Foi no início da semana passada, a 14 de maio, que a cantora Ariana Grande e o rapper Mac Miller se separaram: conflito de agendas e incompatibilidade de horários foi o motivo apontado para o fim da relação. Com agendas cheias, concertos por todo o mundo e uma vida sempre ocupada, não é de estranhar que algumas celebridades tenham dificuldade em manter uma relação estável. Será que este pode também ser, cada vez mais, a causa do fim dos relacionamentos modernos? A velha piada do guarda-noturno casado com uma  mulher-a-dias, em que nunca se encontram, porque quando um chega a casa está o outro a sair, e por isso é um casamento em risco, faz algum sentido? A MAGG descobriu que sim, ao falar com a psicóloga clínica Rosa Amaral, da clínica Europa, em Carcavelos, doutorada em aconselhamento, e que acompanha casais e famílias há 25 anos.

“Ainda esta semana tive uma cliente em que a sua relação acabou por chegar a um fim exatamente porque estão na fase inicial e havia pouca disponibilidade de tempo para a viver”, exemplifica a psicóloga para começar a explicar que, numa relação, o tempo é essencial. Principalmente “quando é uma relação que está no princípio, em que ainda não se viveram experiências positivas suficientes para ultrapassar esses períodos de tempo em que as pessoas acabam por estar mais afastadas”. No entanto, numa relação que tenha mais anos, há uma maior probabilidade de superar esse problema.

Os casais, hoje em dia, tentam manter o seu espaço individual a todo o custo. As pessoas não querem ceder os seus tempos individuais”.

O que se entende por início da relação?

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Hoje em dia não há um ritmo na evolução como antigamente, em que a pessoa pressupunha que ia namorar alguns anos porque tinha de fazer o enxoval, comprar casa e depois casar. Rosa Amaral explica que, “hoje, é flutuante: há pessoas que vão viver juntas ao fim de uns anos, outras ao fim de uns meses. Há pessoas que nunca se chegam a casar, outros que ainda cumprem mais ou menos os âmbitos da tradição”. Não há um início de relação comum a todas as relações.

No entanto, de acordo com a psicóloga, pode ter tudo a ver com a própria pessoa: “Vamos imaginar que tenho 30 anos, tive algumas relações e, se calhar, em algumas delas até saí um bocado magoada, mas estou disposta a atirar-me de frente para outra relação. Conheço um rapaz que teve umas quantas relações, uma delas foi muito séria: viveram juntos e a coisa não correu bem. Agora, está naquela fase em que quer estar mais descontraído. Estas pessoas começam uma relação: ela acha-lhe graça e começa a mergulhar de cabeça porque, na filosofia dela, mesmo que sofra, quer tirar o máximo partido de tudo. Ele, que tinha os planos de curtir a vida, até se começa a apaixonar, mas percebe que ela já começa a querer exigir mais da relação. Para ele, o tempo de relação é o mesmo do que para ela, mas ela está de uma maneira e ele está de outra”.

Ou seja, nestas fases, os investimentos de cada um e os tempos que cada um dedica à relação são também uma questão muito individual. “Para este rapaz, porque põe um travão para se proteger, o tempo é mais lato do que para ela. Ela não se importa de ir deixando correr. O tempo muda de relação para relação, como todas são diferentes e, mesmo dentro da relação, a perspetiva de cada um é diferente.  Por isso é que, às vezes, estas queixas de falta de tempo surgem: um até acha que está a dar tempo, mas não está a ser o tempo suficiente que o outro quer ou precisa”.

Outra das grandes questões está numa característica das relações modernas: “Os casais, hoje em dia, tentam manter o seu espaço individual a todo o custo. As pessoas não querem ceder os seus tempos individuais”. Só que, diz a psicóloga, no início é bom passar mais tempo juntos do que cada um para o seu lado. “Obviamente nós não temos de deixar de estar com os amigos ou de ter um momento individual e próprio, seja para ir ao ginásio, fazer uma caminhada ou tomar um café: estar em casal não é sinónimo de estar isolado do mundo. Mas, hoje em dia, em algumas das relações mais atuais, vê-se um bocadinho essa tendência de ‘não fazer o investimento inicial’, como se as pessoas tivessem receio de perder esses tempos se o dessem logo. Isso é algo que afeta as relações”.

Quando a falta de tempo tem a ver com o trabalho, Rosa Amaral acredita que a culpa está no modo como se vive o horário laboral e o próprio emprego: “Aquilo que se passa na nossa sociedade é que, hoje em dia, estamos a desenvolver demais este receio de substituição laboral e de responsabilidades (prestação da casa, do carro, por exemplo). Por isso, ficamos muito presos aos horários laborais e isso cansa-nos: seja qual for a profissão, hoje em dia, acho que há um cansaço mental elevado, com o ritmo em que vivemos”.

Depois, quando finalmente há um tempo, as pessoas tornam-se “pouco cuidadosas em respeitar esse tempo e em fazer uma entrega às relações”. Rosa Amaral explica que “as relações são algo de que a pessoa não se pode esquecer”, precisam de um investimento” e “um investimento mais de qualidade do que de quantidade”. Ou seja, se o companheiro sentir que, quando tem tempo, consegue estar presente e investir na relação, nem que seja meia-hora, elas duram.

As relações, mesmo com os problemas de incompatibilidade de horários, têm a possibilidade de ter uma durabilidade razoável se as pessoas assumirem que o pouco tempo que existe tem de ser gerido de maneira a que dê ao outro e receba do outro o suficiente para fazer sentido permanecer naquela relação. “Eu imagino que os horários possam ser relativamente incompatíveis, mas acho que não são ao ponto de não se conseguir acertar uma folga ou, de vez em quando, marcar uns dias de férias em comum”, esclarece a psicóloga.

Stalking: um crime real entre pessoas reais

É o caso de Daniela Félix, de 24 anos, técnica superior de análise de projetos numa associação empresarial: a sua relação dura há 9 anos e, desde há um ano que vivem juntos. Os problemas de horário incompatível começaram cedo e intensificaram-se com a casa nova e o facto de morarem juntos. “A mudança de um horário normal para um horário de turnos dificultou quer a gestão da casa e das tarefas a ela associadas, quer o facto de nunca podermos estar juntos, exceto ao fim de semana”, conta. E, mesmo no fim de semana, as coisas não acalmam: “O tempo torna-se escasso, com festas de aniversário, casamentos, batizados, almoços e jantares festivos. O simples prazer de estarmos aninhados no sofá, juntos, está quase tão distante como uma semana de férias em Cuba”.

Para Daniela a maior dificuldade é o não conseguirem viver os momentos essenciais a dois, “nem que seja aquela conversa sobre o dia anterior na cama ou aquele jantar romântico. A solidão acaba por se instalar um pouco porque não existe o momento de ‘cheguei amor’: ambos chegamos a casa sem encontrar o outro”. Com tudo isto as discussões passam a ser mais frequentes pois o pouco tempo que têm juntos e sozinhos acaba para ser para tratar de coisas que não conseguiram tratar durante a semana.

O que eu vou aconselhando aos casais é que, mesmo que tenham pensado as soluções e achem que elas podem não dar certo, experimentem”.

Rosa Amaral explica que, mais do que a incompatibilidade de horários, o que afeta as relações é a atitude do casal quanto ao problema. Se, quando lhes são apresentadas soluções, a resposta não pode ser dizer logo que não vai resultar, “porque já foram tentando e pensando as coisas de maneira a responder às necessidades que vão sentindo”, mas sim tentar: “O que eu vou aconselhando aos casais é que, mesmo que tenham pensado as soluções e achem que elas podem não dar certo, experimentem. Experimentando, as pessoas podem descobrir que realmente não conseguem fazer isto ou aquilo, mas conseguem outras coisas”. A solução passa por ajudar os casais a perceber que a solução ideal vai estar longe daquilo que se calhar será a realidade deles.

A psicóloga dá um exemplo para que se possa perceber melhor esta prática: “Vamos imaginar que uma coisa interessante, para si, quando está em casal, é sair para fazer um jantar romântico que tem de ser no restaurante específico onde se conheceram, que até é longe de casa e tem de se marcar com reserva (o que pode ser um impeditivo porque tem de se esperar e no dia em que está a reserva feita afinal pode não conseguir ir)”. E o casal vai-se prendendo nesses pormenores quando não é preciso: “É cinco estrelas a pessoa chegar a casa e o outro ter a sopa feita, sentarem-se ali meia hora a acarinharem-se, a comerem sopa juntos e, de repente, aquele momento não planeado, que não é no restaurante perfeito, é um investimento de tempo que quer dizer ‘eu estou aqui, eu gosto de ti’. Não é o ideal, mas é, dentro daquilo que é possível, uma escapadela que pode ser feita”.

Assim, a gestão do tempo pode tornar-se num dos maiores aliados do casal: “Ela deve ser adequada aos tempos que existem e readaptável à teoria de cada casal que acredita que se pode investir numa relação assim e fazer as tentativas necessárias para mudar essa realidade”.