a intoxicar-me, a ponto de, aos poucos, começar a ficar presa a uma realidade de que não gostava. Praticamente já só conversávamos por telemóvel, mesmo estando muitas vezes na mesma sala. Eu precisava de me sentir livre de novo. Já estava farta de símbolos como os # ou os @. Já quase só sabíamos ser amigos virtuais uns dos outros. Pegar no telemóvel era o nosso instinto natural quando não sabíamos o que dizer às outras pessoas, ou quando nos sentíamos aborrecidos.

— Há quanto tempo não vamos para a cama? — perguntei.
— Mas uma relação mede-se pelo número de vezes que se vai para a cama?
— Ainda tens prazer comigo?
— Claro que tenho.
— Então porque é que, sempre que estamos juntas, cada uma está concentrada no seu telemóvel? — A Katya não tinha resposta. E eu também não, porque fazia o mesmo. Para ela estava tudo bem assim. Para mim não. — Nós fazemos parte da geração que só sabe comunicar pelo telefone e é por isso que estamos sempre aborrecidos. Sem telefone não somos nada. Mas nós temos de ser mais do que isso — disse-lhe, sentindo que com dezasseis anos era mais sábia e crescia mais depressa do que eles.
— Mas nós sempre falámos — disse a Katya.
Mentira. O que fazíamos sempre era sexo.
— Sempre tivemos cumplicidade.
Verdade. Apenas no sexo.
— Pegamos nos telefones quando nos sentimos aborrecidos. E pelos vistos estamos sempre aborrecidas uma com a outra — rematei.

Acabei a relação. Durante vários dias não quis sair de casa. A Katya ligou-me várias vezes, mas eu não atendi o telefone. Não era ghosting o que eu estava a fazer. Pela primeira vez. Mas simplesmente sentia que a relação se esgotara, que não ia a lado nenhum e que não fazia sentido conversarmos sobre isso. Iríamos andar à volta do mesmo assunto sem chegar a nenhuma outra conclusão que não fosse a de as nossas vidas se desenrolarem dentro de um telemóvel e não na realidade.

Foi muito duro para mim porque não podia contar a ninguém.

Naquele altura, senti-me sozinha, mas se contasse à Jade, de certeza que ela me abandonaria, e atrás dela iriam a Marta, o David, o Pedro e todos os outros que se davam connosco. Bastava a ordem da abelha-mestra para tudo se desmoronar, como eu já tinha visto acontecer no passado.

Foi um sufoco aquele luto que tive de fazer em silêncio. Não saía à noite sempre que sabia que a Katya ia. Por vezes ela dizia que não ia, mas acabava por aparecer, o que prejudicava e prolongava mais o luto. Mas quando cheirava coca esquecia-me do luto e íamos as duas para a casa de banho do … (discoteca no Estoril, perto da Casino) ter sexo.

Sim, eu sei que é uma contradição e que isto ainda me fazia pior. Só que a química entre nós era enorme, e sempre que a via só pensava em fodê-la e lambê-la. E quando consumia coca, esquecia-me do luto.

Mas depois pensava que precisava mesmo de fazer alguma coisa diferente na minha vida. Que não envolvesse ninguém do grupo. O que acontecera com a Inês, que se afastara do grupo no final de “O Fim da Inocência”, tinha de acontecer comigo e por isso, algumas semanas depois, tive outra conversa com a Katya, em frente a um bar, no Cais do Sodré, onde estávamos todos:

— Mas não me amas? — perguntou a Katya.
— Amo, mas isso não é suficiente.
— Como não é o suficiente? Quando duas pessoas se amam, querem ficar juntas. Então, nós devemos ficar juntas.

Terceira história: violência entre namorados

Dorme bem, querida. Amo-te #amorparasempre

Nessa noite, antes de ir dormir, recebi esta mensagem do João, como se nada tivesse acontecido. Eu ainda estava meio confusa, mas logo a seguir ao João ter saído e de eu ter ido tomar banho, fui abrir as encomendas que recebera de várias marcas para fazer mais um vídeo no canal. Queria esquecer-me do que se tinha passado, ou então convencer-me de que fora um acto de amor. Na verdade, não tinha dito para ele parar. Talvez o facto de eu não ter reagido possa tê-lo levado a achar que era normal eu permitir que ele tomasse o comando.

E era mesmo isso que tinha acontecido. No colégio, no dia seguinte, o João não parava de falar na nossa queca da véspera, de como tinha sido boa. Que já tinha contado tudo aos amigos, e de como deveríamos repetir. Nesse momento achei mesmo que eu é que estava a ser paranóia e que a culpa devia ser minha e não dele.

Ao mesmo tempo, no colégio, eu comecei a ser tratada de duas maneiras diferentes. Como se fosse uma mini-estrela. O meu canal era seguido pelas miúdas mais novas que me tratavam como se eu fosse uma rainha. Vinham imensas vezes ter comigo a pedir dicas de maquilhagem. Muitas delas com o mesmo problema que eu, o de terem borbulhas, e precisarem de as disfarçar ou de serem gordinhas e quererem dicas de alimentação.

As mais velhas fingiam que eu não existia, por inveja. Eu estava-me a cagar. Os meus vídeos tinham cerca de oitenta mil views.

A minha vida estava a correr bem. Ter começado a namorar com o João e ter criado o canal foram as duas melhores coisas que me tinham acontecido nos últimos tempos. Ok. O João era um bocado ciumento, mas era legítimo. Não me importava. Até tinha alguma graça. Só era chato às vezes quando me dizia para não sair à noite ou para não ir para o colégio de minissaia, porque não queria que os outros olhassem para as pernas que eram dele. Eu ia de calças. Isso não me custava nada.

— Beija-me imediatamente — disse o João com aquele ar autoritário que às vezes colocava quando queria assumir o controlo da situação.

Estávamos no Algarve a passar férias, em Vilamoura. Estava lá o grupo todo. Nessa noite tínhamos ido ao … (discoteca perto da Marina). Tinha tomado uma pastilha de MD lá dentro, e por isso estava tudo bem. Sentia que tinha muito amor para dar e beijei o João como se ele fosse o homem da minha vida e viesse a ser o pai dos meus filhos.

Estávamos ao lado do bar quando ele me pediu o beijo. Beijei-o. Óbvio. Sob o efeito da pastilha estava sempre pronta para tudo.

— Vamos dançar — disse ele de seguida.

Fui. Ele estava num daqueles dias a que já me habituara. Nesse Verão ele já me tinha pedido a password do Snap, do Facebook e do meu computador. Eu tinha-lhe dado porque não havia nada a esconder. Felizmente não me pedira a do canal porque sabia que era impossível comunicar com alguém sem ser através dos comentários e ele dizia que já vira a maioria dos comentários. Ya, devia ter visto meia dúzia e fartou-se de ler sobre eyeliners, batons e bases. O que foi a minha sorte. Mas já la vou. Voltemos ao Algarve.

Fomos dançar para a pista e reparei que ele não parava de olhar para um dos cantos. Eu tentava ver para quem é que ele olhava, mas havia tantas pessoas que não conseguia perceber.

E durante mais de uma hora, tanto dizia à bruta para o beijar como a seguir dizia querer dançar agarrado a mim enquanto me tocava levemente nas mamas. Não estava a perceber nada do que se passava. Mas com MD era indiferente. Valia tudo.

— Vamos embora — disse-me enquanto me agarrava à bruta pelo pulso e me arrastava pelo meio das pessoas na pista de dança.
— Calma. Estás a magoar-me.

Ele não me ouvia porque a música estava muito alta. A porta era do lado oposto ao que nos encontrávamos e ele apertava-me o pulso com cada vez mais força.

Eu parecia um boneco sempre a bater em todas as pessoas que me rodeavam tal era a força com que ele me puxava, que não dava para me desviar.

Quando chegámos lá fora ainda com os ouvidos meio dormentes por causa do som altíssimo que saía das colunas e que ainda se ouvia ali fora, perguntei:

— O que é que se passa desta vez?
— Não me fodas a cabeça.
— Ah! Eu é que não te fodo a cabeça. Passas a noite toda a olhar não sei para onde e eu é que não te fodo a cabeça.
— Tu és parva, é o que és. Não percebes nada disto.
— Parva?! — disse a sentir-me altamente insultada.
— Sim, és estúpida, não consegues perceber nada do que se passa na minha vida, por vezes penso que és burrinha.
— Burro és tu, que não me explicas o que é que se está a passar.
— Nem tenho de te explicar. Pensa. Usa essa tua cabeça para qualquer outra coisa que não seja falar sobre batons.
— Mas porque é que te estás a armar em idiota? — perguntei.
— Ah! Eu é que sou o idiota. Já te viste ao espelho? Cheia de borbulhas. Ao longe é que és gira.
— E tu um filho da puta.
— Cala-te e vai para o caralho.
— Tu não digas para eu ir para o caralho, ouviste? — gritei-lhe em tom de ameaça.
— Eu digo o que eu quiser. E sabes porque é que eu estava assim lá dentro? Porque vi a minha ex-namorada aos beijos com um gajo e queria fazer-lhe ciúmes.

Nesse momento tudo fez sentido e senti-me mal por lhe ter chamado todos aqueles nomes. Afinal houvera mesmo uma namorada durante três anos, por quem ele tinha tido uma paixão gigante.

— Mas porque é que não me disseste nada?
— Não me chateies. Tu hoje já me fodeste demasiado a cabeça.

Ele estava tão bêbedo que já não dizia coisa com coisa.

— Vá, vamos lá para dentro outra vez.
— Não quero. Olha ali para o fundo, minha burrinha, ela a ir-se embora com outro gajo.

Olhei e vi na rua uma rapariga loura de mãos dadas com um gajo.

Aproximei-me do João e dei-lhe um abraço.

— Pronto, vai ficar tudo bem.
— Está calada! Como é que sabes que vai ficar tudo bem? — perguntou ele com uma voz irritadíssima, enquanto me apegava com força os maxilares com uma mão.
— João, estás a magoar-me — disse-lhe eu com uma voz ligeiramente distorcida porque a posição da mão dele não me deixava mexer bem a boca.
— Eu largo quando quiser. Tu não mandas em mim. Tu és como aquela puta. Vocês são todas umas putas. Pensas que eu não sei que andas a apagar as conversas que tens com outros gajos através das mensagens do Instagram?
— Conversas com outros gajos?!
—Sim. Achas que uma puta como tu, sim porque já me contaram como foi o teu passado, se contentaria apenas com a queca do namorado? Aposto que andas a dar a cena a qualquer gajo que te vê nos vídeos.
— João, isso é mentira — disse-lhe enquanto tentava abraçá-lo.
— És uma puta como todas as outras.

Empurrou-me com força e caí no chão.

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