As crianças consomem cerca de 20 pacotes de açúcar por dia, sem saberem. Quem o disse foi a endocrinologista pediátrica Júlia Galhardo na grande reportagem da SIC “Somos o que Comemos“, transmitida em 2015, e que se tornou altamente viral. O tema gerou polémica, porque mostrou como este ingrediente existe, em peso, em quase tudo o que comemos. A médica fez um retrato assustador sobre as consequências de uma má alimentação e mostrou a ignorância dos pais face às práticas erradas e perigosas que, sem saberem, incutiam em casa.

A obesidade infantil em Portugal

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De acordo com um estudo realizado pela APCOI — Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (referente a 2016 – 2017), 28,5% das crianças entre os 2 e os 10 anos têm excesso de peso em Portugal. Deste número, 12,7% são obesas.

De acordo com a mesma associação, crianças obesas correm um risco elevado de vir a “sofrer sérios problemas de saúde na adolescência e na idade adulta”, como “cardiovasculares, hipertensão, diabetes, asma, doenças do fígado, apneia do sono e vários tipos de cancro.

O problema é grave. De acordo com um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado no passado dia 29 de maio, apesar de a dieta mediterrânea ser considerada a mais saudável e equilibrada, são as crianças desta zona do mundo aquelas que apresentam os números de obesidade mais elevados. Há qualquer coisa que não bate certo.

É a doença do século XXI. É uma das grandes causas da mortalidade na atualidade — praticamente no mesmo patamar que o tabaco — ainda que se apresente na forma de outras doenças. O açúcar (sobretudo o que é adicionado em produtos processados) é um dos grandes culpados, porque está em quase tudo o que comemos, na maioria das vezes escondido — até no rótulo, onde assume outras designações, grande parte terminadas em “ose”. Passados quatro anos da reportagem que alertou o País para a relação entre o excesso de peso nas crianças e o consumo exagerado de açúcar, a MAGG falou com Júlia Galhardo sobre o que mudou, o que está a ser feito e o que é que ainda falta fazer para o problema ser solucionado.

Júlia Galhardo fazia a consulta de obesidade no Hospital Dona Estefania em Lisboa e está atualmente no Centro Materno Infantil Norte, no Porto. Também já esteve no Bristol Royal Hospital for Children

“A curva é positiva, não tenho dúvida nenhuma”, diz à MAGG. “Em 2007, quando comecei a fazer consulta de obesidade, o problema já existia, mas ninguém falava nisto. Achavam que se uma criança era gordinha, não fazia mal, porque ia crescer. Mas já sabemos que não é verdade: a criança cresce para cima e para os lados, porque os hábitos continuam.”

Já há uma taxa sobre o açúcar, aplicada aos refrigerantes. Já desapareceram as máquinas de vendas automáticas nas escolas e nos hospitais, que restringiram a oferta dos doces, bolos e salgados.

Os refrigerantes têm menos (ou nenhum) açúcar. Passaram a ser saudáveis?

Há projetos muito positivos que intervém diretamente junto das crianças como o Nutri-Ventures ou os Heróis da Fruta, que, de forma didática, ensina aos mais novos os benefícios das frutas e dos vegetais. “Criaram-se coisas excelentes”, diz. “É giro porque é uma iniciativa com aventura, que lhes ensina as propriedades dos tipos de alimentos. Aprendem imenso”, diz a médica que considera estas acções essenciais.

Os miúdos comem a mais e a mais do que não deviam”

Também há escolas que apostam em projetos importantes para a formação alimentar e juntas de freguesia que também agem no mesmo sentido. Um exemplo recente é o de Famalicão, onde, de acordo com a RTP, uma farmácia, em conjunto com várias escolas, lançou um projeto de promoção de saúde, que consistiu na criação de uma horta onde os alunos podem plantar e cultivar. “Um miúdo que cultiva vai saborear aquilo que plantou. A experimentação é fundamental”, refere a médica.

Junto das famílias, em consulta, a médica nota uma maior “consciencialização” e preocupação por parte dos educadores. No entanto, é comum ficarem surpreendidos, quando percebem que as novas regras das crianças terão de ser também as suas. A intervenção nos hábitos alimentares tem de incluir o agregado familiar inteiro, e não apenas nos filhos. “Não é só a criança que não deve comer mal, são todos”, explica. “Não é um problema do miúdos, mas sim do agregado, onde muitas vezes se faz uma alimentação a correr e pré-fabricada, com pouca atividade física. Os miúdos são a imagem dos pais. Comem a mais e comem coisas a mais que não deviam comer.”

As incoerências, o que está a acontecer e o que não está a acontecer

Apesar de os bares terem banido as máquinas de venda automática, continuam a disponibilizar nas vitrines e prateleiras produtos processados, açucarados e cheios de gordura. “Não faz muito sentido”, diz Júlia Galhardo. Depois, nos supermercados, há taxas sobre produtos maus, mas não há incentivos para a compra de produtos bons. Há ainda programas do Governo online que incentivam os bons hábitos, mas ninguém os conhece porque se aposta pouco na sua divulgação. Há corredores de dieta cada vez mais apetrechados de produtos, mas muitos deles continuam a ter efeitos nocivos para a saúde. O caminho está a ser feito, mas é ainda longo e está cheio de incoerências.

Os piores alimentos que encontrámos à venda no bar de cinco escolas

Estruturalmente, a “única grande alteração foi nas bebidas açucaradas, porque no resto ninguém tocou. E há muito açúcar em tudo o resto”, diz, dando o exemplo dos iogurtes, que são, muitas vezes, “sobremesas lácteas”, que se pensa fazerem bem, tendo o efeito inverso: “Têm mais de 12 gramas de açúcar, quando deviam ter menos de seis.”

O grande problema é o açúcar escondido. “Sabemos que as bebidas açucaradas têm, mas há outros produtos que a maioria das pessoas não sonha, como os pãezinhos de leite, em que acham que é só isso: pão com leite.”

As zonas de dieta dos supermercados e hipermercados podem parecer um passo em frente, mas podem muito bem significar o inverso. “Há coisas que até são piores do que nos corredores normais”, diz. “Estamos a ser enganados pela indústria do açúcar e estamos a deixar porque nos sabe bem. As pessoas andam à procura do que é doce porque se habituaram a ter este sabor em tudo. É preciso reeducar o paladar e isto, no início, custa.”

Tudo o que não e processado, tudo o que vem da natureza, não devia ter IVA. O problema é que isto seria um arrombo enorme para o estado. Mas era assim que se educava, porque estamos a dificultar a compra de uns, mas não facilitamos a compra de outros.

É preciso ir mais longe. De acordo com Júlia Galhardo, o plano de ação deve ser acionado em três frentes: na indústria, através da alteração da forma dos rótulos, nas escolas, que devem ensinar e alertar para a importância da alimentação na saúde, e no governo, que deveria incluir taxas no que não se deve comer e eliminar os impostos nos produtos que formam a base para uma dieta saudável.

“Os rótulos têm letras mais pequenas do que os contratos”, diz. “Era preciso aumentar o tamanho e adotar a regra do semáforo. Para as gorduras, o açúcar e o sal era uma mais-valia enorme, porque permite perceber se a presença destes ingredientes é, ou não, acima do recomendado através de cores [verde, amarelo e vermelho].”

Num ano, Inglaterra diminuiu em 5% o açúcar em 5 categorias de alimentos

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O governo inglês quer reduzir a quantidade de açúcar presente em oito categorias de alimentos, que incluem bebidas, iogurtes, leite e substitutos, cereais, guloseimas, molhos, entre outros. Um ano após o desafio ser lançado. O grande objetivo é incutir hábitos saudáveis na população, diminuindo os valores da obesidade.

Em 2016, lançou o desafio à industria e propos-lhe que, até ao ano estabelecido, diminuísse em 20% a quantidade de açúcar presente em oito categorias de alimentos. A 22 de maio foram divulgados os resultados referentes ao primeiro ano. Mostraram um decréscimo de 5% de açúcar, em cinco categorias de alimentos.

A indústria precisa de ser pressionada. “Ela muda e adapta-se ao que nós queremos e precisamos. Se deixarmos de consumir o que não é saudável, eles vão modificar as fórmulas para os produtos serem mais saudáveis”, diz. “Eles querem é vender.”

Nos estabelecimentos de ensino, já se nota algum esforço através de pequenas ações, mas isto acontece “muito poucas vezes e em muito poucos sítios”, salienta. A médica reforça que “são os miúdos que mudam as casas” e, por isso, estes assuntos deviam ser tratados, nas escolas, com a seriedade que merecerem.

Mas há a escassez de tempo e a grande quantidade de matérias obrigatórias, que fazem com que “não sobrem horas para o resto”, diz. “Sentimo-las como supérfluas, mas a verdade é que a formação em cidadania e nutrição são a base.”

Júlia Galhardo recorda que há “um lobby brutal” que retira a coragem para ações mais drásticas, mas que, de acordo com a médica, seriam um enorme passo na evolução do processo. Tal como acontece noutros países, como Inglaterra, a solução seria aumentar os preços dos produtos maus, tal como aconteceu com os refrigerantes, através da introdução da taxa do açúcar. No entanto, isto não basta.

“Não chega aumentar preços do que não presta, é preciso baixar o preço daqueles produtos que prestam”, defende. “Tudo o que não é processado, tudo o que vem da natureza, não devia pagar IVA. O problema é que isto seria um arrombo enorme para o Estado. Mas era assim que se educava, porque estamos a dificultar a compra de uns, mas não facilitamos a compra de outros.”

Pastel de nata, Sumol e outros 14 produtos que têm açúcar suficiente para um dia

A experiência mostrou-lhe que é mais fácil viver em Inglaterra naquilo que se refere a “comprar comida para cozinhar em casa”, precisamente porque só os processados é que têm IVA. “Aquilo que querem é fazer as pessoas comprar produtos frescos para cozinhar em casa.”

É, de facto, de casa que vem a saúde: “Não há volta a dar. A solução também passa por cozinhar. E, para quem tem uma vida sempre a correr, por organizar, adiantar o máximo possível quando há disponibilidade, para congelar e descongelar.” A médica diz que houve uma fase em que as pessoas “desaprenderam a cozinhar”, mas que agora poderemos estar “a caminhar no sentido inverso (que é positivo), facto que é visível pela moda das marmitas no trabalho, que é ótima.”

Hoje é mais fácil dar um iPad, que é quase uma babysitter electrónica, do que ir correr ou brincar com eles para o parque”

Estes são os três principais campos de intervenção. Mas há outros aspetos que devem ser revistos. A publicidade e a divulgação de projetos que foram criados com o intuito de promover uma vida saudável são dois deles.

“Nas horas dos desenhos animados, os anúncios mais predominantes são dirigidos aos miúdos. E tudo o que é para eles tem bonecos, porque é o que os atrai”, diz. Da mesma forma que isto é utilizado no bom sentido (como no caso dos Nutriventures ou Heróis da Fruta), é usado como arma de marketing. “O problema é que estão a publicitar produtos como o Suissinho ou o Compal Essencial, que têm quantidades de açúcar enormes.”

E, depois, há pouca promoção dos projetos que incentivam e alertam para o tipo de alimentação que se deve, e não deve, seguir, com explicação das vantagens, consequências e soluções. Como exemplo há o blogue de O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, criado pela Direção-Geral de Saúde, o “Nutrimento”, que “quase ninguém conhece”, incluindo profissionais a quem vai dar formação.

“Devia ser divulgado na RTP que é uma estação pública. A internet e o Facebook não chegam. É preciso entrar nos olhos das pessoas, o que só acontece pela televisão e em horário nobre.”

O sedentarismo é outro problema grave e que, conjugado com uma alimentação desequilibrada, gera um cenário negro para a saúde — o que também é um “arrombo para o Estado”, quer seja por o dinheiro que se gasta a tratar a obesidade e doenças que origina, quer seja pelo absentismo laboral que as mesmas originam.

“Se pensarmos na diabetes e doenças cardiovasculares — já para não falar nas intervenções cirúrgicas —, são um rombo no orçamento. Nós estamos a resvalar montanha abaixo. Já percebemos isso, mas não pomos travões.”

“Não é obeso quem quer. É obeso quem pode”

O mundo está feito para não nos mexermos. “Há escadas rolantes em todo o lado. Há os elevadores que são sempre mais visíveis do que as escadas normais”, diz. “Saímos de casa e vamos para o elevador, do elevador vamos para o carro, do carro para a cadeira do escritório.”

Segundo Júlia Galhardo, os miúdos têm de se mexer. E, para isso, os pais têm de dar o exemplo “Não precisam de ir para um ginásio”, diz. “Basta que corram, que brinquem e que andem”.

A mentalidade já está a mudar, mas ainda não chega. É preciso fazer uma alimentação equilibrada, com os nutrientes certos. É preciso comer sopa ao almoço e ao jantar. É preciso comer fruta e vegetais. É preciso usar as pernas e menos as escadas e o sofá. E é preciso que os pais deem o exemplo. “Hoje é mais fácil dar um iPad, que é quase uma babysitter electrónica, do que ir correr ou brincar com eles para o parque”.