Morreu Anthony Bourdain, mas não sem antes comer marisco do Ramiro

Nunca dizia que não a nada, mesmo que fossem olhos de foca. Recorde a rota que o famoso chef fez nas várias vezes que esteve em Portugal.

Bourdain esteve quatro vezes em Portugal, uma em Lisboa e nos Açores e duas no Porto

Não se impressionou com o nosso sarrabulho, nem com as várias camadas da francesinha. Tal como nunca disse que não a um prato, mesmo que estivesse cheio de coisas tão estranhas como balut, pequenos embriões de aves cozidos ainda dentro da casca, ou de olhos de foca, como aconteceu no Canadá.

Anthony Bourdain comia com vontade, fosse num restaurante de luxo ou na tasca mais refundida da Índia. Basta ver que garante ter tido uma das melhores refeições da sua vida no japonês Jiro, em Tóquio, onde uma refeição dificilmente custa menos que 250 euros, mas que não resiste a um “nojento e vergonhoso” — palavras do próprio —’mac and cheese’ da cadeia de fast-food Popeyes.

Teve o que para muitos é uma profissão de sonho: viajar para comer. E nesse prazer diário, fez paragens estratégicas em Portugal, primeiro no Porto, onde voltou recentemente, mas só depois de uma viagem aos Açores e uma passagem por Lisboa.

No dia em que o mundo ainda digere a notícia da morte do homem que respirava comida, recordamos alguns dos restaurantes da rota que Bourdain fez por Portugal.

Lisboa

Cervejaria Ramiro

Sentou-se à mesa com Avillez e Sá Pessoa, mas a comida dessa noite foi tudo menos de chef. Bourdain come percebes como quem nasceu com esse dom e nunca usa os talheres para o camarão e nem mesmo para as ameijoas à Bolhão Pato. “Os portugueses fazem as melhores ameijoas do mundo”, garante.

Nos comentários em voz off comenta o quanto os portugueses gostam de falar de comida, mesmo enquanto estão a comer. É aqui que percebemos que ele está a entrar no esquema.

Ri-se quando José Avillez chama “sobremesa” ao prego que costuma vir depois da refeição de marisco, mas não diz que não quando ele efetivamente chega à mesa. E ainda lhe põe uma dose extra de mostarda.

Tasca do Chico

A coisa aqui torna-se menos animada. À mesa está António Lobo Antunes, no fado vadio está Carminho e, apesar de não se dar importância ao que está à mesa, tendo em conta que estamos numa das tascas mais típicas de Lisboa apostamos num caldo verde e num chouriço assado. Fala-se de “passado de ilusão”, “país de onde saíram soldados para a guerra” e Bourdain fica com ar de quem precisa de menos fado e mais vinho.

Cantinho do Avillez

Antes de entrar no restaurante do chef Avillez, fez uma paragem no Largo de S. Domingos para uma ginjinha. Foi bem aconselhado certamente, uma vez que foi exatamente A Espinheira o primeiro estabelecimento de Lisboa a comercializar a bebida. Isto em 1840.

O Cantinho do Avillez era na altura a grande novidade da cidade e o chef fez questão de vir à mesa explicar que o menu é maioritariamente de inspiração portuguesa, mas com influência de algumas viagens. Bourdain prova peixinhos da horta e lembra a semelhança com a tempura japonesa, delicia-se com morcela, “uma das coisas que sempre adorou”, ainda que tivesse aprendido o termo há dois minutos, e admira-se com o aproveitamento que fazemos do animal quando à mesa chegam um prato de pezinhos de coentrada.

Porto

O Afonso

Quando a francesinha chega à mesa, Bourdain olha para aquela torre de pão, bife e enchidos e pergunta se ali pelo meio existe alguma réstia de legumes. Não há, mas isso não importa. Dá a primeira garfada, diz várias vezes “so good”, até que para e lança uma provocação: “Qual é o índice per capita de doenças cardíacas neste país?”

Cervejaria Gazela

Cachorro é aquela coisa que pensamos comer apenas à saída do Lux quando Santa Apolónia ainda dorme, ou numa festa de verão, quando a fila para as farturas está demasiado grande.

Mas no Porto há quem faça deste petisco um ‘must go’ ou, neste caso,  um ‘must taste’. Na Gazela comem-se de pé, ao balcão e cortado aos bocadinhos, talvez para não assustar os clientes que chegam de fora, já que os do norte sabem que uma dose dá sempre para dois (ou três). Mas Bourdain não se assustou, como era de se esperar, nem mesmo com o sabor picante pelo qual são conhecidos.

Cozinha do Martinho

Ainda provou lampreia com os pescadores de Lordelo, mas não podia, nem os portuenses deixariam, que saísse dali sem se sentar à mesa de um dos sítios que melhor serve tripas à moda do Porto. Na Cozinha do Martinho, Bourdain teve mais uma prova de que os portugueses sabem mesmo, mas mesmo, aproveitar o animal e ainda teve a sorte de provar uma rabanada que, por ser um dos ex-libris da casa, não é sobremesa servida só no Natal.

Açores

O périplo pelos Açores deu-se mais ao ar livre do que propriamente em restaurantes. Não que não se coma bem nas ilhas, atenção, mas nada como provar os pratos mais típicos feitos pelas mãos de quem o faz para a família.

Comeu queijo fresco com molho de pimentão em casa de Carlos e Virgínia, antigos emigrantes que tinham voltado à ilha depois de anos a viver nos Estados Unidos e disse maravilhas de tudo o que lhe foi chegando à mesa, ainda em panelas acabadas de sair do lume.

Aliás, o único reparo que podemos entender como negativo é mesmo o “cheiro a pum” — palavras do próprio, novamente — que sai das furnas de São Miguel. Coisa que rapidamente esquece assim que mete à boca o primeiro pedaço daquele cozido especial.

Ainda que a viagem tenha sido feita com base em comida feita por locais, é quase que obrigatória uma paragem no Peter’s Café, na Horta, conhecido pela decoração feita de souvenirs de várias partes do mundo e pelo gin tónico. Bourdain, ironicamente, conta a forma “original” como a bebida é servida, numa mistura de “gin e, ‘no way’, água tónica”. Mas aqui é fácil calar as ironias, desta vez com queijo, azeitonas e bolo lêvedo.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]