E se em vez de vários copos, utilizasse o mesmo a noite toda?

Sim, o copo continua a ser de plástico. Mas não vai para o lixo — é reutilizado. Esse é o objectivo do projeto Lisboa Limpa.

Combater o desperdício e poupar o ambiente é a grande missão do Lisboa Limpa.

Cristiana Morais

Bianca Beyer cresceu no campo, em Bade-Vurtemberga, no sul da Alemanha, junto à Suíça. Os principios que sempre lhe foram incutidos passavam por economizar e reutilizar, desde a água à luz e a todos os outros bens que pudessem voltar a ter utilidade. Além de aprender a poupar dinheiro, aprendeu a respeitar e a preservar o ambiente. Aprendeu a não desperdiçar. Veio para Portugal em 2012, depois de conhecer o namorado em Barcelona. É por cá que se mantém até hoje, depois de um curto interregno em Munique. A jovem de 33 anos quer mudar a forma como utilizamos os copos de plástico. Abandoná-los? Não é preciso. Basta que o reutilize.

Depois de três anos a dirigir atividades pedagógicas com crianças na Escola Alemã, em Lisboa, onde o respeito pelo planeta foram sempre temas frequentes, Bianca quer ir mais longe. É a fundadora do projeto Lisboa Limpa, que, além de vários ateliers e sessões de esclarecimento relacionadas com a sustentabilidade, quer revolucionar a forma como utilizamos os copos de plástico na cidade. O objetivo não é aboli-los, mas, antes, saber utilizá-los. A ideia é simples: e se em vez de utilizar vários copos de plástico, utilizasse sempre o mesmo?

Há várias empresas a fazerem o mesmo, em vez de todas se juntarem para fazer o mesmo copo”

A proposta é de fácil execução: nos locais onde o Lisboa Limpa está, pode utilizar este copo reutilizável, pagando uma caução de 1€, que será reembolsada, caso devolva o copo. A devolução pode ser feita no mesmo local, ou noutro em que o projeto também esteja presente. Desde maio, já chegou a cinco estabelecimentos de Lisboa: à associação Crew Hassan, nos Anjos, ao quiosque do Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, na Avenida da Liberdade, à Associação Renovar a Mouraria, na Mouraria, ao Café Dias, na zona de Alcântara e ao Café Quatro Estações, no Largo de São Paulo, no Cais do Sodré.

Bianca é alemã e tem 33 anos. Vive em Lisboa desde 2012.

Cátia Barbosa

Neste momento, há quase 80 mil toneladas de lixo plástico no mar. É dificil imaginar o significado deste número no espaço, mas nós ajudamos: são cerca de três Franças, em quantidades com um peso equivalente a mil milhões de elefantes. “Fomos aprendendo a deitar as coisas fora. Não temos respeito pelos recursos que estamos a gastar. Precisamos de mudar”, alerta. “Precisamos do plástico para coisas importantes, temos é de saber utilizá-lo e, mais importante, reutilizá-lo e combater o desperdício”

Criar uma rede de copos reutilizáveis

“É muito importante devolver o copo para que possa ser reutilizado”. Faz sentido. Se o levarmos para casa, ele deixa de fazer parte do projeto e é menos um para servir o seu grande propósito: reutilizar, poupar recursos e ajudar o ambiente. É preciso construir uma rede de depósito de copos, que facilite o trabalho de todos: dos estabelecimentos e de quem os utiliza.

“Temos de trabalhar todos em conjunto. O que se pretende é que as pessoas possam ir buscar o copo num sítio e devolvê-lo noutro”, diz. “Quantos mais estabelecimentos estiveram envolvidos, mais fácil será a devolução.”

A expansão está para breve. Há mais locais da cidade que já demonstraram interesse, tais como a Hamburgueria da Parada, em Campo de Ourique, o SideBar, no Bairro Alto, a Casa Independente e os Anjos 70, os dois últimos junto à Almirante Reis.

Somos uma associacao sem fins lucrativos. O objetivo não é fazer dinheiro, mas claro que temos de pagar os gastos. Precisamos de apoios que partilhem da mesma visão que a nossa e que acreditem no projeto.”

Atualmente já circulam centenas de copos pelos diferentes espaços que aderiram. Não têm todos a mesma quantidade, já que esta é ajustada à necessidade e ao movimento de cada estabelecimento. Segundo Bianca, já foram produzidos 1100 copos, sendo que 500 estão na sua posse, para que se possa repôr o stock, quando necessário. O custo de cada um sai da carteira da alemã, que se tem dedicado exclusivamente ao projeto em que tanto acredita.  “Somos uma associacao sem fins lucrativos. O objetivo não é fazer dinheiro, mas claro que temos de pagar os gastos. Precisamos de apoios que partilhem da mesma visão que a nossa e que acreditem no projeto.”

“Não quero fazer dinheiro com os copos, mas era bom ter ajuda para que não tivesse de parar.”

Há outras marcas que têm apostado na utilização de copos reutilizáveis, mas o problema é que, não tendo a política de reembolso, acabam por ser utilizados da mesma forma que aqueles que se querem evitar: não havendo uma nova utilização, acabam por ser descartáveis. O problema mantém-se: plástico para o lixo, plástico para os oceanos.

“Há várias empresas a fazerem o mesmo, em vez de todas se juntarem para fazer o mesmo copo”, diz. Os espaços que se associam ao projeto pagam um preço: o tempo que se gasta na lavagem do copo. Compensa? Sim. O projeto é para o bem de todos. “Todos os bares parceiros que se associam ao projeto o fazem pela causa em si.”

Os supermercados têm plástico em pacotes, sacos, caixas. Os cafés e bares também, com a agravante dos copos e das palhinhas. No mundo perfeito, haveria, para Bianca, uma união de esforços para se lutar de forma eficaz contra este desperdício sem sentido e consequente destruição da Terra. “A culpa não é só das pessoas que não deitam fora. Todas as empresas grandes e indústria fazem o mesmo.”

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