“Quando quero escrever uma cena de sexo entre dois homens e uma mulher vou ao YouTube”

Megan Maxwell é a autora que mais livros vende em Espanha. Escreve romances eróticos, sempre com a mulher a dominar.

Megan Maxwell veio a Lisboa para participar na Feira do Livro

“Gosto de todas as mulheres ativas no plano sexual”.

“Todas desejam que me enfie entre as suas coxas”.

“Gostamos do sexo ardente, arrebatado e excitante, e desejamos desfrutar dele de mil maneiras”.

Tudo isto aconteceu na primeira página. Não foi sequer preciso virar a folha do livro para perceber o porquê do autocolante da capa com o aviso “Não aconselhável a menores de 18 anos”.

Megan Maxwell escreve romances eróticos há mais de vinte anos, no início apenas para a mãe e as amigas lerem. Agora, é tão só a autora espanhola que mais livros vende e, em Portugal, é comum vê-la nos tops. O mais recente, “Eu sou Eric Zimmerman”, editado pela Planeta, foi o mote para que viesse a Lisboa apresentá-lo na Feira do Livro e a MAGG não quis perder a hipótese de dar cara a quem escreve frases como as que começam este texto.

“As pessoas acham que eu sou super sensual, que ando de chicote na mão”, brinca. Mas não, podemos garantir. Megan é, na verdade, Maria Del Carmen, 53 anos, antiga secretária de assessoria jurídica que apenas começou a publicar livros há nove anos. “Sou uma pessoa normal mas com uma grande imaginação”, garante. Vai à internet ver como funcionam na prática as cenas de sexo que quer descrever e recusa-se a contar histórias nas quais a mulher não seja o elo mais forte da relação.

Porquê um pseudónimo?

Porque como nunca pensei que uma dia ia publicar livros, mandava os meus textos para as editoras assinados como Megan. Sempre gostei muito deste nome, não sei porquê. Como sou filha de um americano e de uma espanhola acho que se tivesse ficado a viver nos Estados Unidos seria Megan. Quando me propuseram escrever um romance, perguntaram-me como queria assinar: Carmen ou Megan. Escolhi Megan, mas era demasiado curto. Só que naquele momento estava a ouvir um cantor que gosto muito, o Maxwell, e pensei ‘Megan Maxwell’. Soou-me bem e ficou.

Mas ainda há quem a chame de Carmen?

Só as pessoas do escritório onde trabalhava como secretária me chamavam de Carmen. Eu sempre fui Megan. Somos uma família de diminutivos e de apelidos. Eu sou Megan para todos.

Já escreveu 41 livros. Quem lê isto pensa que tem uma carreira longa, mas a verdade é que só começou a publicar há nove anos.

Sim, mas escrevo há mais de vinte.

Como era a vida antes de se tornar escritora?

Uma vida quase tão normal como a que levo agora. Trabalhava das 9h às 17h como secretária de assessoria jurídica, ia buscar os meus filhos à escola, levava-os ao parque, íamos para casa, dava-lhes banho, preparava o jantar e ia para a cama.

E agora?

A única diferença é que os meus filhos cresceram e já não preciso de lhes dar banho [risos]. É certo que já não sou secretária, mas mantenho as minhas rotinas. Sou eu que cozinho, ponho a máquina a lavar, tenho os mesmos amigos que tinha…

Mas é preciso escrever muito para ter 41 livros publicados em tão pouco tempo.

A escrita deixou de ser um hobbie para ser o meu trabalho. Trabalho de segunda a sexta das 9h30 às 15h, paro para almoçar e volto ao trabalho às 15h30 até às 21h. Tento ter os fins de semana livres, mas sei que quando estou perto de uma entrega, os dois últimos fins de semana são de trabalho também. Sou muito metódica.

[Toca o telemóvel e Megan pede autorização para atender. No final explica: ‘Estou a mudar de casa e queriam ir agora entregar-me uns caixotes. É a prova de que sou mesmo uma pessoa como as outras. Se não for eu a desempacotar aquilo, ninguém vai o vai fazer por mim’]

Os seus livros são sempre centrados num personagem. Como é que se constrói essa pessoa?

Tudo vem da minha imaginação. Claro que às vezes conheço alguém que me chama a atenção, ou vejo algo na rua que podia ser um pormenor da história, mas normalmente parto de um denominador comum: todas as minhas mulheres são fortes, a partir dai faço algumas variações.

Tem por hábito apontar as ideias que vai tendo?

Sim, nessas alturas digo em voz alta as minhas ideias para o gravador do telemóvel. Mas em caso tenho um caderno a que chamo “O caderno das ideias”, no qual vou apontando coisas que me chamam a atenção. Todos os escritores passam por fases de bloqueio, é aí que vou lá folhear a ver se encontro um desbloqueio.

E pegando numa das personagens mais recentes, quem é Eric Zimmerman, alguém que tenha conhecido?

Quem me dera! [risos] Todas as mulheres querem um Eric Zimmerman e eu sou a primeira. Mas é totalmente inventado. Queria escrever uma novela erótica na qual a mulher não fosse a típica tonta, que se deixa manipular. Queria também criar um casal com duas pessoas muito diferentes e, para mim, não há maior diferença entre um alemão e uma espanhola. Eu tenho família dos dois lados e sei bem. Os alemães são rígidos, os espanhóis são ‘Olé’. Basicamente, o Eric Zimmerman é um alemão que só uma espanhola consegue tourear.

Não me importo que comparem os meus livros com as ‘Cinquenta Sombras de Grey’. Se me comparassem com uma merda talvez me importasse”

Para se escrever sobre erotismo é preciso ser uma pessoa naturalmente sexual?

Não, eu acho que basta ter imaginação. Quando comecei a escrever sobre estes temas tinha dúvidas sobre se as pessoas iam gostar, até porque tudo o que tinha lido do género até ali tinha sempre bondage e submissão e isso a mim não me excita. Lembro-me que, na altura, reuni alguns amigos e perguntei aos homens o que os excitava e todos eles falavam de cenas com duas mulheres ou um homem e duas mulheres. Perguntei às mulheres do grupo e a resposta era a mesma. Decidi ir por aí, pela troca de casais, mais do que seguir o caminho do bondage.

Mesmo assim, é comum compararem os seus livros com o “Cinquenta Sombras de Grey”?

Muito. São romances eróticos, não há como fugir. Mas as personagens não têm nada a ver umas com as outras. Se me importo? Não, porque me estão a comparar com um sucesso mundial. Se me comparassem com uma merda talvez me importasse.

Tem por hábito ver películas eróticas ou pornográficas como fonte de inspiração?

Normalmente prefiro pesquisar na internet. Imagine que quero escrever sobre uma cena de sexo entre dois homens e uma mulher, vou ao YouTube ver imagens e vídeos do género, até que encontre aquilo que vai ao encontro do que imagino.

Enviei romances durante 14 anos às editoras e a resposta foi sempre ‘não’. O problema é que eu tenho defeito: se me dizem não, eu procuro o sim”

Qual é a linha que separa o erotismo da pornografia?

É a linguagem usada. O erotismo é sensualidade, fineza. A pornografia é simplesmente ‘dale que te pego’ [risos].

É a prova de que o erotismo funciona na literatura. Alguma vez imaginou este sucesso?

Nunca imaginei que isto me fosse acontecer. Quando comecei a publicar já tinha uns doze romances escritos e nunca os tinha enviado a ninguém. Escrevia simplesmente porque gostava e já ficava feliz só de fazer umas cópias para oferecer à minha mãe, à minha tia e às minhas primas. Foram elas que me desafiaram a enviar às editoras e assim fiz. Enviei o primeiro e disseram-me que não. Enviei romances durante 14 anos às editoras e a resposta foi sempre ‘não’. O problema é que eu tenho defeito: se me dizem não, eu procuro o sim.

Esse sucesso acontece porque as pessoas continuam à procura de histórias de amor?

A maioria das pessoas está a precisar de amor e acho que muitas das pessoas que leem os meus livros fazem-no por isso, porque precisam de amor, precisam de ler algo bonito, algo com um final feliz.

Com tantas formas de escrever sobre o amor, porquê o erotismo?

Eu escrevia sobre amor de muitas formas, mas a minha editora desafiou-me a escrever um conto erótico, alegando que todas as minhas histórias tinham cenas de sexo. Mas uma coisa é escrever uma cena de sexo, outra é escrever um romance erótico. Mas lá está, picaram-me e eu aceitei o desafio. Depois há outra coisa: eu tenho a mania de que antes do livro, tenho que ter o título. Pensei na frase ‘Pede-me o que quiseres’ — o meu penúltimo livro — e a partir daí desenvolvi a história. Quando entreguei à minha editora a reação dela foi: ‘Com que então não sabias escrever literatura erótica, não?’

Por escrever romances eróticos, as pessoas imaginam que seja uma pessoa também erótica?

Completamente. Acham que só visto couro, ando de chicote [risos].

Já deixou alguém desiludido?

Não, pelo contrário. As pessoas gostam de perceber que afinal sou uma pessoa normal.

Chegaram a recusar-me livros alegando que as minhas mulheres eram demasiado fortes”

Existe quase que uma comunidade à sua volta.

Sim, as “guerreiras Maxwell”.

Como é que isto aconteceu?

Costumo dizer que as coisas que me têm acontecido ultimamente, acontecem porque sim. Começamos por ser cinco amigas e dizíamos que éramos guerreiras. Uma delas um dia disse que éramos guerreiras como as mulheres dos meus livros e daí veio o nome “Guerreiras Maxwell”. Sempre tive a necessidade de escrever sobre mulheres fortes, talvez porque fui criada por uma guerreira, a minha mãe, que me criou como mãe solteira. Mas sabe que chegaram a recusar-me livros alegando que as minhas mulheres eram demasiado fortes?

É difícil ainda ver uma história em que o homem é submisso?

Agora não tanto, mas há vinte anos quando comecei a enviar as minhas histórias às editoras sim. Pediam-me para suavizar as suas personalidades e eu recusei sempre. Agora, os leitores dizem que o que mais gostam é mesmo o facto de pôr sempre a mulher num plano superior. Cresci numa família de mulheres e se a lâmpada fundisse, não esperávamos que viesse um homem trocá-la.

E essas guerreiras que começaram em sua casa, agora são quem?

Agora é uma comunidade mundial de mulheres fortes. Ser uma guerreira é lutar pelo que queres e, se caíres, levantas-te. Mil vezes se for necessário.

E o que fazem essas mulheres por si?

Compram os meus livros que é o principal. Mandam-me cartas, mensagens, contam-me como os meus livros lhes mudaram a vida. É de tal forma que basta escrever algo no Facebook para receber mensagens de algumas a dizer que me sentiram mais triste ou mais contente só pelo meu tom de escrita. Acertam quase sempre.

Não chega a ser assustador ser a líder de uma comunidade?

Às vezes sim. Quando estive no Chile, há três anos, abriram-se as portas do aeroporto e vi um mar de gente a gritar. Olhei para trás pensando que vinha um ator ou um cantor famoso e afinal era para mim.

Tem fãs do sexo masculino?

Muitos, mas são mais tímidos e só se expressam por mensagens privadas. Peço-lhes para escrever no mural, até para dar o exemplo, e dizem-me que não o fazem com medo que os amigos vejam.

Alguma vez foi abordada de forma desagradável por ser mulher a escrever sobre erotismo?

Sim, há sempre alguém que acha que pode ir mais longe só porque sim.

Viveu muitas situações desse género?

Por mensagens privadas sim. As pessoas acham que por escrever aquilo, também o pratico. Enviam as maiores obscenidades que possa imaginar, fotografias, etc.

Responde ou ignora?

Ignoro, bloqueio e adeus.

Escrever sobre erotismo atrai ou assusta os homens?

Eu acho que assusta. Começa por ser uma atração, porque os homens são mais sexuais do que as mulheres, mas no final assusta. Os homens estão acostumados a tomar as rédeas, quando veem uma mulher a avançar ficam assustados.

Os seus filhos já leram os seus livros?

O meu filho, como é menor, ainda não. A minha filha tem 21 anos e já leu alguns. A minha mãe, então, adora. Às vezes, quando vejo que é um bocadinho à frente demais digo para não ler e ela lê na mesma. Uma vez disse-me que passa à frente as cenas de sexo e que a história fica ainda melhor.

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