Michael Imperioli. O amor por Lisboa, a morte de James Gandolfini e o filme “Cabaret Maxime”

O ator admira Ana Padrão, explica a relação com Portugal e conta o dia em que se embebedou com James Gandolfini na rodagem de "Os Sopranos".

Michael Imperioli mudou-se de Nova Iorque para Santa Bárbara e hoje diz que não teria qualquer problema em viver em Lisboa

Entrámos na suite presidencial do Tivoli Hotel, na Avenida da Liberdade, em Lisboa e não havia sinais de Michael Imperioli. Enquanto, durante breves segundos, aguardávamos que chegasse, eis que somos surpreendidos. A pessoa que se encontrava de costas, pernas dobradas, a mexer nuns cabos, era, afinal, a estrela da série “Os Sopranos” e o protagonista do filme “Cabaret Maxime” — realizado pelo português Bruno de Almeida —, rodado em Lisboa e com estreia marcada para quinta-feira, 31 de maio, nas salas de cinema portuguesas.

De camisa branca e calças cinzentas, sentou-se num dos sofás do amplo quarto e, num tom pouco formal e descontraído, partilhou com a MAGG algumas histórias, desde as primeiras visitas a Lisboa (cidade em que, em 2006, deu o primeiro concerto enquanto vocalista da banda La Dolce Vita), à rodagem do novo filme e da série pelo qual ficou conhecido. Descobrimos qual foi a cena que mais lhe custou interpretar em “Os Sopranos” e qual o momento mais hilariante pelo qual passou com o amigo e falecido James Gandolfini, o ator que protagonizou a série da HBO na pele de Tony Soprano.

É verdade que o seu irmão teve um restaurante português em Nova Iorque?
Ele trabalhou num. Era de um tipo português que, por acaso, era amigo do Bruno de Almeida e do meu irmão, que acabou por trabalhar lá. Chamava-se “Pão!” mas fechou.

Como começou a sua relação com Portugal?
Eu e o Bruno conhecemo-mos em Nova Iorque, em 1996 ou 1997 quando gravámos o filme “Em Fuga” onde John Ventimiglia também tinha um papel principal. Ficámos amigos desde logo mas a minha ligação com Portugal começou muito antes. A primeira vez que vim a Portugal foi na gravação do filme “A Vida Interior de Martin Frost”, escrito e realizado pelo romancista Paul Auster. O final do filme foi feito em Sintra e quando voltei a Lisboa foi para atuar com a minha banda naquele que viria a ser o primeiro concerto de sempre do grupo, no agora extinto Cabaret Maxime. Voltei em 2007 para gravar o filme “The Lovebirds”.

Eu amo Lisboa, em parte porque é uma cidade bem ao estilo europeu. Um pouco à semelhança de Nova Iorque, na medida em que podemos ir a pé para qualquer lado.”

Como conheceu Manuel João Vieira?
Foi através do Bruno. E nessa viagem foi quando vi pela primeira vez a banda portuguesa “Ena Pá 2000”, e achei-os o máximo. Foi o John [Ventimiglia], que antes já tinha atuado no Cabaret Maxime, que me mostrou as gravações do seu espetáculo e me disse o quão fantástico tinha sido. Depois de ver aquilo achei que era o sítio perfeito para tocarmos enquanto banda.

Como foi a experiência?
Foi fantástica. Aconteceu numa altura em que a banda ainda estava muito no início mas, apesar disso, foi muito especial. Sempre adorei o Cabaret Maxime, desde a estética, à história e à vibe fantástica que transmitia. Guardo muitas recordações especiais daquele espaço.

Vive em Santa Bárbara porque não gosta de cidades grandes?
Sim. Em 2011 mudámo-nos de Nova Iorque para Santa Bárbara, precisamente porque eu já não aguentava viver numa cidade tão grande.

Porquê?
Sentia que estava a gastar demasiada energia e dinheiro em educar os meus filhos numa cidade tão grande e que, a certa altura, não estávamos a tirar proveito do facto de vivermos em Nova Iorque. Mas agora os miúdos cresceram e eu vivo com um pé em Santa Bárbara e outro em Nova Iorque, não só porque trabalho lá mas também porque ainda amo a energia daquela cidade.

Quais as maiores diferenças entre as duas cidades?
Santa Bárbara é quase como o meu porto seguro, o refúgio perfeito para a loucura frenética do dia a dia. Mas com o passar do tempo apercebi-me que não vivo sem a loucura de Nova Iorque e sem a paz e calmaria da Califórnia.

Vê-se a viver em Lisboa?
Eu amo Lisboa, em parte porque é uma cidade bem ao estilo europeu. Um pouco à semelhança de Nova Iorque, na medida em que podemos ir a pé para qualquer lado. A vida está aqui, mesmo à nossa frente. Basta sentarmo-nos num banco e depressa vemos as pessoas e o mundo a passar à nossa volta. Adoro a estética da cidade e de toda a história que a envolve. Não tinha problema nenhum em viver aqui.

Nota diferenças a nível turístico?
Sem dúvida. Na minha primeira visita a Lisboa eu e o Bruno ficámos no Bairro Alto Hotel — que tinha acabado de abrir —, e é claro que as nossas saídas passavam pelo Bairro Alto e pelo Cais do Sodré. Antes era tudo muito mais local, com artistas, músicos e uns bares porreiros. Nos últimos anos tudo mudou…

Como assim?
Foi no sábado passado que estivemos por Lisboa e não me lembro de ver tanta gente junta. Não posso dizer que fiquei surpreendido, já que vi o mesmo a acontecer em Nova Iorque há muito tempo. Há um bairro chamado Meatpacking District que, na altura, era composto apenas por fábricas de carne e talhos. Nos anos 90 começaram a aparecer alguns bares tipicamente nova iorquinos, mas a partir de 2000 tudo mudou. Os talhos e as fábricas deram lugar a restaurantes, bares e hotéis muito caros. As pessoas que frequentavam o bairro eram aquele tipo de pessoas que iam já dispostas a gastar muito dinheiro. No fundo, foi um bairro que perdeu a sua identidade, mas isso foi um processo que se gerou devido ao investimento feito. Veio de fora, e não de dentro. 

Isso pesou na decisão de ir para Santa Bárbara?
Em parte, sim. A certa altura vi tudo a fechar ou a mudar e eu só pensava que aquela não era a minha cidade. Agora olho com outros olhos para o fenómeno e reconheço que ainda amo aquela cidade. E é isso que me faz voltar tanta vez.

A arte deve desafiar. Deve ser nascer da luta de estar vivo e de perceber a dor, a felicidade, a alegria, a tristeza e todos estes sentimentos.”

Como foi trabalhar com a atriz Ana Padrão?
Já tinha trabalhado com a Ana antes no filme “The Lovebirds”. Ela é simplesmente fantástica, emotiva, inteligente e uma atriz com quem eu adoro trabalhar. Neste novo filme, o “Cabaret Maxime”, a relação das personagens que interpretamos é muito profunda e acho que só conseguimos fazer certas cenas porque a nossa ligação era de total confiança.

Como surgiu a ideia para o filme?
Há 12 anos, quando eu e o Bruno começamos a pensar num filme que tivesse como personagem principal um músico completamente cansado e farto do estatuto que tinha alcançado enquanto estrela de rock. Numa crise existencial, ele acabaria por desaparecer a meio dos concertos que a banda tinha agendados um pouco por toda a Europa. Mas houve uma altura em que chegámos ao fim da linha e pensámos “como é que damos seguimento à história?”.

Contratámos guionistas e até deixámos que amigos nossos tentassem dar seguimento ao que críamos, mas acabou por não ter sucesso. Depois do concerto no Cabaret Maxime, e de sabermos que tinha fechado, o Bruno pensou que seria perfeito introduzir o pouco que tínhamos daquela personagem naquele contexto e depressa escreveu o guião.

Tem três filhos e estão todos ligados ao mundo das artes [um ator, um músico e uma fotógrafa]. Hoje é mais difícil sobreviver neste meio do que era no seu tempo, quando começou? Que princípios é que lhes tenta incutir?
Sempre foi difícil e vai ser sempre. E acho que deve ser mesmo assim. A arte deve desafiar. Deve ser nascer da luta de estar vivo e de perceber a dor, a felicidade, a alegria, a tristeza e todos estes sentimentos. Não temos de ser artistas, mas se for essa a paixão, devemos segui-la. Sempre disse aos meus filhos que eles podem fazer o que quiserem, mas que vão ter de trabalhar muito. Este filme [“Cabaret Maxime”] demorou 12 anos a chegar ao ecrã. É muito tempo e requer muita paciência.

Acho que atualmente é difícil ser um artista, mas também o era quando eu comecei. Hoje há desafios, claro, mas há coisas mais fáceis também. A geração jovem é criativa e sabe como é que há de fazer a sua arte e divulgá-la. Hoje podem pôr um vídeo no YouTube e serem estrelas. Podem fazer um filme e publicá-lo logo. No meu tempo tínhamos de encontrar um distribuidor e fazê-lo chegar ao cinema. Acho que todas as gerações têm os seus desafios, mas acaba sempre por culminar tudo no indivíduo e naquilo que ele consegue dar.

Falou, numa entrevista ao Marc Maron, sobre uma professora que teve, aos 17 anos, grande impacto no seu percurso, porque lhe ensinou muito sobre diferentes tipos de arte. Porque é que para um ator é importante conhecer e compreender escritores, pintores ou músicos?
Na representação não temos um instrumento ou um pincel. É uma uma expressão artística abstrata, porque nos usamos. Portanto, temos de entender o que é que a arte significa e em que é que consiste. Ao aprender sobre grandes escritores, pintores ou músicos, entender o que eles tentaram fazer, podemos relacionar-nos como atores, e pensar em várias questões importantes: “O que é que eu quero fazer? O que é que eu quero expressar? O que é que eu quero dizer?”. E se tivermos sorte suficiente para trabalharmos com realizadores e escritores que nos queiram ouvir podemos colaborar com eles e fazer uma declaração individual. E isto nasce de refletir como um artista e não de pensar “eu quero aparecer na televisão, dá-me um guião que eu interpreto.” Trata-se de percebermos o que é que, daquilo que vimos no mundo, queremos partilhar. O que é que, de tudo o que experienciámos, queremos trazer cá para fora.

É músico, já produziu peças de teatro, deu formação a atores, participou em vários filmes, mas será sempre conhecido como Christopher de “Os Sopranos”…
Se for para ser reconhecido por um papel, não me importo que seja por esse. Além da personagem, que é ótima, foi um projeto incrível. Foi importante na história da televisão americana porque representou um ponto de viragem. Tenho muito orgulho. Acho que o que fizemos foi muito especial. E, para mim, acaba por ser pessoal porque já conhecia muitos dos atores. De alguma forma, “Os Sopranos” e “Cabaret Maxime” são semelhantes devido à relação com os atores, que já conhecia bem e com quem já tinha contracenado antes.

Acha que há semelhanças entre as personagens Bennie e Christopher?
São muito diferentes. O Christopher era movido pela ambição. O Bennie é mais pelo amor, pelo valor da família e por fazer as coisas bem. Admiro o Christopher por ter trabalhado tanto nas suas metas, como ser um realizador ou um mafioso. O Bennie só quer manter e proteger o que já tem. São duas perspetivas muito, muito diferentes.

O mais duro foi a morte do Jim [James Gandolfini]. Tínhamos acabado de fazer um filme de miúdos, que um dos atores [de “Os Sopranos”] tinha escrito. A estreia foi em Los Angeles e vi-o lá, duas semanas antes de morrer. Estava ótimo e duas semanas depois estava morto.”

Considera que o facto de ser uma personagem trágica fez com que as pessoas sentissem tanta empatia pelo Christopher?
Sim, é uma personagem trágica porque desejava fazer qualquer coisa. Ele nasceu num sítio muito específico. Nasceu numa família da máfia. E foi seduzido por isso. Achou tudo muito sedutor, glamoroso e atraente, apesar de ser muito perigoso, muito negativo e de magoar pessoas. Mas ele desejava qualquer coisa maior. Tinha noções e ambições artísticas — escreveu guiões e produziu um filme. Se ele tivesse nascido na minha família, que não é da máfia, talvez tivesse sido um escritor. Ele nasceu no mundo errado e não teve escolha.

E depois houve o problema de abuso de drogas…
Sim, ele era viciado. E não conseguia lidar com isso. Como muitos outros, não foi capaz de se manter sóbrio, principalmente depois de começar a abusar de substâncias mais pesadas.

De todas as temporadas, recorda-se da cena mais difícil de filmar em “Os Sopranos”?
Sim. Quando a Adriana [Drea de Matteo] conta ao Christopher que é uma informadora do FBI. Naquele momento, ele percebe que a vida dele nunca mais será igual. Ou a perde ou perde o mundo dele. Puxam-lhe completamente o tapete. Foi uma cena difícil porque tínhamos de ouvir e reagir, num momento em que as expectativas estavam tão elevadas. E claro, sabíamos que ela ia sair [da série] e que já não a íamos ter connosco. Tornámo-nos muito amigos.

Foram sete anos a rodar a mesma série. Qual é o balanço?
Foi muito positivo. Ter tanto sucesso num projeto de que nos orgulhamos tanto é muito especial. E como já nos conhecíamos ainda foi melhor. Criámos laços muito fortes enquanto grupo, quase como uma banda, que ainda mantemos. O mais difícil foi quando terminou, porque sabíamos que íamos ter saudades uns dos outros e que íamos sentir falta do trabalho.

O mais duro foi a morte do Jim [James Gandolfini]. Tínhamos acabado de fazer um filme de miúdos, que um dos atores [de “Os Sopranos”] tinha escrito. A estreia foi em Los Angeles e vio-o lá, duas semanas antes de morrer. Ele estava contente, positivo. Acho que não ser o Tony Soprano estava a ser bom para ele. Ele tinha de afastar-se da personagem porque foi um caminho longo e de muito trabalho. Estava ótimo e duas semanas depois estava morto. Ficámos de coração partido.

Contracenei com ele mais do que com qualquer outra pessoa e, provavelmente, mais do que irei contracenar com outros atores. Tinha tantas cenas com ele, durante tantos anos. Fomos a sítios obscuros nessas cenas, sítios emocionais. Quando trabalhamos com alguém como ele — ou como a Ana Padrão —, com sentimentos tão crus e despidos, criam-se laços especiais porque nos expomos e estamos lá uns para os outros. É uma coisa muito especifica. Eu tinha isso com o Jim. Mas ele já não está connosco. Foi trágico. E sinto a falta dele. Era um grande artista.

Estávamos tão bêbados que eles tinham medo que caíssemos do penhasco. Então, prenderam as nossas pernas, com uma corrente, a uma árvore para não cairmos. É uma história real.”

Recorda-se da cena mais hilariante que passaram juntos nas gravações?
Quando matámos o Ralphie [interpretado pelo Joe Pantoliano] a quem cortámos a cabeça. Tínhamos de livrar-nos do corpo dele. Fomos para um parque em Nova Jérsia, onde havia um grande penhasco, em que, em baixo, era o rio. Era de lá que o íamos atirar. Ensaiámos e, depois, a cena teve de ser iluminada — o que dá muito trabalho e pode demorar até três ou quatro horas, principalmente quando estamos fora do estúdio, no exterior, num bosque. Fomos para a carrinha esperar. O escritor entrou e ficou connosco. Era sexta-feira e já deviam ser umas dez da noite. O Jimmy agarrou numa garrafa de whiskey cheia e disse: “Vamos beber um copo.” Uma hora depois, outra vez: “Vamos beber um copo.”

Quando a equipa entrou e disse que estava tudo pronto para gravar — já devia ser meia-noite — a garrafa estava vazia. Já estávamos todos tortos. Saímos e quando eles nos viram ficaram preocupados. Estávamos tão bêbados que eles tinham medo que caíssemos do penhasco. Então, prenderam as nossas pernas, com uma corrente, a uma árvore para não cairmos. É uma história real. Bebemos a garrafa toda.

Faz sentido vir aí uma prequela de “Os Sopranos”?
Não sei bem o que é que vão fazer. Ouvi dizer que se vai passar em 1968, na altura em que havia muitas manifestações e lutas entre brancos e negros, em Nova Jérsia, e que vão entrar algumas personagens [de “Os Sopranos”] numa versão mais jovem. Não acho que vá ser um novo episódio, tanto que não tem o mesmo nome. Vai ter um título diferente. Acho que vai ser bom porque é o David Chase a escrever, mas não sei mais do que isso.

Como é nascer numa família ítalo-americana?
É crescer com muita família à volta. Avós, primos e tios. Moram todos perto. Havia muito o sentido da tradição, da comida, da família. Foi uma ótima forma de crescer.

Vê parecenças com a portuguesa?
Há uma semelhança muito grande. A estética, a família, o amor pela comida, o amor pelo vinho, o amor pelo amor, o amor pela música. Acho que está muito relacionado.

Texto de Fábio Martins e Ana Luísa Bernardino.
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