8 jardins que vai poder conhecer de borla este fim de semana (e as suas histórias incríveis)

O Festival Jardins Abertos está de volta para uma segunda edição e traz novidades para os miúdos, um eco piquenique e cinema. Em Lisboa.

Este fim de semana pode visitar a Estufa Fria de Lisboa gratuitamente

Tomás Tojo tinha dez anos quando começou a fazer jardinagem em casa. “Tive o privilégio de ter uma mãe que me deixou ser muito criativo no jardim”, recorda o jovem de 27 anos à MAGG. “Plantei centenas de coisas. Algumas morreram — é algo que acontece e às vezes deixa as pessoas desanimadas, mas eu insisto sempre com elas para que voltem a tentar. Faz parte da aprendizagem.”

Depois de um curso profissional de artes e espetáculo no Chapitô, uma licenciatura em Arte e Cinema e um Mestrado em Londres na área de Direção de Arte, nos últimos anos Tomás Tojo dedicou-se a projetos de economia social “que envolvem plantas e pessoas”. No ano passado juntou um grupo de amigos, que apesar de serem de áreas diferentes tinham em comum uma enorme paixão pela natureza.

Nasceu assim o festival Jardins Abertos, que trouxe pela primeira vez a oportunidade dos lisboetas conhecerem praças, pátios e jardins privados na sua cidade, tudo de forma gratuita. Este ano o evento vai ainda mais longe, e além de mais jardins (passaram de dez para 23) há também novas formas de visita (pode optar entre a livre, guiada ou acompanhada) e muitas atividades. Acontece este fim de semana, 26 e 27 de maio.

Mas já lá vamos. Porque é de jardins que estamos a falar, pedimos a Tomás Tojo, diretor do festival Jardins Abertos, que escolhesse oito jardins imperdíveis e nos contasse as suas histórias. Não podemos dizer que são os melhores — todos eles são especiais, seja pelo modelo de jardinagem ou pela história de quem cuida deles. Mas são espaços que não o vão deixar desiludido.

Que comece o passeio.

Quinta das Pintoras (Marvila)

Há mais de 100 anos na mesma família, a Quinta das Pintoras abre as portas ao público pela primeira vez. Tem uma estufa, um lago com cisnes negros, muitos caminhos e um jardim de buchos que a organização e os seus voluntários conseguiram arranjar para o festival. “Diria que é um dos jardins mais carismáticos que temos.”

Curiosamente, nos seus tempos áureos chegou a ter nove jardineiros a trabalhar nele — um número bastante curioso se tivermos em atenção que hoje são apenas quatro os profissionais que cuidam da Estufa Fria de Lisboa.

Casa Nossa Senhora da Vitória (Graça)

A Casa Nossa Senhora da Vitória é na realidade o Lar da Casa de Nossa Senhora da Vitória, onde vivem atualmente 70 idosas. “São umas senhoras muito engraçadas, com as quais já temos uma relação devido ao projeto de reciclagem das flores”. Este projeto chama-se Bem Me Quer, e destina-se a aproveitar o desperdício de flores de floristas e de eventos privados em atividades desenvolvidas por reformados.

Quanto ao jardim, Tomás Tojo descreve-o como o “paisagismo do jardim da avó”. Está cheio de rosas e papoilas, numa composição simples mas charmosa, cheia de pormenores. Há ainda uma capela. Um último pormenor: a Casa Nossa Senhora da Vitória tem uma vista impressionante para a cidade, uma vez que fica mesmo ao lado do Miradouro da Senhora do Monte. “Tem exatamente a mesma vista.”

Horta/Pátio do João e da Teresa (Misericórdia)

JULIAN RAINER

Situada na Praça das Flores, mesmo ao lado da gelataria Nannarella, e é um pátio que “não se dá muito por ele”. Pelo menos até começar a caminhar e perceber que existe ali “uma coleção incrível”. Apesar de o espaço ser partilhado por todos os vizinhos, quem cuida mesmo dele é o João e a Teresa. “É um pátio muito alfacinha, com a cadeira de plástico. Tem os estereótipos todos dos Santos Populares.”

Além do pátio, há uma horta onde não faltam morangos, alfaces e até umas sementes que vieram da China. “É muito engraçado, porque depois cada um tem as suas próprias coleções”.

Parque Vinícola de Lisboa (Olivais)

Manuel Levita

“É uma coisa meio bizarra, mas nós temos de facto produção de vinho no meio da cidade”. Acontece no parque vinícola, mesmo ao lado do Aeroporto de Lisboa. O espaço resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal e a Casa Santos Lima e tem aproximadamente dois hectares de área. Aqui foram plantadas uvas das castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Arinto e é um local único na cidade. De destacar também o interesse pedagógico, uma vez que serve para promover a cultura vínica num local, no mínimo, inusitado.

Pátio dos Prazeres (Misericórdia)

No número 49 da Rua dos Prazeres há mais um pátio escondido, tipicamente lisboeta. Tem painéis de azulejos, ganhou o prémio de pátio Mais Florido em 1999 e tem “um interlocutor fantástico, o senhor António Silva, que cultiva citrinos em tanques de roupa antigos”. Além disso, resgata flores que encontra na rua, leva-as para casa e cuida delas. “Tem uma relação com a natureza muito bonita.”

Jardim do Grémio Literário (Santa Maria Maior)

Fundado em 1846, o jardim privativo do Grémio Literário tem vista para o rio Tejo. Apesar de ser pequeno, tem muito charme. “Uma das suas particularidades é que é de muito difícil acesso, geralmente só se pode ir por convite.” Este fim de semana fica muito mais fácil. De destacar ainda que se trata de um projeto de Gonçalo Ribeiro Telles.

“É impossível estar num festival de jardins e não falar de Ribeiro Telles.” O arquiteto paisagista concebeu o jardim da Gulbenkian, entre muitos outros espaços verdes no País. “A Quinta de São Sebastião, que também faz parte do programa, teve igualmente uma intervenção de Ribeiro Telles.”

Pátio das Marias (Benfica)

“Era um terreno baldio que começou a ser ocupado por estas senhoras, que curiosamente penso que nenhuma se chama Maria, em regime de competição.” Como assim? Chegou uma pessoa e plantou uma coisa. Logo a seguir veio outra, e plantou outra completamente diferente. O resultado é um jardim diferente do habitual, mas muito romântico.

“É um caso de sucesso de como a comunidade começou a plantar, e a determinado momento a junta de freguesia começou a apoiar o projeto.”

Estufa Fria de Lisboa (Avenidas Novas)

“É na verdade o meu jardim favorito na cidade, por isso sinto-me muito privilegiado por conseguir abri-lo a toda a gente”. Nem toda a gente sabe, mas a Estufa Fria de Lisboa era na verdade uma antiga pedreira. Devido à existência de uma nascente de água foi necessário pôr fim à extração de basalto, e em 1912 o espaço tornou-se numa zona de abrigo para plantas delicadas, que iriam servir no plano de arborização da Avenida da Liberdade.

Problema: com a Primeira Guerra Mundial não foi possível avançar com o projeto de imediato, e as plantas acabaram por criar raízes no local. Em 1026, o arquiteto e pintor Raul Carapinha idealizou o projeto da Estufa Fria de Lisboa, que ficou concluída em 1930. Nos anos 40 todo o Parque Eduardo VII sofreu alterações, e a estufa não foi exceção. Ganhou lagos, uma enorme sala chamada a Nave, usada durante anos como teatro municipal, e uma entrada com um novo look. “É um jardim mesmo muito especial na cidade.”

Outras atividades que não pode perder

Workshops. Pode participar num atelier de reciclagem de flores (sábado, 10h30-12h), aprender a fazer tinturaria natural a partir de plantas e legumes (domingo, 15h-16h30) e descobrir como reduzir o desperdício em contexto doméstico (domingo, 10h30-11h30).

Mostra de design. No jardim de buchos do Museu da Cidade, no Palácio Pimenta, vai poder descobrir uma mostra de design entre as 10 e as 17 horas. A entrada é livre.

Cinema. No Centro de Inovação da Mouraria vão passar três filmes e duas curtas-metragens. Já na Estufa Fria de Lisboa vai ser projetada uma coleção de filmes da Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa sobre jardins da cidade.

Crianças. Workshops, curtas, visitas guiadas e oficinas pedagógicas. Os miúdos vão poder descobrir, entre outras coisas, o bosque dos passarinhos no jardim do Palácio de Belém ou fazer um workshop de madeiras.

Eco Picnic. Como fazer um piquenique com o mínimo de lixo possível? É fácil. Traga os seus copos de metal ou vidro, talheres e guardanapos de pano, e evite os sacos de plástico e as embalagens descartáveis. O Eco Picnic vai acontecer no sábado, entre as 17 e as 22 horas, no Jardim das Damas. A entrada é livre.

Ioga. Vai haver uma aula de ioga no Jardim da Estrela no domingo, entre as 9 e as 10h15.

Conversas. Acontecem no sábado e vão desde “o que queremos de um jardim?” até ao consumo consciente.

Festa de encerramento. No jardim da Cerca da Graça há uma festa de encerramento com DJ, mercado de trocas e uma estrutura verde criada pelo Estúdio Jaca. Acontece entre as 17 e as 22 horas.

Pode saber mais sobre a programação no site do evento.

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