Os 4 piores conselhos de namoro que está a receber (ou a dar)

Já alguém lhe disse para se 'fazer de difícil'? Ou que, quando conhecer a pessoa certa, vai perceber que é 'a tal'? Saiba porque é errado.

O melhor conselho que a psicóloga dá é ir com calma e perceber que é preciso tratar todas as relações como se fossem um começo fresco e deixar-se ir

Clem Onojeghuo / Unsplash

Os amigos, os avós, os pais, e até os colegas de trabalho: podia ser infinita a lista de pessoas que tentam dar conselhos sobre namoro quando percebem que alguém pode precisar. No entanto, a verdade é que nem todos são bons e, alguns acabam por tornar a situação ainda pior. Se lhe dizem para se fazer de difícil, para não procurar pessoas online ou que quando conhecer a pessoa certa vai saber, então precisa de ler os conselhos de Rosa Amaral, psicóloga clínica doutorada em aconselhamento, que explica como estes conselhos, na verdade, não ajudam em nada, revelando quais os conselhos que dá aos seus clientes.

1. “Quando se conhece alguém sabe-se, imediatamente, se é a pessoa certa”

“Nem sempre”, é assim que a psicóloga começa por explicar que esta é uma ideia que precisa de ser desmistificada. “Parece que andamos todos à espera do clique e de uma pessoa mágica com quem se vai fazer esse clique, quando às vezes eles vão surgindo exatamente com o conhecimento e o aprofundamento da relação, e com o fascínio pela pessoa”, afirma. Mesmo conhecendo casais que se apaixonam à primeira vista, afirma que “muitos casais só desenvolvem a relação, o ‘gostar’ e ‘a pessoa significar algo’, através do convívio e do conhecimento, enquanto que, no início, a pessoa se calhar nem se apercebeu”. No entanto, há sempre sinais: “Não quer dizer que, olhando para trás, não tenham achado a pessoa atraente, ou seja, havia ali sinais de que a pessoa poderia ser ‘a pessoa’”. Podem sentir uma atração e achar a pessoa interessante, mas não perceber que poderia resultar algo e, depois, com o evoluir da relação, acabar por descobrir que aquela é ‘a pessoa’.

2. “Quando se está interessado em alguém devemos fazer-nos de difíceis”

Rosa Amaral explica que o jogo da sedução é importante e necessário no início de uma relação, pois “não deve ser tudo feito ao mesmo tempo, logo de início ou à primeira vez, se não a pessoa não tem a certeza do outro, e nós precisamos de ganhar alguma segurança nas relações”. Mas este conselho não deve ser levado ao extremo: “Uma coisa é fazer um jogo de sedução e de corte, outra coisa é fazer-se difícil. Com isso corremos o risco do outro perder o interesse, de não estar disponível para essa luta toda ou de ter as suas próprias inseguranças”. A psicóloga aconselha a “fazer um jogo de sedução, de entrega e de recolha ao mesmo tempo”. Para além disso diz não ser bom defender-se demais numa relação, pois isso pode afastar o outro por parecer que existe um desinteresse.

3. “Tentar estar sempre no seu melhor e fazer tudo bem na relação até ela estar consolidada”

“Faz parte, no início de uma relação, nós melhorarmos o nosso ‘eu’ e tentarmos dar ao outro um ‘eu’ cuidado”, diz Rosa Amaral. Mas quando a relação começa a evoluir, com três ou quatro saídas, convém que a pessoa se comece a revelar: “Não necessariamente os aspetos todos negativos que tenha, mas a revelar-se no seu verdadeiro ‘eu’. Porque, se não o faz, não só não tem uma relação real, como não dá a sua verdadeira versão”.

Há casais que vão ao sushi uma quantidade de vezes e um deles odeia, mas não diz nada. Depois, de repente, quando a relação está cimentada, ele diz ‘o último sítio onde vamos é ao sushi’”

A psicóloga conta que existem muitas relações que sofrem com este problema pois, ao fim de uns meses, estão a mudar. “Há casais que vão ao sushi uma quantidade de vezes e um deles odeia, mas não diz nada. Depois, de repente, quando a relação está cimentada, ele diz ‘o último sítio onde vamos é ao sushi’. E a outra pessoa fica a perguntar-se ‘o que é que se passa?'”, exemplifica. Um exemplo muito presente é também o do tabaco: “Tenho casais que uma das pessoas fuma e a outra não. A pessoa tolera isso no namoro e até brinca quando diz à outra para não fumar tanto, mas não parece ser nada do outro mundo. De repente, quando a relação está estabelecida, há quase que uma exigência do outro deixar de fumar”.

Rosa Amaral conta que costuma dizer aos casais “que no início da relação estabelecem-se as regras e é bom estarmos atentos a isso”. Regras de respeito, regras de espaço, regras de personalidade e do que o outro gosta e quer. É nessa altura que a pessoa está fascinada com a outra e que “se está a revelar a si própria na coragem de querer estar numa relação”. Ao mesmo tempo, o processo de conhecimento do outro vai fazê-la decidir se este lhe agrada, ou não, pelas suas características, por isso, ninguém se deve sentir enganado. O conselho da psicóloga é que dê a sua melhor versão, porque “os primeiros encontros são como se fossem entrevistas”, mas depois ir revelando o verdadeiro ‘eu’, “na esperança que o outro se encante por aquilo que é a sua verdade”.

4. “Só se conhecem pessoas estranhas e mentirosas online” ou “nunca se vai conseguir ter uma relação séria se conhecer alguém na noite”

“É verdade que se conhecem pessoas diferentes online, mas não é a maioria”, conta Rosa Amaral explicando que, por causa da idade e da dificuldade em fazer amigos e conhecer pessoas, alguns dos seus clientes recorrem à internet, às saídas à noite e às excursões para procurar uma nova relação. “Há uma dificuldade muito grande porque a nossa sociedade está montada de tal maneira que, hoje em dia, quando se perde o núcleo de amigos nessas idades, é muito complexo reencontrar alguém”, frisa, acrescentando que no trabalho as relações que se estabelecem acabam por não evoluir, por isso é uma necessidade procurar estes meios.

Há uma dificuldade muito grande porque a nossa sociedade está montada de tal maneira que, hoje em dia, quando se perde o núcleo de amigos nessas idades, é muito complexo reencontrar alguém”

Aquilo que tem de ter noção é que, no mundo digital, cada um é quem quer ser e não necessariamente quem verdadeiramente é. A psicóloga afirma que, se é uma pessoa séria e quiser entrar no mundo online, “também vai conhecer pessoas sérias, honestas e normais, que têm apenas dificuldade em encontrar alguém de forma mais tradicional”. Rosa chama ainda a atenção para as medidas de segurança que são precisas: “As pessoas têm de ter os cuidados de perceber as plataformas onde se estão a movimentar. Há plataformas onde podem encontrar desde a pessoa que está à procura de um compromisso sério, à pessoa que está à procura apenas de conhecer pessoas online, flirtar e ter fantasias digitais”. Pode conhecer de tudo online, só tem de se definir antes de escolher essa metodologia e perceber do que é que vai à procura e como é que vai poder defender a sua privacidade, enquanto não tiver a certeza de quem é o outro.

Com as saídas à noite os conselhos são os mesmos: “Hoje em dia as pessoas saem à noite para se divertir, para dançar e, muitas vezes, as pessoas estão na noite sem estarem à procura de alguém. Nessas circunstâncias, se conhecer alguém que está lá também para se divertir e dançar, pode estar a conhecer a pessoa da sua vida”. No entanto, não se esqueça de se proteger enquanto não tem a certeza do outro: “De início é preciso ter em conta os princípios de cada pessoa que está na noite e do que é que ela está à procura”.

Os conselhos da psicóloga

Depois de ler quatro conselhos que se costumam dar, e que não são grande ajuda, Rosa Amaral revela alguns dos conselhos que habitualmente dá aos seus clientes. O maior de todos é: “Vão com calma. É preciso primeiro conhecer as pessoas e perceber se aquilo que foi dito e informado é mesmo verdade, para que a relação se possa desenvolver”. Trabalhando constantemente com pessoas já um pouco traumatizadas com relações, Rosa ajuda-as “a perceber que têm de tentar todas as relações como se fossem um começo fresco, e têm de se deixar ir”. Aconselha a avaliar cada relação como se fosse um evento independente, para não fazer projeção de fantasmas das relações anteriores nas suas relações atuais, “porque com os medos e as situações das anteriores” pode magoar a atual. Um dos maiores segredos é tentar “fechar as relações anteriores de uma forma positiva, que tentem perceber o que é que correu bem e o que é que correu mal”. É preciso fazer uma análise e agarrar nessa informação para que se possa definir e para que não projete esses medos na relação seguinte.

A pessoa só sofre se viveu algo e, se viveu algo, valeu a pena”

“Aconselho, muitas vezes, a que deem a si próprias o espaço para mergulhar nas relações sem arrastarem muitos medos, se não, nunca mais serão felizes”, conta Rosa. Explica que é preciso acreditar no afeto, no amor e nas relações, percebendo que sofrer também faz parte da vida: “Se a pessoa, com medo de sofrer, não se entrega à relação, estará sempre protegida e é como se estivesse sempre a conduzir a relação com o travão de mão e ela nunca atinge o seu potencial”. É preciso  perceber que sofrer de amor porque se perde é um processo natural, que “a pessoa só sofre se viveu algo e, se viveu algo, valeu a pena”. A psicóloga explica que “é preciso virar a nossa ideologia para acreditarmos nos afetos, para acreditarmos que se pode viver uma história de amor, que ela pode acontecer e que podemos ser felizes”. No entanto aconselha a não se reger por aquilo que é o hábito: “Quem rege a velocidade das relações são os próprios, ou seja, as relações não são uma moda. As pessoas têm de ir definindo o ritmo com o qual estão confortáveis e o passo do qual querem ir usufruindo. Têm de se entregar, de acreditar e, obviamente, fazer tudo isto com alguma defesa e proteção”.

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